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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

BIOGRAFIA D'MORNA

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Morna catém pai

Órfão di mãe

Morna é di povo

Fidju querido di nôs tud

 

Na infância madrasta

Morna teve um vida ingrata

Ainda mininu el labuta na inxada

Na fugi di distinu triste d’ilheu

Pa trás el teve ki deixa sê cretcheu

 

Fetu marinher clandistinu

Na bordo di vapor el parti

E la na terra longe el discubri

Margura ma ilusão di s’tranger

 

Na sodad el perta violão na peito

El grita el canta cusas di sê berço

Na morabeza el conquista respeito

Hoje morna cá só nôs identidade

Morna é património d’umanidade

 

Nô levanta nôs bandera

Cada um di sê manera

Deixa canta voz di sê alma

Canta morna é di mundo

 

Texto: Socram d'Arievilo 

Imagem @António Firmino 

OS VELHOS, OS MENINOS E A MORAL: CONTOS DE STO. ANTÃO

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Santo Antão é uma ilha com um folclore sobrenatural de uma riqueza inestimável. Acontece que o advento da eletricidade a várias ribeiras, muitas delas encravadas entre montanhas que sobem abruptamente em direção ao céu, onde antes se vivia na escuridão total da noite, ocultou de vez o oculto que povoava as nossas mentes e nos fazia tremer de medo, só de ouvir falar nele. Associadas também à chegada da eletricidade está a televisão, e todas as demais tecnologias modernas que levaram à extinção as brincadeiras que a meninada fazia à boca da noite, em especial o hábito de sentar-se à volta de um ancião para ouvir contar estórias e lendas que depois não deixavam vir o sono ou invadiam-no, transformando os sonhos em pesadelos de cortar o fôlego. Sou desse tempo!

Recordo-me de nha Chica Guida, a segunda mãe de quase toda a meninada lá da zona. Parteira dotada de mãos de ouro e que, nos tempos em que quase toda gente nascia em casa, ajudava as mães a trazer os filhos ao mundo. O meu primeiro suspiro neste mundo devo-lho. Muitos de nós roubou-lhe fumo do seu cachimbo e, para a imitar, fazíamos os nossos próprios cachimbos de goiaba verde e piteira de bambu, onde colocávamos tabaco que furtávamos à minha avó. Embora a minha avó não fumasse, ela plantava e secava tabaco que oferecia à nha Chica Guida e nha Mri Laura.

À tardinha vinha nha Chica Guida visitar à minha avó, nha Biata. As duas ficavam a conversar por horas a fio, às vezes também tomava parte do sarau nha Mri Laura. Depois reuníamos junto delas, para que nha Chica Guida nos contasse uma estória. Estórias de capotonas, canelinhas, cachorronas, maçongues, feiticeiras, sereias, encantados, góngões…Lembro-me de uma em que uma mãe que estava à espera de um filho, um dia foi à merada e, na vinda, ao tentar pôr a carga de lenha sobre a cabeça, em dificuldades, escutou uma voz que vinha do seu ventre “ó mê, se’m esdob bo’n de contá ninguém?” (ó mãe, se eu te ajudar, não digas a ninguém?). “Se bô contá, nós dôs tê m’rê!” (Caso contares a alguém, morremos os dois!). A mãe ficou perplexa, mas aceitou a ajuda e guardou segredo. Quando o filho nasceu, esse era um encantado. Mamou e desapareceu!

Os encantados vão para o mar viver com as sereias. De vez em quando visitam as mães para poderem mamar. Mas regressam não na forma humana, mas sim de um bicho qualquer. A mãe não pode assustar-se se vir, por exemplo, um rato a tentar mamar do seu peito. Se gritar, desfaz-se o encantamento e o menino cresce com problemas mentais. De cada vez que o encantado regressa à casa para ser amamentado, traz grãozinhos de areia à sua mãe, que depois transformam-se em ouro.

No caso do encantado do conto de nha Chica Guida, após o parto, as pessoas da aldeia, desconfiadas do destino que a mãe pudesse ter dado ao filho, já que ela não dizia o que era feito dele, chamaram a polícia. Ela foi conduzida à prisão, por infanticídio. No dia seguinte, amanheceu em casa. Por várias vezes foi reconduzida à prisão e sempre voltava à casa, sem que a polícia soubesse como. Então a polícia acabou por deixá-la em paz.

Contava-nos também ela que os maçongues são homens que vendem a alma ao diabo em troca de riquezas. Para manter o pacto com o diabo, todos os anos têm que enviar-lhe a alma de alguém. Caso contrário, iam eles acertar as suas contas com o diabo. Então era costume alguém que andasse às tantas da madrugada sozinho, encontrar cavaleiros vestidos de branco e montados em cavalos brancos. A pessoa era então carregada e deixada num penhasco. Se não caísse e morresse, quando resgatada ficava louca para a vida toda. Também os maçongues costumavam enviar cartas escritas a vermelho. Se o destinatário abrisse a carta, não demorava muito tempo até ver a face da morte.

Noutro conto, havia o caso da “mulherzinha” que vinha à noite à casa de alguém para acalentar o filho. Ouvia-se o bater do pau no pilão ou da roupa na surradeira. Quem durante a vida cometesse um aborto tinha à sua espera, após a morte, uma penitência de 7 anos para cuidar do filho. Sempre que um vivo a afugentasse da sua casa, a sua penitência recomeçava do zero.

Quando se encontrava um cachorrona pelo caminho, convinha que o tratasse pelo nome de um cão do vizinho. Procedendo-se assim, o bicho voltava ao tamanho normal e acompanhava a pessoa até que essa chegasse à sua casa. Jamais se poderia dar as costas ao cachorrona! Quem o fizesse acabaria morto. O melhor a fazer, nesses casos, era entrar em casa de costas viradas para dentro e depois fechar a porta. Caso se encontrasse uma “canelinha” (a canelinha era um esqueleto humano que assombrava as pessoas) dever-se-ia andar às voltas e não em linha reta. Em cada curva ela desmontava-se por completo e, enquanto estivesse a recompor-se, a pessoa ganhava tempo para fugir dela.

Bruxa ou feiticeira, ser com rabo e que voava montado em vassouras. Tinha os dias em que elas tinham que ir voar lá pelas bandas de Curral das Russas e encontrar com o chefe delas, isso normalmente em noites de lua cheia. Teve um marido que andava desconfiado da sua esposa. Achava, com razão, que ela era uma bruxa. Um dia ele fingiu que estava a dormir e deixou sair a alma do corpo da esposa. Ao achar o corpo frio, com uma faca fez nele alguns cortes e aplicou sal. Quando a bruxa regressou, murmurou “en’foi assim q’m txob” (não foi assim que te deixei)! Não conseguindo voltar novamente ao seu corpo humano, a bruxa morreu!

Sobre as sereias, contava-nos que havia uma exímia parteira lá da Sinagoga que fazia o parto delas. Quando assim, vinha o rei delas buscá-la à beira-mar. Ela ia na sua companhia e realizava o parto. Em troca, davam-lhe grãozinhos de areia que se transformavam em ouro e cristais. Também havia a noiva da Boca de Cavoque que assombrava quem por lá passasse em horas minguadas.

Conforme se pode concluir, esses contos e lendas tinham sempre a eles associada uma lição de moral. Aproveitavam-se das trevas da noite para disciplinar as crianças. Duvido que, nessa altura, existisse algum adolescente destemido que ousasse sair de casa à noite para ir a uma festa e só regressar de madrugada. Por outro lado, nos contos das “mulherzinhas” encontramos uma lição de moral no sentido de prevenir a prática sexual com o início da puberdade. Se interpretarmos que “mulher” é aquela que já vive sob as suas responsabilidades, “mulherzinha” poderá ser vista como sendo uma adolescente que se está a armar em “mulher”. Se praticar sexo e daí engravidar, a adolescente vai tentar abortar, de modo a que os pais não saibam e por forma a não arcar com as responsabilidades de uma mãe. Assim, os mais velhos tentavam acobardar as meninas com esses contos que incluíam duras penitências depois da vida para quem praticasse aborto, tentando assim adiar o inicio das práticas sexuais para a vida adulta.

Hoje a realidade é outra. O mundo está demasiadamente esclarecido e a escuridão e suas trevas são coisas do passado. Ninguém já quer contar estórias e, tão-pouco, algum menino/adolescente as quer escutar. A televisão, as redes sociais e os telemóveis entram nas nossas vidas cada vez mais cedo, expondo as crianças a perigos vários. Para onde terá ido a moral?

 

FATCHE E LUME

Bordera de Zegrion tem bijon

Tem bijon cima fijon

Quem qui cá tá q’erditá

Esperá notê di lua cheia

Pá bá oiá fatche e lume

Di bordera té tapume

Ó nhe Mri d’Antona

Bordera já pega lume

Fatche e fatche

Fatche e lume

Coitado di Manelinho

Sê distino na mundo

Lá na fundo d’Ribeirinha

N’esquivâ du’m canelinha

Findá pá meia notê em pino

Ó nhe Mri d’Antona

Bordera já pega lume

Fatche e fatche

Fatche e lume

 

Socram d’Arievilo 

Santo Antão e Madeira: gémeos “falsos” separados à nascença?

 

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 Foto ilha de Santo Antão: Lonely Planet

A Madeira e Santo Antão são duas ilhas que compartilham muitas semelhanças mas também muitas diferenças. Em termos de dimensão, as duas ilhas são praticamente do mesmo tamanho: enquanto Santo Antão tem 779 km2, a ilha da Madeira fica pelos 742,4 km2, ou seja uma diferença de 36,6 km2 a mais para Santo Antão, o que por outro lado corresponde praticamente ao tamanho da nossa pequena Santa Luzia (35 Km2). Mas, ao contrário de Santo Antão, a Madeira, juntamente com o Porto Santo, as Desertas e as Selvagens, é uma região autónoma de Portugal e, portanto, parte integrante da União Europeia. Já nós por cá, desde 1975 somos, juntamente com as demais 9 ilhas que compõem o nosso arquipélago, parte de Cabo Verde, um país que, não obstante as controvérsias, se considera africano.

 

Tanto Santo Antão como a Madeira fazem parte da Macaronésia (ilhas afortunadas), um conjunto de ilhas atlânticas do Atlântico Norte, situadas entre a Europa e a África, ao qual se junta uma extensa porção da costa noroeste africana que vai do Reino de Marrocos ao Sahara Ocidental (este último, uma antiga colónia espanhola hoje ocupada pelo Reino de Marrocos e reivindicada pela Frente Polisário). É verdade que ao contrário dos nossos primos mais a norte (Arquipélago da Madeira e dos Açores), as Canárias, Cabo Verde e a faixa litoral africana adjacente não foram assim tão abençoados pela chuva. As Canárias ainda assim, à exceção das ilhas mais “coladas” ao continente africano (Lanzarote e Fuerteventura), consegue ter ilhas (La Palma, La Gomera, El Hierro, Gran Canária e Tenerife) com clima bastante aprazível, com os picos montanhosos e encostas cobertos de florestas de pinheiros e louros. 

 

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 (Ribeira Brava: Ilha da Madeira (olhares.sapo)

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Ribeira da Torre: Ilha de Santo Antão (weather2travel.com)

Por cá, embora o nosso arquipélago esteja localizado numa das zonas de convergência de uma das massas de ar mais pluviogénicas à face da terra (a monção do Atlântico Sul) onde se formam os furacões mais destrutivos que chegam a alcançar a costa atlântica americana, a chuva é na grande maioria das vezes uma utopia. Mesmo quando ela vem, é bastante passageira e mal distribuída no espaço. Ainda assim, Santo Antão consegue, em termos climáticos, aproximar-se muito do seu irmão gêmeo da Madeira. Tanto é que temos a nossa pequena floresta de Água das Caldeiras e Pico da Cruz que não se compara em dimensão à Laurissilva da Madeira, todavia igualmente exuberante. O Dragoeiro, outrora bastante comum no nosso país e nos demais arquipélagos macaronésios, ainda é possível encontra-lo em um ou outro ponto da ilha de Santo Antão. Quem sabe em tempos remotos estas nossas ilhas, principalmente as montanhosas, não tenham sido cobertas por exuberantes florestas de Dragoeiros (o tal Jardim das Hespérides), tal qual ainda é hoje o nosso irmão Socotorá, arquipélago situado no indico e que, embora dista apenas 250 km do Corno de Africa, é parte integrante do Iémen (país da península arábica).

 

Santo Antão, tal como a Madeira, tem uma Ponta do Sol e um Paul. Cá temos a Ribeira Grande e eles lá têm a Ribeira Brava. A Ribeira Brava (Madeira) só faz lembrar a foz da Ribeira da Torre. Até o planalto sobranceiro à margem direita da Ribeira Brava faz lembrar o Alto de São Miguel subindo em direção ao Pinhão, só que eles lá não tem (as normas europeias jamais permitiriam tal) as pocilgas que encontramos na Boca de Pinhão que não só são antiestéticas como exalam “une fragrance que nous rappelle de la m#r#e”). Paul, a Madeira tem do Mar e da Serra. Ah, mas nós também temos! Paul a beira-mar, onde a Cidade das Pombas recebe os beijos das ondas atlânticas, na foz da ribeira mais majestosa que há em Cabo Verde, que sobe em direção à Serra (Pico da Cruz) passando pelas belas aldeias do Eito, da Passagem e do Cabo da Ribeira. Só não temos as belas estradas alcatroadas que, quando encontram as montanhas que sobem a pico, entram em tuneis que cortam a ilha em todas as direções. Como assim não temos? Já me estava a esquecer dos tuneis que também na Janela nos permitem vencer a montanha, intransponível durante muitos anos, e que hoje nos fazem chegar ao Porto Novo, contornando a orla marítima da costa nordeste numa estrada de alcatrão. Também a majestosa Ribeira da Torre é serpenteada por uma belíssima estrada de alcatrão que vai da Cidade da Ribeira Grande até ao Xôxô. Mas se tivéssemos recursos como tem a Madeira, também haveríamos de ter uma estrada Porto Novo - Paul - Ribeira da Torre - Ribeira Grande - Garça - Altomira - Tarrafal de Monte Trigo, com tuneis a penetrar as espessas montanhas e a conectar todos os vales e a orla costeira da ilha. Neste cenário, ir da Garça ao Altomira, por exemplo, seria um percurso de poucos minutos e não de várias horas como é atualmente. Aí sim, Santo Antão e a Madeira teriam muito mais em comum para além das belezas naturais e lugares homónimos! 

 

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Vila da Ribeira Brava: Ilha da Madeira (Foto Amores)

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Cidade da Ribeira Grande: Ilha de Santo Antão (Habitat Dinâmico)

A Madeira tem bananas que dizem ser as mais saborosas de Portugal. Dizem isso porque hoje Santo Antão já não é parte de Portugal! As nossas bananas que se produzem em grandes quantidades nos vales das ribeiras da Torre, Grande e do Paul, que em tempos chegavam às mesas das gentes da metrópole, são um requinto! A Madeira também tem cana-de-açúcar, mas não tem em quantidade que há na nossa ilha de Santo Antão! Dizem que Santo Antão produz 80% da cana sacarina de Cabo Verde mas devido ao açúcar refinado o nosso Grogue, que hoje poderia destronar qualquer Whisky, ser degustado por reis e rainhas da Europa, por atores e actrizes de Hollywood, e por homens de renome do mundo dos negócios, tem pouco valor de mercado. Na Madeira não! Lá tem Poncha, tem aguardente e tem mel, em pequenas quantidades mas com elevado valor de mercado. Quem tem visão sabe que qualidade e quantidade não são sinónimos e que mais vale pouco por muito que muito por pouco. Na Madeira sabem disso. Ah, se sabem!

 

Quando se fala em turismo nas ilhas atlânticas da Macaronésia, a Madeira é uma das rainhas! Em 2017, o arquipélago recebeu o total de 1,4 milhões de turistas que nele pernoitaram ao todo 7,5 milhões de noites. Estes dados representam um volume de negócios a volta dos 400 milhões de euros. É claro que o Porto Santo também contribui para esta performance, mas a jóia da coroa é a Madeira mesmo! Esta ilha é muito procurada principalmente pelo seu Carnaval do Funchal, Festa da Flor e as festividades alusivas ao Natal e Fim-de-Ano. Mas os atrativos não se resumem apenas às festividades. A ilha da Madeira é simplesmente bela! De aspecto montanhoso, tal e qual Santo Antão, a Madeira é trilhada de vales verdejantes e de água cristalina. Essa água cristalina resultante das abundantes chuvas e condensação do nevoeiro nas copas das lauráceas que cobrem os picos montanhosos dessa ilha é conduzida por uma extensa rede de levadas que a levam das vertentes orientadas para norte para o lado sul da ilha, onde ela é menos abundante mas que é onde se encontram boa parte da população madeirense e a maioria das plantações, como é o caso da cana-de-açúcar. Atualmente as levadas da Madeira são um produto turístico muito procurado. Nos vários vales verdejantes situados principalmente na encosta noroeste da ilha de Santo Antão, a mais pluviosa da ilha, também há várias levadas que conduzem a água das nascentes a montante para as parcelas de terreno localizadas em ambas as margens no sentido montante-jusante e principalmente ocupadas pela cana sacarina. Mas, ao contrário da Madeira, em Santo Antão as levadas não estão bem sinalizadas e não se posicionam por enquanto como um produto turístico de excelência desta ilha.

 

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 Cachoeira no Litoral Norte: Ilha da Madeira (Rechitansorin)

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Cachoeira de Neve: ilha de Santo Antão (Mikecv)

Por falar em turismo, no caso de Santo Antão a ilha não tem as instalações portuárias e aeroportuárias que há na Madeira. Temos um Porto, mas a sua dimensão só permite que nele atracam navios cruzeiros de pequena e média dimensão, e aeroporto, pelo menos por agora, apenas projeto. Assim, não obstante as várias potencialidades que há em Santo Antão, são poucos os investidores que nela queiram arriscar os seus capitais, donde o turismo é praticamente incipiente e sazonal. Em 2018, dos 716 mil turistas que escolheram as ilhas de Cabo Verde como destino para gozar as suas férias, apenas 26 mil (3,6% do total) passaram por Santo Antão. Todavia esse valor representa um crescimento de 24% face ao período homólogo, o que por si já é um dado animador para os operadores locais e sinal que a ilha está a conseguir paulatinamente conquistar o seu lugar no panorama turístico cabo-verdiano.  

 

As maiores potencialidades de Santo Antão são os seus vários quilómetros de caminhos pedestres (principalmente o que desce da Cova ao Paul) e os seus vários vales verdejantes. Outros produtos que talvez ainda carecem de um maior aproveitamento são a culinária da ilha, as festas de romaria, o próprio processo de fabrico do grogue e porque não as redes de levadas que devem receber obras de sinalização e de melhoramentos em termos de segurança. Não podemos nos esquecer igualmente das vistas estonteantes que temos do cimo das montanhas e que nos convidam a contemplar os vários vales que descem em direcção ao mar e as ilhas vizinhas quando o nevoeiro assim o permitir. Essas vistas seriam muito mais agradáveis se nesses locais construíssemos miradouros.

 

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 Casa Típica: Ilha da Madeira (gatyourguide.es)

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Casa Típica: Ilha de Santo Antão (flickriver.com)

Como se pôde constatar ao longo deste texto, Santo Antão e a Madeira no plano natural partilham imensas características, donde em termos de planeamento turístico não podemos nunca deixar de olhar para esse “irmão gémeo” como uma inspiração para fazer de Santo Antão uma referência do turismo rural e sustentável de Cabo Verde. É verdade que a Madeira não só é mais verde e mais rica que o nosso Santo Antão, mas podemos sempre aproveitar melhor as semelhanças entre elas para, ainda que pouco, reduzir as diferenças que as separam principalmente no plano de desenvolvimento económico.  

 

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 Vista Panorâmica: Ilha da Madeira (Madeira.best)

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Vista Panôramica: Ilha de Santo Antão (keadventures)

O CABO-VERDIANO ENQUANTO UM PRODUTO DA ESCRAVATURA MOLDADO PELA ARIDEZ DAS ILHAS

Cabo Verde, embora arquipelágico e insular, é um país que, pelas suas características geomorfológicas e climatéricas, se enquadra no Sahel. O Sahel (que do significado árabe quer dizer “costa” ou “fronteira”) é uma faixa terrestre no continente africano, com uma largura média entre 500 a 700 km e comprimento de 5400 km, delimitado ao norte pelo deserto do Saara, ao sul pela Savana do Sudão, a oeste pelo oceano Atlântico e o mar Vermelho a leste. Trata-se de uma região que recebe escassas precipitações, entre 150 a 300 mm por ano, extremamente vulnerável a longos períodos de seca e, consequentemente, afetada por graves e mortais epidemias de fome.

 

No caso de Cabo Verde, desde a sua descoberta em 1460 e posterior povoamento com brancos oriundos da Europa (Portugal) e escravos capturados no continente africano (Costa da Guiné) muitos têm sido os episódios marcados por longas secas e consequentes epidemias de fome que resultaram na morte e emigração de boa parte da população do país. No século passado, um dos mais longos e impetuosos períodos de fome foi a chamada fome de quarenta que durou praticamente uma década (1940-1950). Se tivermos em conta que nessa altura Cabo Verde ainda era uma colónia portuguesa (Portugal vivia o tempo de ditadura do Estado Novo: 1933-1974) e que o mundo enfrentava a segunda maior guerra dos tempos modernos (Segunda Grande Guerra,1939-1945), sem a devida assistência alimentar essa fome teve um forte impacto na estrutura da população cabo-verdiana.

 

Desde cedo que o homem cabo-verdiano teve que aprender a se adaptar ao clima árido destas ilhas, tanto é que a música, a literatura, a arte, os usos e costumes e as tradições deste país, de um modo geral, são um produto resultante desta contínua luta que, desde os nossos primórdios, vem sendo travada entre o homem e a seca. Portanto, hoje se somos um povo reconhecido no além-fronteiras pela sua brilhante literatura e riquíssima música, (in) felizmente, em parte, devemos isso a influência da seca nas nossas vidas.

 

Em 2017, mais uma vez a seca assolou estas ilhas e ainda se vive as consequências dela resultantes. Felizmente, hoje ela já não tem o acentuado impacto nas nossas vidas, tal como nos outros tempos, e podemos contar com a pronta ajuda da comunidade internacional para mitigar os seus efeitos, principalmente no mundo rural onde se depende sobretudo das atividades ligadas à terra (agricultura e pecuária). Todavia, com o aquecimento global tendem-se a agravar e a tornarem-se frequentes os períodos de seca, em especial na região onde se enquadra o nosso país, pelo que temos que estar sempre prevenidos para situações como esta que se vem enfrentando desde há quase um ano. Infelizmente, por mais que queiramos e ainda que chova em abundância em algum ano, não se pode ignorar a presença da seca nas nossas vidas. Pois, somos um produto dela.     

 

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BOI NO TRAPICHE: MOENDO HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA

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 (imagem: Inforpress)
 

Uma das coisas que mais me orgulham nesta vida é o facto de ter nascido na ilha de Santo Antão. Saber que a minha placenta foi reduzida a cinzas que se misturam ao solo vulcânico dessa ilha faz-me sentir parte dela, de tal modo que existe um cordão umbilical no meu imaginário que nos liga num laço eterno. Santo Antão é, e sempre será, a minha maior fonte de inspiração. 

 

Hoje, estive a recordar, com bastante saudosismo, o tempo em que havia na ilha muitos trapiches movidos à tração bovina. Ainda eu menino, o meu avô paterno tinha um desses trapiches que era movido por possantes bois. Lembro-me perfeitamente que havia o Sandokan, o Bem-Posto, o Crioulo, o Africano...entre muitos outros. Era uma alegria enorme da meninada ver aqueles bois aos pares serem "cangados" ao trapiche, um de dentro e outro de fora, para depois serem "colados" por um homem que ia logo atrás deles, fazendo no ar círculos com um chicote em forma de ameaça, enquanto ia entoando palavras de encorajamento ("eh boi"). 

 

De um lado do trapiche posicionava-se um homem cuja responsabilidade era introduzir as canas nas estreitas aberturas que existiam entre os "ferros" de trapiche. Do lado oposto, um outro homem reintroduzia o bagaço de volta numa das aberturas, de forma a espremer o máximo de calda possível da cana. O bagaço era recolhido junto do primeiro homem e depois espalhado nos "terraços" onde ficava a secar ao sol. O processo de “introduzir cana-virar bagaço” no trapiche não era tão simples como à primeira vista poderá parecer. Exigia muita agilidade e cuidado da parte de quem estava encarregue da tarefa e não raras vezes acontecia a fatalidade de alguém introduzir alguns dedos por entre os ferros juntamente com as canas ou o bagaço.

 

A calda era recolhida em baldes de latão ou de madeira e depois despejada em pipas que eram armazenadas na casa de calda. Lá ela ficava em processo de fermentação por alguns dias até ficar pronta para ser levada ao alambique para dela se destilar a aguardente. A calda “ferventa”, ainda bastante adocicada, quando bebida dava umas mocas que deixava a pessoa a ver o mundo a girar. No alambique, à calda “ventilada” juntava-se uma porção de água-pé (“repé”) e, por efeito do aumento da temperatura que se produzia no forno (“forro”) do alambique, a mistura condensava-se no cabeção de onde ela seguia para o cano. Ao longo de uma calha feita de mastro de sisal, o cano de metal era arrefecido por água corrente, fazendo com que o vapor de aguardente passasse para o estado líquido. A aguardente era recolhida em garrafões que depois eram depositados nos alçapões existentes na casa do meu avô. De lá seguiam para São Vicente e São Nicolau, ilhas onde eram vendidos a preço de ouro.

 

A faina da cana-de-açúcar ia de meados de Fevereiro até Junho. Com a chegada do tempo das “aságuas” os bois eram enviados para campo-abaixo para livremente pastarem ao longo de alguns meses na erva verde  que crescia com a chegada da chuva. Nessa altura, deslocávamo-nos para “Tabuadinho” para a sementeira e por lá ficávamos por um longo período. Uma das principais diversões da criançada era montar armadilhas (“sorças”) para a caça dos pardais. Pardal assado é um manjar que só quem já o comeu sabe quão delicioso é. Hum, só de lembrar já tenho a boca a salivar!

 

Com o tempo, as secas, o aumento dos mil-pés, a introdução da cana BC14 e os engenhos movidos a motor mudaram drasticamente o quotidiano rural da ilha. Os trapiches aos poucos foram desaparecendo, dando lugar a esses engenhos mais eficientes, não obstante muito barulhentos, e os bois reformaram-se. A aguardente perdeu a sua essência e o seu genuíno sabor. Numa economia de loucos, juntou-se o açúcar refinado à calda pura de cana para se produzir cada vez mais por menos, até que o preço de um litro de "aguardente" chegou mais ou menos próximo do valor pelo qual se compra 1,5 litros de água engarrafada. Muita gente morreu por culpa do abuso do álcool. Muitos jovens tiveram que (e) migrar para fora da ilha à procura do emprego que por lá começou a escassear. O resultado é aquele que está à vista de todos: uma ilha de potencial à beira do colapso. Até quando?

 

Aos valentes homens que souberam dignificar o nome de Santo Antão dedico “Kêpritche nê Terpitche”, na esperança que a nossa geração e as vindouras consigam ainda a tempo mudar o curso da ilha.

 

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(autor desconhecido)

 

KÊPRITCHE NÊ TERPITCHE

 

ja’s cangá boi nê terpitche

amosh, ah cuitod de ks bitche

sis vida ê só rêdiá e mais rêdiá

oh tont rêdiá c’tá fezê gente mêriá

 

eh cangá blimundo ma zêbion

eh d’scangá zêbion, cangá truvon

eh d’scangá blimundo, cangá zêbion

um cangá-d’scangá boi dê confuzon

 

ó jôn d’zidor mêtê cana

kêpritche nê terpitche

ó menêl d’tiudor d’svrá bogosse

kêpritche nê terpitche

oh mosse bsot mexe’m e’ch brosse

 

cana d’strengêr insocôd nô sôc

oh deus cê velê’m esse praga

kê merdon en’é aguardente

é vênene c’ti tá matá gente

 

min sis largue’m dô mon

má ess estória de fezê merdon

só pa estod tá intchê nê bidon

pa depôs bem sei tá matá criston

 

eh djô bique

ah tont t’ma côquê

ma grogue tá mut frôquê

nô têm kê reforçá limbique

 

pirulito ôa bô é meldito

bô crê tchêpá c’nem kêbrito

ah sê bô en’ fezê’m ks quitche

hoje e’m tá mandá pôb berbitche

 

Em memória de Nênê e Menêl de Polina (que as vossas almas estejam em paz) 

Aventuras da Páscoa na ilha do Fogo: a volta à ilha

Cabo Verde é sim “um país dez destinos” que vale a pena ser percorrido de Santo Antão à Brava. É verdade que a falta de transportes nalguns percursos inter-ilhas e os exorbitantes preços praticados noutros acabam por funcionar como uma barreira que dificulta imenso a vida de quem quer conhecer todos os cantos e recantos deste arquipélago. Ainda assim, com um pouco de esforço e uma boa dose de paciência, aos poucos vai-se cumprindo este sonho.

 

Ainda até há poucos dias eu não conhecia uma das mais belas e impressionantes ilhas de Cabo Verde. Por isso, no fim-de-semana da Páscoa resolvemos fugir um pouco ao stress da vida citadina da nossa capital Praia e ir conhecer esse belo destino, ilha do Fogo. O Fogo é uma ilha de 476 Km quadrados que na realidade não é mais que a cratera de um enorme vulcão que entre a linha costeira e o ponto mais alto contam-se exactamente 2829 metros. E, ao contrário das outras ilhas do arquipélago de Cabo Verde cujos vulcões “calaram-se” há milhares ou mesmo milhões de anos, o Fogo continua vivo e, numa média de 20 em 20 anos, resolve cuspir fogo sobre Chã das Caldeiras. A última vez foi em 23 de Novembro de 2014. Ao todo, desde que a ilha foi descoberta pelos portugueses em 1460, o vulcão já entrou em erupção 25 vezes.

 

Bom, deixando de lado a história, a geografia e a geologia da ilha que já são do conhecimento de todos, vamos lá conhecer as (minhas) nossas aventuras da Páscoa na ilha do Fogo. Partimos do aeroporto da Praia Nelson Mandela às 9h00 da sexta-feira Santa rumo à ilha do Fogo, num voo da Binter Cabo Verde. Em menos de meia hora tínhamos aterrado no aeródromo de São Filipe. A medida que nos íamos aproximando da ilha via-se o imponente e omnipresente vulcão que é contornado pelo avião até aterrar em São Filipe.

 

Apanhamos um táxi que nos levou até o empreendimento turístico Casas do Sol. O Casas do Sol é bem acolhedor. Trata-se de um conjunto de pequenos apartamentos (em forma de casinhas) dispersos uns dos outros, onde em cada um se tem uma pequena kitchenette que se pode utilizar para confeccionar as refeições. Pois, por lá só se servem pequenos-almoços durante a estada. Há uma pequena piscina e tem-se acesso directo a uma extensa praia de areia negra cujo empreendimento lhe-é sobranceiro. O som das ondas a quebrarem na areia negra juntamente com chilrear dos passarinhos (principalmente pardais) transformavam-se numa doce melodia que nos convidava a deitar numa das espreguiçadeiras dispostas à volta da piscina, mas aquele não era o melhor momento. O tempo era pouco, ainda não tinhamos tomado o pequeno-almoço e tinhamos que conhecer em apenas três dias a cidade de São Filipe e toda a ilha do Fogo, especialmente Chã das Caldeiras.

 

O centro histórico de São Filipe é um dos mais belos que há em Cabo Verde. Quase todas as residências históricas têm sobrados e varandas. As ruas estão asseadas, possuem plantas a adorná-las e praticamente todas são empedradas. “Descobrimos” o Tropical Club, onde paramos para tomar o pequeno-almoço. Pedimos cachupa acompanhada de ovo estrelado e chouriço e uma meia de leite para despertar o corpo. Mas antes foi-nos servido um sumo natural de papaia para deliciar e refrescar a alma.

 

Satisfeitos, lá saímos a passear pela cidade. Fomos ao Presídio (ninguém foi preso, risos), praça onde se realizam as festas de Nhô São Filipe. Paramos no mercado municipal para ver o que havia de novidades por lá e não que encontramos umas mangas à venda. Compramos algumas para comer mais tarde. Pensamos em ir conhecer a zona das salinas que dizem ser um lugar de belezas esplêndidas. Paramos um taxista que nos disse que nos poderia fazer o percurso até lá, e que com uma paragem de 10 minutos antes do regresso, ficava pelo valor de 6 mil escudos o mesmo valor que ele cobrava até Mosteiros num percurso de ida-e-volta. Optamos por ir conhecer então a cidade de Mosteiros e almoçar por lá. O taxista chamava-se Zé Carlos. Rapidamente, ficamos a saber que ele era uma pessoa bastante simpática e com muita experiência na prestação de serviço de transporte de turistas.   O caminho até Mosteiros faz-se pelo Anel Rodoviário do Fogo, uma estrada moderna e asfaltada, mas não em todo o percurso. Gastou-se muito mais do que o investimento inicialmente previsto e não se construiu metade do anel rodoviário que deveria ligar todos os três concelhos do Fogo. Mas isso não é nenhuma novidade nas obras públicas em Cabo Verde. Obra sem derrapagem neste país talvez só com milagre.

 

Pelo caminho, o nosso taxista foi parando nalguns locais estratégicos para que pudéssemos contemplar melhor a paisagem. Afinal, resolvemos não ficar por Mosteiros mas sim, por mais 2 mil escudos (8 mil escudos no total), fazer a volta à ilha, retornando à São Filipe via Santa Catarina do Fogo. Paramos nos Mosteiros apenas o tempo suficiente para almoçar. Embora eu não seja um católico praticante, pelo enorme respeito que tenho à Igreja e em honra ao período quaresmal, resolvi comer peixe e não carne. A escolha recaiu sobre serra grelhada com legumes. Concluído o almoço, foi hora de retomar a estrada. Por sugestão do taxista, antes de apanharmos a estrada principal, fizemos um pequeno desvio até Chã de Feijoal para conhecer os cafezais onde se colhe um dos cafés mais saborosos do mundo. No percurso, fizemos uma paragem num miradouro que dá para contemplar a cidade dos Mosteiros. A vista é deveras gratificante. Em Chã de Feijoal, o café já tinha sido colhido e nalgumas casas era possível ver as cerejas de café a secar, para depois virem a ser debulhadas, torradas e embaladas. Normalmente, boa parte da colheita segue para o mercado internacional, onde o café do Fogo é bastante requisitado e altamente cotado.

 

Como já começava a fazer-se tarde, seguimos a nossa viagem em direcção à São Filipe (via norte). Pelo caminho paramos ainda num outro pequeno miradouro com vista para o mar. Na estrada vi algumas galinhas de mato em voo. Àquelas horas provavelmente estavam à procura de um poleiro seguro para descansarem. Passamos pela cidade de Cova Figueira, mas dado o avançar das horas não foi possível fazer uma paragem. Combinamos com o taxista levar-nos no dia seguinte à Chã das Caldeiras. Chegamos ao Casas do Sol e fomos imediatamente tomar um banho de água morna para relaxar o corpo antes de sairmos à procura de um local para o jantar. O jantar foi no Zebra Corner (Casa Colonial), um restaurante bastante acolhedor e com um excelente serviço. Dessa vez, a minha escolha foi búzio. Bebemos uma deliciosa caipirinha e saboreamos um divinal pudim de queijo. De seguida, voltamos ao empreendimento turístico para descansar porque às 8h00 da manhã tínhamos que estar de pé para subir ao Pico do Fogo. Não imaginam como eu estava bastante ansioso para descobrir Chã das Caldeiras e as suas gentes. Mas isso é história para um outro dia.

 

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Às estrelas da nossa terra

Hoje é um dia especial para as nossas mulheres. Não que elas não merecem ser amadas e cuidadas todos os 365 dias do ano, mas hoje temos que lhes dedicar o dobro daquilo que lhes dedicamos ao longo dos restantes 364 dias. São elas os pilares que sustentam as nossas vidas, desdo o berço até ao fim. Também é com elas que começa a vida e é com elas que acaba a vida. Portanto, cuidemos da melhor forma dessas flores que perfumam e deliciam as nossas vidas com o seu doce néctar. Feliz dia mulheres cabo-verdianas! 

 

A vocês, estrelas...

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Estrela

 

bôs odjos brilhante

tá lumiá na nha frente

na um brilho penetrante

moda um estrela cadente

 

nha coração ta baté

na nha peito di minino

amor é um obra di distino

c’na vida é tudo o c’m crê

 

oh  estrela dimeu

ai cma’m crêbu tcheu

cima um farol lá na djéu

bô é que brilho di nha céu 

 

estrela bô é bela

bela c’nem donzela

estrela bô é bela

bela c’nem aguarela

 

luaaaa, bô é sedutora

bô tem brilho di diamante

tá crê ofusca’m tudo hora

ma mim cá crê ser bô amante

 

nha amor é estrela

nha coração é só dela

e té momento di nha partida

mim ca crê ot amor na nha vida.

 

Socra'm d'Arievilo in "A Pedra do Letreiro" 

imagem: "vaidosa crioula" de Kiki Lima 

A TRADICIONAL MATANÇA DE PORCO EM SANTO ANTÃO

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Hoje vamos fazer uma pequena incursão pelas tradições santantonenses. A minha escolha recaiu sobre a tradicional matança de porco. Vou-vos relatar um pouco o processo da matança de porco que era feito lá em casa quando eu ainda era uma criança.

 

Lembro-me bem que todos os anos era feito a engorda do porco para ser "retirado" nas férias de verão, que era quando havia mais gente em casa, incluindo os familiares que estavam no estrangeiro e que, entre Julho e Agosto, regressavam para curtir umas curtas e merecidas férias e matar as saudades da terra natal.

 

Dias antes da "retirada" do porco, a minha avó contratava três homens para realizar as tarefas inerentes à matança e desmembramento do animal. Na véspera, reuniam-se os utensílios e materiais necessários. As facas eram afiadas e as cordas de bananeira e sisal eram postas de molho em água, de modo a que no dia seguinte nada faltasse ou atrapalhasse as atividades.

 

Ainda de madrugada, mais ou menos por volta das quatro horas, chegavam o "matador" e os ajudantes. A minha avó levantava da cama para lhes entregar os materiais e abrir a porta da cozinha. Como se já estivesse a adivinhar que o dia seria de "festa", o Tigre, o nosso cão, já lá estava todo feliz a abanar a cauda. O coitado do porco, esse continuava a aproveitar, sem ter a mínima noção, as suas últimas horas de sono.

 

Os homens encarregues da matança dirigiam-se para junto do chiqueiro (pocilga) munidos dos materiais e utensílios. Era preparada uma panela de água quente para dar de beber ao porco. Não sei bem qual era a razão dessa prática, mas talvez a água quente servisse para ajudar o sangue do porco a fluir na hora em que lhe espetassem a faca.

 

Assim que o porco terminasse de sorver a água, os ajudantes do matador saltavam para dentro do chiqueiro e amarravam-no e puxavam-no à força para fora. Uma vez expulso do chiqueiro, o animal era dominado pelos homens, que o atiravam para o chão, ao mesmo tempo que o atavam os pés e amordaçavam-no. Durante esse processo, ouvia-se os grunhidos do porco que, já consciente do seu triste destino, lutava em vão pela sua vida.

 

Com o porco dominado, este era colocado na melhor posição para facilitar o trabalho do matador. Junto ao pescoço deixava-se um tacho com vinagre, sal e louro onde seria recolhido o sangue. Então, com um golpe certeiro, o matador acertava a garganta do animal e o sangue começava a jorrar abundantemente. Enquanto o porco, já com poucas forças, continuava a lutar pela a sua vida, o matador procurava ajeitar a faca na garganta dele, à procura de acertar a artéria e acabar finalmente com o seu sofrimento.

 

Como o porco já morto, o matador fazia um corte, em forma de cruz, no sangue que se encontrava no tacho e que era preservado por mais algum tempo no local. Os auxiliares ajudavam-no a colocar o porco em cima de uma cama feita de palhas secas e cobriam-no com mais alguma palha. Acendia-se um fósforo e colocava-se fogo no porco para fazer a tosquia dos pelos. Já com o porco praticamente tosquiado, com uma faca bem afiada, raspava-se os restantes pelos que ainda continuavam presos ao seu couro, de modo a deixa-lo com uma pele completamente lisa.

 

Já ao romper da manhã o porco estava pronto para ser desmembrado. Enquanto o Tigre já se ia deliciando com as unhas chamuscadas que lhe eram oferecidas, nós os meninos ficávamos felizes com os pequenos pedaços de orelha crua que o matador cortava do porco e nos presenteava. Esse era um dos momentos que mais aguardávamos e eu particularmente gostava muito do som que a cartilagem fazia quando a mastigava. Ai como era bom ser criança e eu nem sabia!

 

Numa chapa de alumínio ,dispunha-se o porco de costas viradas para o solo. Lavava-se-lhe com água e o matador abria-o ao meio com o auxílio de uma faca bastante afiada. Retiravam-se as tripas e demais órgãos (fígado, pulmões, coração...) e com uma caneca aproveitava-se o restante sangue que ainda se encontrava dentro do porco. Então o sangue e os órgãos principais eram enviados para dentro de casa para serem preparados, enquanto as tripas e o bandulho eram reservados para serem mais tarde lavados.

 

Enquanto as mulheres preparavam o café de manha com cachupa guisada acompanhada de "friginote" de porco, o matador e os seus auxiliares continuavam a desmembrar o animal. Sempre, por tradição, era costume nosso fazer troca de carne entre os vizinhos e os familiares quando se fazia matança de porco. Assim, a minha mãe mandava cortar pedaços de carne e toucinho que depois eram colocados em sacos de plástico que nós os meninos íamos distribuindo pelas casas indicadas. Uma vez que nessa época ainda não havia outras formas de preservar a carne que não a salga, a partilha de parte dela com os vizinhos não só evitava que toda ela fosse salgada, assim como servia para reforçar os laços de amizade e garantia que sempre que alguém nas redondezas matasse um porco haveria carne na mesa dos seus vizinhos.

 

Fazia-se uma pequena pausa para o café da manhã. Humm, os aromas da cachupa guisada, acompanhada de friginote, e do café que exalavam da sala de jantar eram bastante convidativos e atiçavam o apetite. Saciados os apetites vorazes e completamente satisfeitos, nós e os homens encarregues da matança regressávamos ao trabalho. Enquanto eles continuavam a cortar a carne e a minha mãe a preparar as trouxas para os vizinhos e familiares, íamos fazendo as entregas consoante as suas ordens. Terminadas as entregas, o matador e os ajudantes arranjavam a cabeça do porco que, juntamente com uma parte da carne e do toucinho, era salgada.

 

No momento em que se fazia o desmembramento do porco, a minha avó pedia ao matador para cortar bem o umbigo, de modo a que ele ficasse com uma boa parte de carne e toucinho. O umbigo era para o nosso hoje saudoso amigo Manuel d'Polina que era quem sempre limpava as pocilgas. O rabo do porco esse era do matador.

 

No final da tarde, depois de bem lavadas, enchiam-se os intestinos delgados com ar, para serem colocados a secar, antes de serem enchidos com carne bem temperada, para fazer as linguiças, enquanto os intestinos grossos e o bandulho eram enchidos com uma mistura do sangue e farinha de milho para fazer o famoso chouriço de sangue. Igualmente, colocava-se uma parte do toucinho cortado numa caldeira que se levava ao fogo. Dali era obtido a banha de porco e os torresmos.

 

Aproveitávamos a bexiga para fazer uma bola de futebol que não durava muito até furar. Enquanto isso, o Tigre, já bem farto, aproveitava para enterrar alguns ossos que ele comeria durante os próximos dias. E assim dava-se por terminado mais uma matança de porco lá em casa.

 

Socram d'Arievilo in "A Pedra do Letreiro" 

 

Imagem @http://urbansketchers-portugal.blogspot.com/2010/10/challenge-xxxi-matanca-do-porco-no.html

O TABULEIRO DA ILUSÃO

no chão crã da ilha nua

sobre a fornalha ardente
improviso o tabuleiro d'oril
de entre as mãos calejadas
na incerteza deixo c
                                     a
                                     i
                                     r
grãos da minha vida
nos vagos orifícios
do jogo d'um contra mil
em rodeio, corvos negros
pousam
           um
               a
                um
sobre o velho espantalho
jogam à batota contra mim
e fazem festim em capote
o céu prenhe de rios e mares
entre uma g
                     o
                      t
                      a e outra de chuva
finge chorar a minha derrota
na ilusão remonto o tabuleiro
para a derradeira jogada
vem a seca e as pragas
...chitada!

 

Socram d'Arievilo in "O Tabuleiro da Ilusão"

 

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SS JOHN E. SCHMELTZER: A HISTÓRIA DE UM "LIBERTY SHIP"

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Foi há 70 anos que o navio da marinha mercante estadunidense SS John E. Schmeltzer naufragou a cinco milhas náuticas da Ponta de Peça, nas proximidades do Promontório de Canjana, concelho do Porto Novo, ilha de Santo Antão. Pela importância que o naufrágio teve na vida socioeconómica das duas ilhas do extremo noroeste do arquipélago de Cabo Verde, principalmente na sociedade santantonense, não se pode permitir que os factos morram com a geração de então, sendo portanto nossa obrigação recolher, preservar e dar a conhecer à nova geração, e às vindouras, a drástica situação de secas, fome e abandono que se viveu nestas ilhas durante a década de quarenta do século passado.

 

Neste contexto, o blogue a Pedra do Letreiro procurou investigar o porquê desse navio que contribuiu para salvar grande parte da população de Santo Antão e São Vicente de morrer à fome se chamar SS John Emile Schmeltzer. Quem terá sido John Emile Schmeltzer? Vamos então aos factos.

 

No dia 01 de Setembro de 1939, pelas 04h45, a Alemanha então comandada por Hitler invadia a Polónia, dando assim início a Segunda Guerra Mundial. Logo de seguida o Reino Unido lançava um ultimato aos alemães para que retirassem as suas tropas da Polónia, tendo-lhes dado dois dias para tal. Como seria de esperar, a Alemanha ignorou o ultimato, obrigando assim o Reino Unido a declarar-lhe guerra. A seguir, outros Aliados viriam a fazer o mesmo, mergulhando o mundo numa das guerras mais sangrentas da era moderna. 

 

Nos meses seguintes, a poderosa máquina de guerra aérea, terrestre e marinha alemã conseguiu aniquilar parte significativa dos esforços de guerra dos Aliados. A sobrevivência económica do Reino Unido dependia largamente da chegada em segurança dos navios mercantes que transportavam os equipamentos militares, suprimentos e tropas para o teatro de guerra, todavia os submarinos inimigos, “Lobos do Mar”, conseguiam, cada vez mais, afundar um maior número desses navios e as indústrias britânicas devastadas pela guerra não conseguiam, num curto espaço de tempo, produzir navios substitutos em número suficiente para suprir as baixas infligidas pela força alemã.

 

O Reino Unido era um dos maiores aliados dos Estados Unidos da América na Europa Ocidental, portanto a sua queda representaria uma grande ameaça para os próprios EUA. Assim, alguns meses antes de os japoneses atacarem a base norte-americana de Pearl Harbor, os EUA decidiram entrar, ainda que indirectamente, na Segunda Guerra Mundial, prestando uma ajuda, em termos de logística bélica, inestimável para o Reino Unido. O presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, e o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Winston Churchill, acordaram a concepção de um programa inovador de ajuda em regime de “Lend-Lease” que passou a permitir que armas e outros equipamentos bélicos fossem enviados para qualquer país considerado vital para a defesa dos interesses dos norte-americanos que até então mantinham uma posição neutra face à guerra.

 

Assim, dois estaleiros navais norte-americanos, respectivamente localizados na Costa Oeste (Pacífico) e Costa Este (Atlântico), começaram a produzir 60 navios comerciais para o Reino Unido. O projecto dos navios que foi oferecido pelos britânicos datava-se de 1879, sendo portanto obsoleto. Não obstante os navios estarem projectados para possuírem caldeiras a carvão e motores alternativos tecnicamente obsoletos, tinham a vantagem de serem práticos e poderem ser construídos em tempo record. Assim, os engenheiros navais dos EUA aproveitaram o projecto britânico e reformularam-no de modo a produzirem navios económicos num curto espaço de tempo.

 

Até o fim da Segunda Guerra Mundial, a indústria naval estadunidense produziu um total de quase seis mil navios mercantes e a maior frota de navios de combate até então vista pelo mundo. Os “Liberty Ships”, designados de “Ugly Ducklings” (“Patinhos Feios”) por Franklin Roosevelt, foram a maior e mais famosa classe de navios mercantes construídos durante a Segunda Guerra Mundial. Ao todo, entre 1941 e 1945, construiu-se o impressionante número de 2711 desses famosos navios. Mas quem eram esses tais “Liberty Ships”?

 

“Liberty Ship” foi o nome atribuído aos navios construídos pela Comissão Marítima dos Estados Unidos da América durante o Programa de Emergência da Segunda Guerra Mundial para auxiliar os Aliados no teatro de guerra no combate contra os germânicos. A Comissão Marítima atribuiu a esses navios a designação oficial “EC2-S-C1”. Onde o “EC” era a designação para navio de carga de emergência (“emergency cargo ship”); o “2” indicava a grande dimensão do navio que chegava a medir entre 400 a 450 pés de comprimento em linha de flutuação; o “S” era o significado para máquina a vapor (“steam engine”) e o “C1” o design especifico do navio e o número de modificação, respectivamente, (“the specific ship design and modification number”). A imagem seguinte representa a maquete de um (“Liberty Ship”).

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Fonte: National Museum of American History

 

Cada “liberty” tinha 441 pés (134 metros) de comprimento e 56 pés (17 metros) de largura. O sistema de propulsão era constituído por uma máquina a vapor de três cilindros alternativos, alimentada por duas caldeiras a óleo combustível e que produzia uma força equivalente a 2500 cavalos, permitindo o navio deslocar-se a uma velocidade de 11 nós (20 km/h). Os seus cinco compartimentos tinham capacidade para transportar mais de 9 mil toneladas de carga, isto fora os aviões, tanques e locomotivas que podia levar atados ao seu convés.  A seguir, figuras representando a anatomia de um “liberty ship”.

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Fonte: skylighters.org

 

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Fonte: blueprints.com

 

A cada um dos navios que era construído atribuía-se o nome de uma personalidade já falecida e que ao longo da vida tivesse contribuído significativamente para o engrandecimento da sociedade americana. Mais de 100 desses navios que foram construídos entre 1944/1945 receberam os nomes de marinheiros mercantes mortos durante a guerra. Contudo houve uma excepção, embora não intencional. O SS Francis J. O´Gara recebeu o nome de um fuzileiro naval que se pensava não ter sobrevivido quando o cargueiro Jean Nicolet foi torpedeado por um submarino japonês no oceano índico, no dia 4 de Julho de 1944. Todavia, ele tinha sobrevivido e sido feito prisioneiro de guerra pelos japoneses, juntamente com o capitão do cargueiro, David Nilsson, e o operador de rádio, Augustus Tilden. Francis J. O´Gara foi mais tarde resgatado, em 28 de Outubro de 1945, de um campo-prisão de guerra japonês e viveu até 18 de Setembro de 1981, quando faleceu aos 69 anos. A seguir, uma foto histórica de Francis, o único homenageado a ter o privilégio de posar ao lado do navio baptizado com o seu nome.

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Fonte: ogara.org

 

O primeiro dos 2711 navios a ser construído foi o SS Patrick Henry, lançado ao mar no dia 27 de Setembro de 1941. As 250 mil peças que compunham o navio foram pré-fabricadas em várias partes dos EUA em seções de 250 toneladas e montadas em 244 dias pela Bethlehem Shipbuilding Corporation, no seu estaleiro naval Bethlehem-Fairfield, sito na cidade de Baltimore, estado de Maryland. O tempo record de construção pertence ao SS Robert E. Peary, construído em 4 dias, 15 horas e 29 minutos. Segundo Wise e Baron (2004), cada um dos navios da classe “Liberty” chegava a custar, a valores do ano de 1945, dois milhões de USD (34 milhões de USD em 2017). Assim, os 2711 navios terão representado para os USA um investimento de 5,522 mil milhões de USD (92,174 mil milhões de USD em 2017).

 

Acreditava-se à época que se um navio conseguisse realizar mais que uma viagem, conseguir-se-ia então recuperar o valor do investimento nele realizado. Ao todo, 50 desses navios foram dados como perdidos na sua viagem de estreia. Contudo, ao longo do período que durou a Segunda Guerra Mundial, dos 2710 (1 dos 2711 navios ter-se-á incendiado e ficado completamente destruído ainda quando estava em construção no estaleiro), apenas 196 (7,2%) foram dados como perdidos, incluindo aqueles que foram destruídos por tempestades, naufrágios ou outros infortúnios não atribuídos à guerra. Tendo os EUA saídos vitoriosos da Segunda Guerra Mundial, o programa de construção de emergência dos navios teve um retorno incomensurável para esse país.

 

John Emile Schmeltzer (1882-1943) foi um engenheiro sénior, director da divisão técnica de construção naval da Comissão Marítima dos Estados Unidos da América (USMC) que deu enormes contributos na construção dos “liberty ships” durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Foi ele que defendeu que um investimento nos estaleiros navais era necessário para os tornar mais eficientes no processo de montagem dos navios, cumprindo-se assim a agenda de construção num período mais curto, o que, por sua vez, permitiria entregar um maior número de navios para satisfazer as necessidades da marinha mercante dos USA.

 

Sabe-se que John Emile Schmeltzer terá nascido no ano de 1882 na Pennsylvania, filho de pais franceses (Louis Schmeltzer e Mary Elisabeth Schmeltzer). Casou-se aos 34 anos com Anne Austin Schmeltzer, com quem teve dois filhos, John Emile Schmeltzer Jr. e Louis Bourke Schmeltzer. Ele faleceu, subitamente, na noite do dia 24 de Fevereiro (quarta-feira) de 1943 com a idade de 60 anos, durante uma viagem entre Providence e Washington DC. Em reconhecimento ao seu trabalho de mérito desemprenhado na Comissão Marítima, o centésimo trigésimo quinto navio a ser lançado ao mar recebeu o seu nome, SS John E. Schmeltzer.

 

O SS John E. Schmeltzer foi lançado ao mar em Baltimore, Maryland, no dia 16 de Maio de 1943 e naufragou na madrugada do dia 25 de Novembro de 1947 nos baixios de Ponta de Peça Santo Antão, às 05h49 locais, quando seguia viagem do Porto de Rosário, Argentina, para Gotemburgo, Suécia. O Porto de Rosário é um porto fluvial localizado na cidade de Rosário, margem direita do rio Paraná, acessível a partir do oceano Atlântico, de onde dista 550 quilómetros. É um dos centros de exportação de mercadorias de maior expressão da Argentina e é o eixo de maior área portuária desse país.

 

Em percurso marítimo, a distância entre Porto Rosário e Gotemburgo estima-se em aproximadamente 13 mil quilómetros, enquanto Praia Formosa, na ilha de Santo Antão, dista desse local uns 7,4 mil quilómetros. Tendo em conta que os navios da classe a que pertencia o “SS John” deslocavam-se à velocidade de 20 km/hora, estima-se que, sem a realização de escalas, a viagem entre Rosário e Praia Formosa tenha durado cerca de 14 a 16 dias. Assim, o “SS John” deverá ter zarpado do Porto de Rosário entre os dias 09 e 11 de Novembro de 1947. Na figura que se segue, apresenta-se o traçado hipotético realizado pelo navio entre o porto de partida e o local do naufrágio, assim como o percurso completo previsto, caso não tivesse naufragado.

adesivo-mapa-mundi-adesivo-mapa.jpgFonte: mapa com edição feita pelo autor

 

No momento em que o navio naufragou, segundo um documento oficial da Guarda Costeira dos Estados Unidos da América, encontrava-se ao leme o imediato Karl Skjaveland que mais tarde, em 12 de Janeiro de 1949, viria a ser julgado por negligência pela sua conduta imprudente que terá culminado no encalhe do SS John E. Schmeltzer. O julgamento deu como provado os fatos incumbidos ao réu, tendo-lhe sido aplicada a pena de suspensão dos títulos de imediato e capitão por um período de seis meses.

 

Num trecho do documento supracitado diz-se que o capitão na data do naufrágio estaria próximo da idade da reforma, mas em momento algum faz referência à sua identidade. Numa investigação por nós realizada foi possível saber que no dia 22 de Julho de 1947, sensivelmente quatro meses antes do naufrágio, a lista de tripulantes do “SS John", na chegada ao porto de Nova Iorque, era encabeçada pelo Capitão Alexander Ekke.

 

Alexander Ekke nasceu no dia 17 de Outubro de 1885 em Saarema, Estónia, e emigrou para os EUA com 27 anos de idade. As informações recolhidas indicam que ele prestou serviço na marinha e mais tarde passou a ser capitão de navios. Obteve a cidadania americana em 1919 quando tinha 33 anos. Faleceu em Nova Iorque em Setembro de 1962 com a idade de 76 anos.

 

Cruzando as informações até aqui avançadas, à data do naufrágio do SS John E. Schmeltzer, Alexander Ekke tinha 62 anos, completados no dia 17 de Outubro de 1947. Assim, uma vez que no documento da Guarda Costeira Americana diz-se que o capitão do “SS John” no dia do naufrágio estava prestes a reformar-se, e se tivermos em conta que na última escala/chegada que o navio fez à Nova Iorque, no dia 22 de Julho de 1947, a lista de tripulante apresentava como sendo o capitão Alexander Ekke, com um elevado nível de confiança, conclui-se que era ele igualmente o capitão do navio no dia em que ocorreu o naufrágio na Ilha de Santo Antão. 

 

Éder Oliveira, Praia 25 de Novembro de 2017

 

Nota: este documento é o resultado de uma investigação realizada pelo autor, que nela investiu tempo e dedicação, portanto a sua reprodução ou aproveitamento, ainda que parcial, é estritamente proibida, sem autorização por ele expressa.

 

Referências

Wise, J., e Baron, S., (2004). “Soldiers Lost at Sea: A Chronicle of Troopship Disasters”, (2004 ed.),  United States Naval InstituteISBN 9781591149668

 

Links de pesquisa:

https://www.thoughtco.com/the-liberty-ship-program-2361030

http://www.usmm.org/libertyships.html

http://www.ahoy.tk-jk.net/macslog/WW2LibertyShips-TheBridge.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Liberty_ship

http://ogara.org/?p=45

https://www.skylighters.org/troopships/libertyships.html

http://www.jajones.com/pdf/Liberty_Ships_of_WWII.pdf

 

Anexos

Fases de construção de um “Liberty Ship”

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Fonte: montagem feita pelo autor a partir de fotos obtidas no Wikipedia