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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

AGRIÕES DOS NOSSOS SAUDOSOS TEMPOS ÁUREOS

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Entre finais da década de oitenta e meados da década de noventa do século passado, ainda havia na ilha de Santo Antão muitos trapiches (ou, se assim preferirem, engenhos) movidos à tração animal, normalmente, bois e mulas. Mas, no meu caso, o que eu gostava mesmo era de ver aqueles bois possantes “cangados” no trapiche do meu avô paterno, lá em Agriões de Chã de Pedras. Davam um sem fim número de voltas à volta do trapiche, ao comando do “colador de bois” que, munido de um chicote e entoando cantigas de trabalho (“Eh boi!”), mantinha-os sincronizados na “canga” e motivados no duro esforço na arena do trapiche.

Bois sempre houve muitos no curral do meu avô! O seu amor pelos bichos era incomensurável, que lhe dava enorme prazer vê-los gordos, de pele vistosa e saudáveis. O curral do meu avô era uma pequena Arca de Noé! Fora os bois de trapiche, havia vacas e cabras leiteiras, ovelhas, galinhas de terra e de mato, perus, patos, porcos, burros e mulas. As porcas andavam livres pelo quintal traseiro da casa grande, ora remexendo a terra e o estrume, à procura de restos de comida, ora esteiradas à sombra, a amamentar os seus vários leitões.

O meu tio António de Chica conta que, uma certa vez, querendo o meu avô castrar um porco varão (em Santo Antão chamamo-lo “marrasco”), dias antes, mandou alguém ir avisar disso o Sr. Januário, um exímio capador de bichos que havia lá em Agriões. O Sr. Januário gabava-se que conseguia capar todos os bichos, machos e fêmeas, tanto é que capava gato e galo, e ainda interrogava a si mesmo se não seria capaz de capar uma mulher. Avisado que estava o Sr. Januário e com a devida antecedência que a responsabilidade exigia, era preciso garantir que, durante os dias que antecediam a delicada cirurgia, nem um pingo de álcool lhe iria parar à boca. Pois, capar um bicho exige que as mãos do capador estejam serenas que nem uma libelinha quando pousada num ramo junto a um charco de água. Assim, alguém ficou com a responsabilidade de “guardar” o Sr. Januário, a fim de evitar-se que o álcool lhe fosse ter à boca e comprometer a “capadura”.

E assim foi, durante esses dias, o Sr. Januário ficou na penúria de álcool, muito provavelmente contra a sua vontade, que nem os montes à espera da bafejada chuva. Será que conseguiram realmente enganá-lo ou estaria ele a preparar alguma astuta estratégia que só ele estaria a par até o seu desfecho?! Bom, o certo é que chegado o dia, lá estava o Sr. Januário, sereno que nem uma libelinha, pronto para capar o porco varão. Os ajudantes ataram os pés do bicho e puseram-no de costas voltadas para o chão. Foi então que o Sr. Januário, depois de lavar bem as mãos, mandou trazer o grogue para desinfetar os testículos do porco e a navalha. Ele juntou bem as duas mãos, em forma de recipiente (“côtchô”), para que nem um pingo do excelente grogue caísse ao chão, e deu ordem para que lhe enchessem as mãos. E zás-catrás! O homem sorveu o grogue que lhe depositaram nas mãos, até o último pingo! O meu avô levou as mãos à cabeça e gritou, já o mataram! Mas não, o homem era bastante resistente e as suas mãos iriam manter-se serenas que nem uma libelinha, enquanto estivesse a capar o bicho. Tinha experiência de sobra nesse assunto!

Assim que o grogue, depois de acariciar-lhe a garganta, sê-lhe assentou no estômago, que já há vários dias se encontrava sóbrio, o Sr. Januário disse-lhes: “Sim senhor! Agora sim, já podem colocar o grogue para lavar os testículos do porco”! E lá capou o bicho sem sobressaltos nenhuns, porque nessa matéria ele já era um cirurgião catedrático. Depois, com certeza, brindou o sucesso da operação com mais uns dois tragos do bom grogue e, no caminho para casa, mais um ou outro lhe terá descido pela garganta abaixo. Quando ele já estava quase a montar a “Tchãzinha”, sentou-se para descansar um pouco e, enquanto mirava a casa do meu avô, gritou bem alto: “sim, se fosse o Sr. Rufino vocês teriam enviado uma mula para ir busca-lo e depois levá-lo até Pia de Cima”! O Sr. Rufino é um exímio enfermeiro, hoje já reformado, e que, nesses tempos, era praticamente um médico que percorria os vários vales da ilha, levando auxílio médico àqueles que precisavam. Para o Sr. Januário, seria de todo justo que ambos recebessem o mesmo tratamento, pois um era um enfermeiro quase médico e o outro um capador quase veterinário. 

De volta aos bois, lá no curral tinha o Bem-Posto, Crioulo, Sandokan, Africano e muitos outros, dos quais já não me lembro os nomes. Belíssimos e possantes bois, capazes de transformar em calda centenas de braçados de cana-de-açúcar, numa única faina diária! Nós, os meninos, ficávamos a ver, com grande entusiasmo, esses bichos a fazer o trapiche jorrar calda que nem uma fonte depois das chuvas. Eles eram os nossos heróis, assim como eram o Sandokan, Bud Spencer, Sylvester Stallone, Chuck Norris e outros heróis que víamos nas videocassetes nos serões na casa do meu avô. Sempre que íamos ao curral, aproveitávamos para beber uma caneca de calda fresca. Na casa de calda, a calda era armazenada em pipas de madeira e latão, durante alguns dias, cumprindo o estágio de fermentação, antes de ser destilada no alambique. Assim, tinha a calda fresca que, depois de acrescida o tempero de “azugra” (refugo de calda destilada), transformava-se em calda temperada. Na fase seguinte, encontrava-se a calda ferventa, uma espécie de calda em ebulição, já com algum teor alcoólico, que gerava bolhas de álcool que explodiam à superfície da pipa. Por último, vinha a calda ventilada (“bentiada”), calda cujo processo de fermentação já se tinha cessado e que, em poucos dias, seria destilada no alambique.

Naquela época não havia eletricidade no vale da Ribeira Grande, coisa que só viria a acontecer na segunda metade da década de noventa. Assim, a noite trazia com ela o negrume total, fazendo despertar, nas nossas tenras mentes de menino, o medo dos seres da noite, principalmente de nhê M’ri Knilinha, uma criatura bruxa que, segundo os adultos, vivia na encosta para lá do caminho que passa junto à casa dos meus avôs. Dizia-se que ela aproveitava o escuro da noite para roubar as crianças que ousavam aventurar-se para fora de casa, levando-as para o seu esconderijo, onde as devorava, depois de cozê-las no seu caldeirão. Uma fantasia com contornos idênticos aos do conto conto alemão Hansel e Gretel.

Aproveitávamos assim os últimos momentos de luz à boquinha da noite para as atividades lúdicas e recreativas. Macaquinho chinês, sapatinho da licá, “mã gatxada” e “putim” eram algumas das atividades nas quais queimávamos o nosso tempo livre. Ao cair da noite, depois do jantar, ligava-se o gerador elétrico e toda a meninada e os adultos sentavam-se à volta da caixinha mágica, para ver os heróis do cinema em ação. Era um dos melhores momentos do dia, tanto é que, mal se ligava o gerador, o pessoal das redondezas vinha juntar-se a nós. No dia seguinte, discutíamos, nós os rapazes, qual de nós era o herói do filme do dia anterior (Sandokan, Bud Spencer ou Chuck Norris), enquanto recriávamos as cenas de luta que ficavam gravadas na nossa memória.

Em Agriões, dava-me imenso gosto acompanhar a minha avó nas suas idas às hortas. No Leandro ela tinha um pequeno cafezal, daí que alguns rapazes mais graúdos me batizaram de “Pê d’kefê”. Quase sempre ralhava-me com eles, mas tudo não passava de uma brincadeira. Quando íamos a horta de N’seta, colhíamos batatas-doce que eram uma delícia. Particularmente, eu gostava muito de comer crua uma espécie de batata-doce de cor laranja, à qual chamamos batata ginginha em Santo Antão. Lembro-me também de, nós os meninos, irmos apanhar agrião na Ribeira de Zebêl, momento que eu aproveitava para beber água alcalina numa pequena nascente que existia junto de uma captação de água. Também, nessas idas à Ribeira de Zebêl eu colhia sementes de tanchagem (“santaja”) que em casa misturava com leite de cabra quente. Era uma delícia!

Na época das chuvas, depois das cheias fazíamos as nossas piscinas na Ribeira de Lantxinha, cercando um troço dela com pedras e troncos de bananeira. Banhávamo-nos nelas por longos períodos, numa singular diversão, até ouvirmos o nosso avô chamar por nós. Nisso, desatávamo-nos a correr, feitos umas alimárias, na pressa de chegar em casa a tempo de evitar um doloroso encontro com o ingrato (assim se chamava o cinto do meu avô).  

 

texto @Socram d'Arievilo

foto @Calu de Mijona 

SINAKARMA – O DESTINO DE UM POVO ILHÉU

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Quis assim o destino que entre o maior deserto do mundo, o Saara, e uma das maiores zonas de convergência intertropical do mundo, a Monção do Atlântico Sul, brotassem do fundo do oceano umas pequenas e frágeis ilhas, onde a seca e a aridez predominam na maior parte do tempo. A localização geográfica das ilhas de Cabo Verde mais não é senão a morada de um anão no campo de batalha de eternas guerras titânicas entre dois gigantes de forças convergentes. O Gigante do Norte cospe areia e vento seco (bruma seca) para cima das ilhas, numa luta para tentar travar a subida do Gigante do Sul que, piedoso para com o sofrimento do anão que clama água&pão, faz empurrar a chuva na sua direção. É essa luta que moldou a face das ilhas e, posteriormente, o povo que nelas se fez habitar.

Entre junho e novembro, o Gigante do Sul posiciona todo o seu arsenal de ondas, depressões, tempestades e furacões tropicais, na expetativa de poder fazer uma breve incursão um pouco mais a norte, para levar água&pão, explorando alguma fraqueza do Gigante do Norte que, entre dezembro e maio, descarregou todas as suas forças maléficas em cima do anão. Mas, engana-se quem pensa que esta nobre missão do Gigante do Sul seja tarefa fácil e que o Gigante do Norte, ainda que fragilizado pela longa batalha de dezembro a maio, não dê luta. Para ele guerra é sempre guerra e tudo fará para continuar a sua expansão em direção ao sul, tentando engolir de vez o pobre anão. Por isso, por esta altura, ele adota a técnica de guerra de guerrilha, minando o oceano em torno das ilhas-anão, por forma a atacar, de surpresa, o arsenal do Gigante do Sul.

O desejo de água&pão é tanto, mas tanto, que ao longo do tempo o homem que habita este chão-anão aprendeu a ler, no meio envolvente, os sinais que, no seu entender, indicam o aproximar do Gigante do Sul. Na linguagem dos mais velhos, estes sinais são designados “salomões”. É, por exemplo, o cântico noturno do pedreiro, uma ave endémica destes ilhéus, que durante o período, que aqui se designa “azáguas”, no seu voo, solta um constante e estridente “tupi ti gudo”. Há também o lírio, que quando abre a sua flor, é sinal de aumento de humidade e provável chegada das chuvas. O brotar dos rebentos da purgueira, planta bastante resistente e adaptada ao clima maioritariamente árido, que fica desnuda com o agravar da seca mas que com o aproximar das “azáguas” começa a renovar-se e a gerar os seus figos. Assim como o surgimento de musgo verde junto aos rochedos à beira-mar. E, muitos e muitos outros!

Munido de uma esperança que praticamente consegue fazer mover montanhas, o homem aproveita esses sinais para preparar o tabuleiro da ilusão, no qual irá jogar a sua sorte na luta entre o Gigante do Sul e o Gigante do Norte. Ele sabe que o grão na boca é pão mas que também é preciso jogar alguns grãos no tabuleiro da ilusão para o milagre da multiplicação. Assim, faz acordar do sono de meses a enxada, para ser submetida à manutenção. Pois, é preciso levá-la ao ferreiro, para ser apontada, quiçá trocar o velho cabo por um novo ou mudar a cunha. Deixá-la novinha em folha para a azáfama que se aproxima!

Nos picos aguçados dos montes, as meninas nuvens ensaiam uma dança sensual. Descem e sobem os pontos mais altos das laterais do vale, esfregando-se neles de uma forma desavergonhada. Os montes sequiosos preparam-se para receber uma descarga de água, mas no preciso momento, as meninas nuvens fogem, a toda a velocidade, em direção ao mar, deixando a sua trás somente um rastro de gotículas de água que os montes lambem, desesperadamente, como cães no cio. Sentado à entrada da sua casa, o velho agricultor, de cachimbo na boca, vai também soltando nuvens de fumo, como se estivesse a imitar a dança sensual que acontece no cimo dos montes que ladeiam o vale. Ele sabe que o tempo de “azáguas” já se instalou. A razão e a experiência dizem-lhe que deve esperar um pouco mais mas a emoção e o desejo de água&pão atiram-lhe para o jogo.

Já com a enxada renovada, a "merada" da ladeirinha é convertida num tabuleiro, onde, em cada buraco, se atiram grãos que ficam à espera, enquanto os demais jogadores disputam as suas jogadas. Os pardais e os corvos são os batoteiros! Roubam do tabuleiro grãos ainda secos reduzindo as chances que o velho agricultor tem para triunfar. Cedo descobriram que o guarda instalado em posição estática é uma fraude. Seus braços não tem mãos para segurar uma funda para lhes atirar pedras e o seu único pé está preso ao chão, impedindo-lhe de correr. Em jeito de gozo, os bichos de asas transformam-no num poleiro, de onde fazem investidas para roubar grãos do tabuleiro.

Já vamos em agosto! Do céu ainda não caiu chuvas deveras! As sementes que germinaram com a queda das “orelinhas” de névoa são agora plantinhas que contorcem as folhinhas como se quisessem delas mesmas espremer a seiva que o céu lhes nega. É triste o cenário! O velho agricultor vê a sua esperança esvanecer-se, tal e qual as nuvens de fumo que ele solta do seu cachimbo. Esta sina que lhe leva a jogar no tabuleiro da ilusão, ano-após-ano de “capotes” e “chitadas”, vai-lhe corroendo o corpo e alma, tal e qual a ferrugem corrói  o ferro e o “carujo” traga o cabo da enxada. Mas ele sabe que, embora jogar neste chão grão&pão é quase sempre em vão, triunfar no tabuleiro da ilusão exige persistência e resiliência.

Assim, crente que agosto ainda vai terminar a gosto, entregando a setembro o chão molhado, ele remonta o tabuleiro da ilusão para a derradeira jogada. A jogada do tudo ou nada! Setembro que eu me lembro não é feito janeiro soalheiro! Finalmente, o Gigante do Sul triunfará sobre o Gigante do Norte, e as chuvas cairão do céu sobre este chão-anão! Gritaremos pela Santa Bárbara a cada eclodir do trovão que, em clarão do relâmpago, iluminará o vale, da Bordeira ao Tarrafal. Teremos água! Mas nem só de água se faz o pão. Que karma!

texto @socram d'arievilo 

imagem @sapo noticias (noticias.sapo.cv) 

ILHÉU DE QUIMERAS

O campo é agora uma fogueira

Despida de lenha

são os calhaus as suas brasas

À sombra da última figueira

deito-me!

De olhos cerrados

a ilha renasce

envolta num manto verde

que só o mar azul infinito

faz fronteira

Pelas colinas e montes

a água esguicha das fontes

e cascatas sem fim  des-

                                     p

                                     e

                                     n-cam na ribeira,

onde um rio ser~pen~tei~a!

Ao cambar do sol no horizonte

o vento de leve sopra cantante

sobre o denso milheiral dançante

que embala suas pequenas bonecas

de cabeleira solta tal qual alforrecas

Oh! O perfume das flores

e a miríade de cores!?

Tudo se apaga, do nada!

Sob a luz do luar

a ilha se cobre com um manto prateado

Abro-os-olhos, e a fogueira ainda arde…

 

Socram d’Arievilo inIlhéu de Quimeras

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Imagem @César Garcia 

BIOGRAFIA D'MORNA

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Morna catém pai

Órfão di mãe

Morna é di povo

Fidju querido di nôs tud

 

Na infância madrasta

Morna teve um vida ingrata

Ainda mininu el labuta na inxada

Na fugi di distinu triste d’ilheu

Pa trás el teve ki deixa sê cretcheu

 

Fetu marinher clandistinu

Na bordo di vapor el parti

E la na terra longe el discubri

Margura ma ilusão di s’tranger

 

Na sodad el perta violão na peito

El grita el canta cusas di sê berço

Na morabeza el conquista respeito

Hoje morna cá só nôs identidade

Morna é património d’umanidade

 

Nô levanta nôs bandera

Cada um di sê manera

Deixa canta voz di sê alma

Canta morna é di mundo

 

Texto: Socram d'Arievilo 

Imagem @António Firmino 

OS VELHOS, OS MENINOS E A MORAL: CONTOS DE STO. ANTÃO

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Santo Antão é uma ilha com um folclore sobrenatural de uma riqueza inestimável. Acontece que o advento da eletricidade a várias ribeiras, muitas delas encravadas entre montanhas que sobem abruptamente em direção ao céu, onde antes se vivia na escuridão total da noite, ocultou de vez o oculto que povoava as nossas mentes e nos fazia tremer de medo, só de ouvir falar nele. Associadas também à chegada da eletricidade está a televisão, e todas as demais tecnologias modernas que levaram à extinção as brincadeiras que a meninada fazia à boca da noite, em especial o hábito de sentar-se à volta de um ancião para ouvir contar estórias e lendas que depois não deixavam vir o sono ou invadiam-no, transformando os sonhos em pesadelos de cortar o fôlego. Sou desse tempo!

Recordo-me de nha Chica Guida, a segunda mãe de quase toda a meninada lá da zona. Parteira dotada de mãos de ouro e que, nos tempos em que quase toda gente nascia em casa, ajudava as mães a trazer os filhos ao mundo. O meu primeiro suspiro neste mundo devo-lho. Muitos de nós roubou-lhe fumo do seu cachimbo e, para a imitar, fazíamos os nossos próprios cachimbos de goiaba verde e piteira de bambu, onde colocávamos tabaco que furtávamos à minha avó. Embora a minha avó não fumasse, ela plantava e secava tabaco que oferecia à nha Chica Guida e nha Mri Laura.

À tardinha vinha nha Chica Guida visitar à minha avó, nha Biata. As duas ficavam a conversar por horas a fio, às vezes também tomava parte do sarau nha Mri Laura. Depois reuníamos junto delas, para que nha Chica Guida nos contasse uma estória. Estórias de capotonas, canelinhas, cachorronas, maçongues, feiticeiras, sereias, encantados, góngões…Lembro-me de uma em que uma mãe que estava à espera de um filho, um dia foi à merada e, na vinda, ao tentar pôr a carga de lenha sobre a cabeça, em dificuldades, escutou uma voz que vinha do seu ventre “ó mê, se’m esdob bo’n de contá ninguém?” (ó mãe, se eu te ajudar, não digas a ninguém?). “Se bô contá, nós dôs tê m’rê!” (Caso contares a alguém, morremos os dois!). A mãe ficou perplexa, mas aceitou a ajuda e guardou segredo. Quando o filho nasceu, esse era um encantado. Mamou e desapareceu!

Os encantados vão para o mar viver com as sereias. De vez em quando visitam as mães para poderem mamar. Mas regressam não na forma humana, mas sim de um bicho qualquer. A mãe não pode assustar-se se vir, por exemplo, um rato a tentar mamar do seu peito. Se gritar, desfaz-se o encantamento e o menino cresce com problemas mentais. De cada vez que o encantado regressa à casa para ser amamentado, traz grãozinhos de areia à sua mãe, que depois transformam-se em ouro.

No caso do encantado do conto de nha Chica Guida, após o parto, as pessoas da aldeia, desconfiadas do destino que a mãe pudesse ter dado ao filho, já que ela não dizia o que era feito dele, chamaram a polícia. Ela foi conduzida à prisão, por infanticídio. No dia seguinte, amanheceu em casa. Por várias vezes foi reconduzida à prisão e sempre voltava à casa, sem que a polícia soubesse como. Então a polícia acabou por deixá-la em paz.

Contava-nos também ela que os maçongues são homens que vendem a alma ao diabo em troca de riquezas. Para manter o pacto com o diabo, todos os anos têm que enviar-lhe a alma de alguém. Caso contrário, iam eles acertar as suas contas com o diabo. Então era costume alguém que andasse às tantas da madrugada sozinho, encontrar cavaleiros vestidos de branco e montados em cavalos brancos. A pessoa era então carregada e deixada num penhasco. Se não caísse e morresse, quando resgatada ficava louca para a vida toda. Também os maçongues costumavam enviar cartas escritas a vermelho. Se o destinatário abrisse a carta, não demorava muito tempo até ver a face da morte.

Noutro conto, havia o caso da “mulherzinha” que vinha à noite à casa de alguém para acalentar o filho. Ouvia-se o bater do pau no pilão ou da roupa na surradeira. Quem durante a vida cometesse um aborto tinha à sua espera, após a morte, uma penitência de 7 anos para cuidar do filho. Sempre que um vivo a afugentasse da sua casa, a sua penitência recomeçava do zero.

Quando se encontrava um cachorrona pelo caminho, convinha que o tratasse pelo nome de um cão do vizinho. Procedendo-se assim, o bicho voltava ao tamanho normal e acompanhava a pessoa até que essa chegasse à sua casa. Jamais se poderia dar as costas ao cachorrona! Quem o fizesse acabaria morto. O melhor a fazer, nesses casos, era entrar em casa de costas viradas para dentro e depois fechar a porta. Caso se encontrasse uma “canelinha” (a canelinha era um esqueleto humano que assombrava as pessoas) dever-se-ia andar às voltas e não em linha reta. Em cada curva ela desmontava-se por completo e, enquanto estivesse a recompor-se, a pessoa ganhava tempo para fugir dela.

Bruxa ou feiticeira, ser com rabo e que voava montado em vassouras. Tinha os dias em que elas tinham que ir voar lá pelas bandas de Curral das Russas e encontrar com o chefe delas, isso normalmente em noites de lua cheia. Teve um marido que andava desconfiado da sua esposa. Achava, com razão, que ela era uma bruxa. Um dia ele fingiu que estava a dormir e deixou sair a alma do corpo da esposa. Ao achar o corpo frio, com uma faca fez nele alguns cortes e aplicou sal. Quando a bruxa regressou, murmurou “en’foi assim q’m txob” (não foi assim que te deixei)! Não conseguindo voltar novamente ao seu corpo humano, a bruxa morreu!

Sobre as sereias, contava-nos que havia uma exímia parteira lá da Sinagoga que fazia o parto delas. Quando assim, vinha o rei delas buscá-la à beira-mar. Ela ia na sua companhia e realizava o parto. Em troca, davam-lhe grãozinhos de areia que se transformavam em ouro e cristais. Também havia a noiva da Boca de Cavoque que assombrava quem por lá passasse em horas minguadas.

Conforme se pode concluir, esses contos e lendas tinham sempre a eles associada uma lição de moral. Aproveitavam-se das trevas da noite para disciplinar as crianças. Duvido que, nessa altura, existisse algum adolescente destemido que ousasse sair de casa à noite para ir a uma festa e só regressar de madrugada. Por outro lado, nos contos das “mulherzinhas” encontramos uma lição de moral no sentido de prevenir a prática sexual com o início da puberdade. Se interpretarmos que “mulher” é aquela que já vive sob as suas responsabilidades, “mulherzinha” poderá ser vista como sendo uma adolescente que se está a armar em “mulher”. Se praticar sexo e daí engravidar, a adolescente vai tentar abortar, de modo a que os pais não saibam e por forma a não arcar com as responsabilidades de uma mãe. Assim, os mais velhos tentavam acobardar as meninas com esses contos que incluíam duras penitências depois da vida para quem praticasse aborto, tentando assim adiar o inicio das práticas sexuais para a vida adulta.

Hoje a realidade é outra. O mundo está demasiadamente esclarecido e a escuridão e suas trevas são coisas do passado. Ninguém já quer contar estórias e, tão-pouco, algum menino/adolescente as quer escutar. A televisão, as redes sociais e os telemóveis entram nas nossas vidas cada vez mais cedo, expondo as crianças a perigos vários. Para onde terá ido a moral?

 

FATCHE E LUME

Bordera de Zegrion tem bijon

Tem bijon cima fijon

Quem qui cá tá q’erditá

Esperá notê di lua cheia

Pá bá oiá fatche e lume

Di bordera té tapume

Ó nhe Mri d’Antona

Bordera já pega lume

Fatche e fatche

Fatche e lume

Coitado di Manelinho

Sê distino na mundo

Lá na fundo d’Ribeirinha

N’esquivâ du’m canelinha

Findá pá meia notê em pino

Ó nhe Mri d’Antona

Bordera já pega lume

Fatche e fatche

Fatche e lume

 

Socram d’Arievilo 

Santo Antão e a Madeira: gémeas “falsas” separadas à nascença?!

 

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 Foto ilha de Santo Antão: Lonely Planet

A Madeira e Santo Antão são duas ilhas que compartilham muitas semelhanças, mas também muitas diferenças. Em termos de dimensão, as duas ilhas são praticamente do mesmo tamanho: enquanto Santo Antão tem 779 km2, a ilha da Madeira fica pelos 742,4 km2, ou seja, uma diferença de 36,6 km2 a mais para Santo Antão, o que corresponde praticamente ao tamanho da nossa pequena Santa Luzia (35 Km2). Mas, ao contrário de Santo Antão, a Madeira, juntamente com o Porto Santo, as Desertas e as Selvagens, é uma região autónoma de Portugal e, portanto, parte integrante da União Europeia. Já nós por cá, desde 1975, somos, juntamente com as demais 9 ilhas que compõem o nosso arquipélago, parte de Cabo Verde, um país que, não obstante as controvérsias, se considera africano.

 

Tanto Santo Antão como a Madeira fazem parte da Macaronésia (ilhas afortunadas), um conjunto de ilhas atlânticas do Atlântico Norte, situadas entre a Europa e a África, ao qual se junta uma extensa porção da costa noroeste africana que vai do Reino de Marrocos ao Sahara Ocidental (este último, uma antiga colónia espanhola hoje ocupada pelo Reino de Marrocos e reivindicada pela Frente Polisário). É verdade que, ao contrário dos nossos primos mais a norte (Arquipélago da Madeira e dos Açores), as Canárias, Cabo Verde e a faixa litoral africana adjacente não foram assim tão abençoados pela chuva. As Canárias, ainda assim, à exceção das ilhas mais “coladas” ao continente africano (Lanzarote e Fuerteventura), consegue ter ilhas (La Palma, La Gomera, El Hierro, Gran Canária e Tenerife) com clima bastante aprazível, com os picos montanhosos e encostas cobertos de florestas de pinheiros e louros. 

 

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 (Ribeira Brava: Ilha da Madeira (olhares.sapo)

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Ribeira da Torre: Ilha de Santo Antão (weather2travel.com)

Por cá, embora o nosso arquipélago esteja localizado numa das zonas de convergência de uma das massas de ar mais pluviogénicas à face da terra (a monção do Atlântico Sul) onde se formam os furacões mais destrutivos que chegam a alcançar a costa atlântica americana, a chuva é, na grande maioria das vezes, uma utopia. Mesmo quando ela vem, é bastante passageira e mal distribuída no espaço. Ainda assim, Santo Antão consegue, em termos climáticos, aproximar-se muito da sua irmã gêmea Madeira. Tanto é que temos a nossa pequena floresta de Água das Caldeiras e Pico da Cruz, que não se compara em dimensão à Laurissilva da Madeira, todavia igualmente exuberante. O Dragoeiro, outrora bastante comum no nosso país e nos demais arquipélagos macaronésios, ainda é possível encontra-lo em um ou outro ponto da ilha de Santo Antão. Quem sabe em tempos remotos estas nossas ilhas, principalmente as montanhosas, não tenham sido cobertas por exuberantes florestas de Dragoeiros (o tal Jardim das Hespérides!), tal qual ainda é hoje o nosso irmão Socotorá, arquipélago situado no indico e que, embora dista apenas 250 km do Corno de Africa, é parte integrante do Iémen (país da península arábica).

 

Santo Antão, tal como a Madeira, tem uma Ponta do Sol e um Paul. Cá temos a Ribeira Grande e eles lá têm a Ribeira Brava. A Ribeira Brava (Madeira) só faz lembrar a foz da Ribeira da Torre. Até o planalto sobranceiro à margem direita da Ribeira Brava faz lembrar o Alto de São Miguel subindo em direção ao Pinhão, só que eles lá não tem (as normas europeias jamais permitiriam tal) as pocilgas que encontramos na Boca de Pinhão que não só são antiestéticas como exalam “une fragrance que nous rappelle de la m#r#e”). Paul, a Madeira tem do Mar e da Serra. Ah, mas nós também temos! Paul a beira-mar, onde a Cidade das Pombas recebe os beijos das ondas atlânticas, na foz da ribeira mais majestosa que há em Cabo Verde, que sobe em direção à Serra (Pico da Cruz), passando pelas belas aldeias do Eito, da Passagem e do Cabo da Ribeira. Só não temos as belas estradas alcatroadas que, quando encontram as montanhas que sobem a pico, entram em tuneis que cortam a ilha em todas as direções. Como assim não temos? Já me estava a esquecer dos tuneis que também, na Janela, nos permitem vencer a montanha, intransponível durante muitos anos, e que hoje nos fazem chegar ao Porto Novo, contornando a orla marítima da costa nordeste, numa estrada de alcatrão. Também, a majestosa Ribeira da Torre é serpenteada por uma belíssima estrada de alcatrão que vai da Cidade da Ribeira Grande até ao Xôxô. Mas, se tivéssemos recursos como tem a Madeira, também haveríamos de ter uma estrada Porto Novo - Paul - Ribeira da Torre - Ribeira Grande - Garça - Altomira - Tarrafal de Monte Trigo, com tuneis a penetrar as espessas montanhas e a conectar todos os vales e a orla costeira da ilha. Neste cenário, ir da Garça ao Altomira, por exemplo, seria um percurso de poucos minutos e não de várias horas, como é atualmente. Aí sim, Santo Antão e a Madeira teriam muito mais em comum para além das belezas naturais e lugares homónimos! 

 

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Vila da Ribeira Brava: Ilha da Madeira (Foto Amores)

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Cidade da Ribeira Grande: Ilha de Santo Antão (Habitat Dinâmico)

A Madeira tem bananas que dizem ser as mais saborosas de Portugal. Dizem isso porque hoje Santo Antão já não é parte de Portugal! As nossas bananas, que se produzem em grandes quantidades nos vales das ribeiras da Torre, Grande e do Paul, que em tempos chegavam às mesas das gentes da metrópole, são um requinto! A Madeira também tem cana-de-açúcar, mas não tem em quantidade que há na nossa ilha de Santo Antão! Dizem que Santo Antão produz 80% da cana sacarina de Cabo Verde, mas devido ao açúcar refinado o nosso Grogue, que hoje poderia destronar qualquer Whisky, ser degustado por reis e rainhas da Europa, por atores e actrizes de Hollywood, e por homens de renome do mundo dos negócios, tem pouco valor de mercado. Na Madeira não! Lá tem Poncha, tem aguardente e tem mel, em pequenas quantidades, mas com elevado valor de mercado. Quem tem visão sabe que qualidade e quantidade não são sinónimos e que mais vale pouco por muito que muito por pouco. Na Madeira sabem disso. Ah, se sabem!

 

Quando se fala em turismo nas ilhas atlânticas da Macaronésia, a Madeira é uma das rainhas! Em 2017, o arquipélago recebeu o total de 1,4 milhões de turistas que nele pernoitaram ao todo 7,5 milhões de noites. Estes dados representam um volume de negócios a volta dos 400 milhões de euros. É claro que o Porto Santo também contribui para esta performance, mas a jóia da coroa é a Madeira! Esta ilha é muito procurada principalmente pelo seu Carnaval do Funchal, Festa da Flor e as festividades alusivas ao Natal e Fim-de-Ano. Mas os atrativos não se resumem apenas às festividades. A ilha da Madeira é simplesmente bela! De aspecto montanhoso, tal e qual Santo Antão, a Madeira é trilhada de vales verdejantes e de água cristalina. Essa água cristalina resultante das abundantes chuvas e condensação do nevoeiro nas copas das lauráceas que cobrem os picos montanhosos dessa ilha é conduzida por uma extensa rede de levadas, que a levam das vertentes orientadas para norte para o lado sul da ilha, onde ela é menos abundante mas que é onde se encontram boa parte da população madeirense e a maioria das plantações, como é o caso da cana-de-açúcar. Atualmente, as levadas da Madeira são um produto turístico muito procurado. Nos vários vales verdejantes situados principalmente na encosta noroeste da ilha de Santo Antão, a mais pluviosa da ilha, também há várias levadas que conduzem a água das nascentes a montante para as parcelas de terreno localizadas em ambas as margens no sentido montante-jusante e principalmente ocupadas pela cana sacarina. Mas, ao contrário da Madeira, em Santo Antão as levadas não estão bem sinalizadas e não se posicionam, por enquanto, como um produto turístico de excelência desta ilha.

 

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 Cachoeira no Litoral Norte: Ilha da Madeira (Rechitansorin)

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Cachoeira de Neve: ilha de Santo Antão (Mikecv)

Por falar em turismo, no caso de Santo Antão, a ilha não tem as instalações portuárias e aeroportuárias que há na Madeira. Temos um Porto, mas a sua dimensão só permite que nele atracam navios cruzeiros de pequena e média dimensão, e aeroporto, pelo menos por agora, apenas projeto. Assim, não obstante as várias potencialidades que há em Santo Antão, são poucos os investidores que nela queiram arriscar os seus capitais, donde o turismo é praticamente incipiente e sazonal. Em 2018, dos 716 mil turistas que escolheram as ilhas de Cabo Verde como destino para gozar as suas férias, apenas 26 mil (3,6% do total) passaram por Santo Antão. Todavia, esse valor representa um crescimento de 24%, face ao período homólogo, o que por si já é um dado animador para os operadores locais e sinal que a ilha está a conseguir paulatinamente conquistar o seu lugar no panorama turístico cabo-verdiano.  

 

As maiores potencialidades de Santo Antão são os seus vários quilómetros de caminhos pedestres (principalmente o que desce da Cova ao Paul) e os seus vários vales verdejantes. Outros produtos que talvez ainda carecem de um maior aproveitamento são a culinária da ilha, as festas de romaria, o próprio processo de fabrico do grogue e, porque não, as redes de levadas que devem receber obras de sinalização e de melhoramentos, em termos de segurança. Não podemos nos esquecer igualmente das vistas estonteantes que temos do cimo das montanhas e que nos convidam a contemplar os vários vales que descem em direcção ao mar e as ilhas vizinhas, quando o nevoeiro assim o permitir. Essas vistas seriam muito mais agradáveis se nesses locais construíssemos miradouros.

 

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 Casa Típica: Ilha da Madeira (gatyourguide.es)

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Casa Típica: Ilha de Santo Antão (flickriver.com)

Como se pôde constatar ao longo deste texto, Santo Antão e a Madeira no plano natural partilham imensas características, donde, em termos de planeamento turístico, não podemos nunca deixar de olhar para essa “irmã gémea” como uma inspiração para fazer de Santo Antão uma referência do turismo rural e sustentável de Cabo Verde. É verdade que a Madeira não só é mais verde e mais rica que a nossa Santo Antão, mas podemos sempre aproveitar melhor as semelhanças entre elas para, ainda que pouco, reduzir as diferenças que as separam, principalmente no plano de desenvolvimento económico.  

 

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 Vista Panorâmica: Ilha da Madeira (Madeira.best)

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Vista Panôramica: Ilha de Santo Antão (keadventures)

O CABO-VERDIANO ENQUANTO UM PRODUTO DA ESCRAVATURA MOLDADO PELA ARIDEZ DAS ILHAS

Cabo Verde, embora arquipelágico e insular, é um país que, pelas suas características geomorfológicas e climatéricas, se enquadra no Sahel. O Sahel (que do significado árabe quer dizer “costa” ou “fronteira”) é uma faixa terrestre no continente africano, com uma largura média entre 500 a 700 km e comprimento de 5400 km, delimitado ao norte pelo deserto do Saara, ao sul pela Savana do Sudão, a oeste pelo oceano Atlântico e o mar Vermelho a leste. Trata-se de uma região que recebe escassas precipitações, entre 150 a 300 mm por ano, extremamente vulnerável a longos períodos de seca e, consequentemente, afetada por graves e mortais epidemias de fome.

 

No caso de Cabo Verde, desde a sua descoberta em 1460 e posterior povoamento com brancos oriundos da Europa (Portugal) e escravos capturados no continente africano (Costa da Guiné) muitos têm sido os episódios marcados por longas secas e consequentes epidemias de fome que resultaram na morte e emigração de boa parte da população do país. No século passado, um dos mais longos e impetuosos períodos de fome foi a chamada fome de quarenta que durou praticamente uma década (1940-1950). Se tivermos em conta que nessa altura Cabo Verde ainda era uma colónia portuguesa (Portugal vivia o tempo de ditadura do Estado Novo: 1933-1974) e que o mundo enfrentava a segunda maior guerra dos tempos modernos (Segunda Grande Guerra,1939-1945), sem a devida assistência alimentar essa fome teve um forte impacto na estrutura da população cabo-verdiana.

 

Desde cedo que o homem cabo-verdiano teve que aprender a se adaptar ao clima árido destas ilhas, tanto é que a música, a literatura, a arte, os usos e costumes e as tradições deste país, de um modo geral, são um produto resultante desta contínua luta que, desde os nossos primórdios, vem sendo travada entre o homem e a seca. Portanto, hoje se somos um povo reconhecido no além-fronteiras pela sua brilhante literatura e riquíssima música, (in) felizmente, em parte, devemos isso a influência da seca nas nossas vidas.

 

Em 2017, mais uma vez a seca assolou estas ilhas e ainda se vive as consequências dela resultantes. Felizmente, hoje ela já não tem o acentuado impacto nas nossas vidas, tal como nos outros tempos, e podemos contar com a pronta ajuda da comunidade internacional para mitigar os seus efeitos, principalmente no mundo rural onde se depende sobretudo das atividades ligadas à terra (agricultura e pecuária). Todavia, com o aquecimento global tendem-se a agravar e a tornarem-se frequentes os períodos de seca, em especial na região onde se enquadra o nosso país, pelo que temos que estar sempre prevenidos para situações como esta que se vem enfrentando desde há quase um ano. Infelizmente, por mais que queiramos e ainda que chova em abundância em algum ano, não se pode ignorar a presença da seca nas nossas vidas. Pois, somos um produto dela.     

 

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BOI NO TRAPICHE: MOENDO HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA

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 (imagem: Inforpress)
 

Uma das coisas que mais me orgulham nesta vida é o facto de ter nascido na ilha de Santo Antão. Saber que a minha placenta foi reduzida a cinzas que se misturam ao solo vulcânico dessa ilha faz-me sentir parte dela, de tal modo que existe um cordão umbilical no meu imaginário que nos liga num laço eterno. Santo Antão é, e sempre será, a minha maior fonte de inspiração. 

 

Hoje, estive a recordar, com bastante saudosismo, o tempo em que havia na ilha muitos trapiches movidos à tração bovina. Ainda eu menino, o meu avô paterno tinha um desses trapiches que era movido por possantes bois. Lembro-me perfeitamente que havia o Sandokan, o Bem-Posto, o Crioulo, o Africano...entre muitos outros. Era uma alegria enorme da meninada ver aqueles bois aos pares serem "cangados" ao trapiche, um de dentro e outro de fora, para depois serem "colados" por um homem que ia logo atrás deles, fazendo no ar círculos com um chicote em forma de ameaça, enquanto ia entoando palavras de encorajamento ("eh boi"). 

 

De um lado do trapiche posicionava-se um homem cuja responsabilidade era introduzir as canas nas estreitas aberturas que existiam entre os "ferros" de trapiche. Do lado oposto, um outro homem reintroduzia o bagaço de volta numa das aberturas, de forma a espremer o máximo de calda possível da cana. O bagaço era recolhido junto do primeiro homem e depois espalhado nos "terraços" onde ficava a secar ao sol. O processo de “introduzir cana-virar bagaço” no trapiche não era tão simples como à primeira vista poderá parecer. Exigia muita agilidade e cuidado da parte de quem estava encarregue da tarefa e não raras vezes acontecia a fatalidade de alguém introduzir alguns dedos por entre os ferros juntamente com as canas ou o bagaço.

 

A calda era recolhida em baldes de latão ou de madeira e depois despejada em pipas que eram armazenadas na casa de calda. Lá ela ficava em processo de fermentação por alguns dias até ficar pronta para ser levada ao alambique para dela se destilar a aguardente. A calda “ferventa”, ainda bastante adocicada, quando bebida dava umas mocas que deixava a pessoa a ver o mundo a girar. No alambique, à calda “ventilada” juntava-se uma porção de água-pé (“repé”) e, por efeito do aumento da temperatura que se produzia no forno (“forro”) do alambique, a mistura condensava-se no cabeção de onde ela seguia para o cano. Ao longo de uma calha feita de mastro de sisal, o cano de metal era arrefecido por água corrente, fazendo com que o vapor de aguardente passasse para o estado líquido. A aguardente era recolhida em garrafões que depois eram depositados nos alçapões existentes na casa do meu avô. De lá seguiam para São Vicente e São Nicolau, ilhas onde eram vendidos a preço de ouro.

 

A faina da cana-de-açúcar ia de meados de Fevereiro até Junho. Com a chegada do tempo das “aságuas” os bois eram enviados para campo-abaixo para livremente pastarem ao longo de alguns meses na erva verde  que crescia com a chegada da chuva. Nessa altura, deslocávamo-nos para “Tabuadinho” para a sementeira e por lá ficávamos por um longo período. Uma das principais diversões da criançada era montar armadilhas (“sorças”) para a caça dos pardais. Pardal assado é um manjar que só quem já o comeu sabe quão delicioso é. Hum, só de lembrar já tenho a boca a salivar!

 

Com o tempo, as secas, o aumento dos mil-pés, a introdução da cana BC14 e os engenhos movidos a motor mudaram drasticamente o quotidiano rural da ilha. Os trapiches aos poucos foram desaparecendo, dando lugar a esses engenhos mais eficientes, não obstante muito barulhentos, e os bois reformaram-se. A aguardente perdeu a sua essência e o seu genuíno sabor. Numa economia de loucos, juntou-se o açúcar refinado à calda pura de cana para se produzir cada vez mais por menos, até que o preço de um litro de "aguardente" chegou mais ou menos próximo do valor pelo qual se compra 1,5 litros de água engarrafada. Muita gente morreu por culpa do abuso do álcool. Muitos jovens tiveram que (e) migrar para fora da ilha à procura do emprego que por lá começou a escassear. O resultado é aquele que está à vista de todos: uma ilha de potencial à beira do colapso. Até quando?

 

Aos valentes homens que souberam dignificar o nome de Santo Antão dedico “Kêpritche nê Terpitche”, na esperança que a nossa geração e as vindouras consigam ainda a tempo mudar o curso da ilha.

 

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(autor desconhecido)

 

KÊPRITCHE NÊ TERPITCHE

 

ja’s cangá boi nê terpitche

amosh, ah cuitod de ks bitche

sis vida ê só rêdiá e mais rêdiá

oh tont rêdiá c’tá fezê gente mêriá

 

eh cangá blimundo ma zêbion

eh d’scangá zêbion, cangá truvon

eh d’scangá blimundo, cangá zêbion

um cangá-d’scangá boi dê confuzon

 

ó jôn d’zidor mêtê cana

kêpritche nê terpitche

ó menêl d’tiudor d’svrá bogosse

kêpritche nê terpitche

oh mosse bsot mexe’m e’ch brosse

 

cana d’strengêr insocôd nô sôc

oh deus cê velê’m esse praga

kê merdon en’é aguardente

é vênene c’ti tá matá gente

 

min sis largue’m dô mon

má ess estória de fezê merdon

só pa estod tá intchê nê bidon

pa depôs bem sei tá matá criston

 

eh djô bique

ah tont t’ma côquê

ma grogue tá mut frôquê

nô têm kê reforçá limbique

 

pirulito ôa bô é meldito

bô crê tchêpá c’nem kêbrito

ah sê bô en’ fezê’m ks quitche

hoje e’m tá mandá pôb berbitche

 

Em memória de Nênê e Menêl de Polina (que as vossas almas estejam em paz) 

Aventuras da Páscoa na ilha do Fogo: a volta à ilha

Cabo Verde é sim “um país dez destinos” que vale a pena ser percorrido de Santo Antão à Brava. É verdade que a falta de transportes nalguns percursos inter-ilhas e os exorbitantes preços praticados noutros acabam por funcionar como uma barreira que dificulta imenso a vida de quem quer conhecer todos os cantos e recantos deste arquipélago. Ainda assim, com um pouco de esforço e uma boa dose de paciência, aos poucos vai-se cumprindo este sonho.

 

Ainda até há poucos dias eu não conhecia uma das mais belas e impressionantes ilhas de Cabo Verde. Por isso, no fim-de-semana da Páscoa resolvemos fugir um pouco ao stress da vida citadina da nossa capital Praia e ir conhecer esse belo destino, ilha do Fogo. O Fogo é uma ilha de 476 Km quadrados que na realidade não é mais que a cratera de um enorme vulcão que entre a linha costeira e o ponto mais alto contam-se exactamente 2829 metros. E, ao contrário das outras ilhas do arquipélago de Cabo Verde cujos vulcões “calaram-se” há milhares ou mesmo milhões de anos, o Fogo continua vivo e, numa média de 20 em 20 anos, resolve cuspir fogo sobre Chã das Caldeiras. A última vez foi em 23 de Novembro de 2014. Ao todo, desde que a ilha foi descoberta pelos portugueses em 1460, o vulcão já entrou em erupção 25 vezes.

 

Bom, deixando de lado a história, a geografia e a geologia da ilha que já são do conhecimento de todos, vamos lá conhecer as (minhas) nossas aventuras da Páscoa na ilha do Fogo. Partimos do aeroporto da Praia Nelson Mandela às 9h00 da sexta-feira Santa rumo à ilha do Fogo, num voo da Binter Cabo Verde. Em menos de meia hora tínhamos aterrado no aeródromo de São Filipe. A medida que nos íamos aproximando da ilha via-se o imponente e omnipresente vulcão que é contornado pelo avião até aterrar em São Filipe.

 

Apanhamos um táxi que nos levou até o empreendimento turístico Casas do Sol. O Casas do Sol é bem acolhedor. Trata-se de um conjunto de pequenos apartamentos (em forma de casinhas) dispersos uns dos outros, onde em cada um se tem uma pequena kitchenette que se pode utilizar para confeccionar as refeições. Pois, por lá só se servem pequenos-almoços durante a estada. Há uma pequena piscina e tem-se acesso directo a uma extensa praia de areia negra cujo empreendimento lhe-é sobranceiro. O som das ondas a quebrarem na areia negra juntamente com chilrear dos passarinhos (principalmente pardais) transformavam-se numa doce melodia que nos convidava a deitar numa das espreguiçadeiras dispostas à volta da piscina, mas aquele não era o melhor momento. O tempo era pouco, ainda não tinhamos tomado o pequeno-almoço e tinhamos que conhecer em apenas três dias a cidade de São Filipe e toda a ilha do Fogo, especialmente Chã das Caldeiras.

 

O centro histórico de São Filipe é um dos mais belos que há em Cabo Verde. Quase todas as residências históricas têm sobrados e varandas. As ruas estão asseadas, possuem plantas a adorná-las e praticamente todas são empedradas. “Descobrimos” o Tropical Club, onde paramos para tomar o pequeno-almoço. Pedimos cachupa acompanhada de ovo estrelado e chouriço e uma meia de leite para despertar o corpo. Mas antes foi-nos servido um sumo natural de papaia para deliciar e refrescar a alma.

 

Satisfeitos, lá saímos a passear pela cidade. Fomos ao Presídio (ninguém foi preso, risos), praça onde se realizam as festas de Nhô São Filipe. Paramos no mercado municipal para ver o que havia de novidades por lá e não que encontramos umas mangas à venda. Compramos algumas para comer mais tarde. Pensamos em ir conhecer a zona das salinas que dizem ser um lugar de belezas esplêndidas. Paramos um taxista que nos disse que nos poderia fazer o percurso até lá, e que com uma paragem de 10 minutos antes do regresso, ficava pelo valor de 6 mil escudos o mesmo valor que ele cobrava até Mosteiros num percurso de ida-e-volta. Optamos por ir conhecer então a cidade de Mosteiros e almoçar por lá. O taxista chamava-se Zé Carlos. Rapidamente, ficamos a saber que ele era uma pessoa bastante simpática e com muita experiência na prestação de serviço de transporte de turistas.   O caminho até Mosteiros faz-se pelo Anel Rodoviário do Fogo, uma estrada moderna e asfaltada, mas não em todo o percurso. Gastou-se muito mais do que o investimento inicialmente previsto e não se construiu metade do anel rodoviário que deveria ligar todos os três concelhos do Fogo. Mas isso não é nenhuma novidade nas obras públicas em Cabo Verde. Obra sem derrapagem neste país talvez só com milagre.

 

Pelo caminho, o nosso taxista foi parando nalguns locais estratégicos para que pudéssemos contemplar melhor a paisagem. Afinal, resolvemos não ficar por Mosteiros mas sim, por mais 2 mil escudos (8 mil escudos no total), fazer a volta à ilha, retornando à São Filipe via Santa Catarina do Fogo. Paramos nos Mosteiros apenas o tempo suficiente para almoçar. Embora eu não seja um católico praticante, pelo enorme respeito que tenho à Igreja e em honra ao período quaresmal, resolvi comer peixe e não carne. A escolha recaiu sobre serra grelhada com legumes. Concluído o almoço, foi hora de retomar a estrada. Por sugestão do taxista, antes de apanharmos a estrada principal, fizemos um pequeno desvio até Chã de Feijoal para conhecer os cafezais onde se colhe um dos cafés mais saborosos do mundo. No percurso, fizemos uma paragem num miradouro que dá para contemplar a cidade dos Mosteiros. A vista é deveras gratificante. Em Chã de Feijoal, o café já tinha sido colhido e nalgumas casas era possível ver as cerejas de café a secar, para depois virem a ser debulhadas, torradas e embaladas. Normalmente, boa parte da colheita segue para o mercado internacional, onde o café do Fogo é bastante requisitado e altamente cotado.

 

Como já começava a fazer-se tarde, seguimos a nossa viagem em direcção à São Filipe (via norte). Pelo caminho paramos ainda num outro pequeno miradouro com vista para o mar. Na estrada vi algumas galinhas de mato em voo. Àquelas horas provavelmente estavam à procura de um poleiro seguro para descansarem. Passamos pela cidade de Cova Figueira, mas dado o avançar das horas não foi possível fazer uma paragem. Combinamos com o taxista levar-nos no dia seguinte à Chã das Caldeiras. Chegamos ao Casas do Sol e fomos imediatamente tomar um banho de água morna para relaxar o corpo antes de sairmos à procura de um local para o jantar. O jantar foi no Zebra Corner (Casa Colonial), um restaurante bastante acolhedor e com um excelente serviço. Dessa vez, a minha escolha foi búzio. Bebemos uma deliciosa caipirinha e saboreamos um divinal pudim de queijo. De seguida, voltamos ao empreendimento turístico para descansar porque às 8h00 da manhã tínhamos que estar de pé para subir ao Pico do Fogo. Não imaginam como eu estava bastante ansioso para descobrir Chã das Caldeiras e as suas gentes. Mas isso é história para um outro dia.

 

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Às estrelas da nossa terra

Hoje é um dia especial para as nossas mulheres. Não que elas não merecem ser amadas e cuidadas todos os 365 dias do ano, mas hoje temos que lhes dedicar o dobro daquilo que lhes dedicamos ao longo dos restantes 364 dias. São elas os pilares que sustentam as nossas vidas, desdo o berço até ao fim. Também é com elas que começa a vida e é com elas que acaba a vida. Portanto, cuidemos da melhor forma dessas flores que perfumam e deliciam as nossas vidas com o seu doce néctar. Feliz dia mulheres cabo-verdianas! 

 

A vocês, estrelas...

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Estrela

 

bôs odjos brilhante

tá lumiá na nha frente

na um brilho penetrante

moda um estrela cadente

 

nha coração ta baté

na nha peito di minino

amor é um obra di distino

c’na vida é tudo o c’m crê

 

oh  estrela dimeu

ai cma’m crêbu tcheu

cima um farol lá na djéu

bô é que brilho di nha céu 

 

estrela bô é bela

bela c’nem donzela

estrela bô é bela

bela c’nem aguarela

 

luaaaa, bô é sedutora

bô tem brilho di diamante

tá crê ofusca’m tudo hora

ma mim cá crê ser bô amante

 

nha amor é estrela

nha coração é só dela

e té momento di nha partida

mim ca crê ot amor na nha vida.

 

Socra'm d'Arievilo in "A Pedra do Letreiro" 

imagem: "vaidosa crioula" de Kiki Lima