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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

SANTO CRUCIFIXO EM FESTA

Se não me estou em erro, a última vez que tinha marcado presença numa edição das festas em honra à Santa Cruz foi no longínquo ano de 2004, pouco antes de sair do país para ir completar os meus estudos. Por ser uma festa que tanto adoro, confesso que já tinha imensas saudades.

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Actualmente a festa é realizada apenas na vila do Coculi. Mas nem sempre foi assim. Dizem que a princípio ela era organizada no Figueiral mas que uma certa vez alguém de Chã de Pedras conseguiu desviar os tocadores que iam actuar nessa zona, mediante o pagamento de mais dez escudos por hora, ficando assim Chã de Pedras com o direito de organizar afesta. Anos mais tarde, a D. Chiquinha, que era quem organizava a festa, descontente com algo que não correu bem, arrumou as suas coisas e foi organizar a festa em Coculi. Ainda assim, Chã de Pedras conseguiu manter por muitos anos a tradição de organizar a festa, mas já sem o brilho de outrora. Em 2001 houve uma vã tentativa de devolver a festa de Santa Cruz à Chã de Pedras, mas as coisas ficaram muito aquém do programado e não mais se organizou a festa por lá até hoje. Segundo dizem, em tom de piada, a culpa foi do Jorge Neto.

 

Desde que se construiu a estrada de acesso à Boca de Ambas-as-Ribeiras que a festa é comemorada ao longo dessa referida estrada. Há barracas de comes e bebes de um lado e doutro da estrada, começando próximo da Boca do Figueiral e acabando para lá da Delegação Municipal. O troço de estrada está repleto de pessoas a caminhar para cima e para baixo, a conversar umas com as outras, a beber e a comer, a comprar umas peças de roupas nas barracas dos vendedores ambulantes.

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Aproveito para fazer uma pausa e observar o jogo da banca. Noutros tempos essa prática era ilegal e sempre que soasse o aviso que lá vinha a polícia o "dealer" desmontava a sua banca e as pessoas dissipavam-se por entre a multidão. Mas hoje não. Segundo me disseram agora o jogo é legal, pelo que há muita gente com as suas bancas a jogarem tranquilamente enquanto a polícia faz a sua ronda. Acho que foi uma óptima ideia terem optado pela legalização do jogo porque é uma prática já enraizada e bastante associada às festas de romarias. Só não sei se é preciso pagar alguma taxa às finanças locais para se poder explorar esse tipo de jogo. Tento a minha sorte apostando uma moeda. Ganho uma vez mas depressa perco o que já tinha ganhado e apresso-me logo para ir embora antes que resolva arriscar mais alguma moeda.

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A corrida de cavalos é uma das actividades mais aguardadas nessas festas. Miúdos e graúdos procuram a melhor posição para poderem assistir a chegada do cavalo favorito à meta. Alguns, mais corajosos, aventuram-se dentro da pista à espera que seja ordenada a partida e só se afastam quando os cavalos já estão bem próximos. Os cavalos passam a toda a velocidade e muita gente segue atrás para saber como é que ficaram posicionados. Uma multidão junta-se em frente ao júri contestando a decisão que ditou a despromoção para segundo lugar do cavalo Fast que havia chegado em primeiro. A justificação do Júri é que o jokey que montava o Fast "apertou" o seu adversário e segundo os regulamentos tal prática é penalizada com a desqualificação. Os fãs do Fast não se convencem mas parece que não há volta a dar senão aceitar o veredicto. A algazarra não dá sinais de terminar tão cedo pelo que resolvo deixar a corrida de lado e seguir a minha vida.

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Volto a parar junto a uma banca onde se jogam os dados. Desta vez sou apenas levado por uma pequena curiosidade. Nessa banca o "dealer" não é um cabo-verdiano autóctone mas sim cidadão originário da costa ocidental africana, que segundo me tinham dito antes já foi vendedor ambulante mas que hoje se dedica também aos jogos de fortuna e azar. É interessante ver que ele está bem integrado na sociedade cabo-verdiana ao ponto de explorar hoje um costume que antes se reservava aos cabo-verdianos. Fico igualmente contente ao ver que nessa banca não só estavam a apostar cabo-verdianos como havia um sujeito que aparentava traços europeus a fazer as suas apostas. Essa banca é o exemplo que hoje vivemos numa sociedade multicultural. Quem sabe no próximo ano não venha a encontrar uma banca com um "dealer" chinês!

 

Não tenho tempo para aguardar pelo baile popular. Tenho que regressar cedo para casa porque amanhã tenho um compromisso. Parto feliz e de coração tranquilo por saber que treze anos depois voltei a festejar as festas da Santa Cruz. As coisas estão um pouco diferente mas o ritmo e a entrega dos festeiros e o mesmo de sempre. Santo Antão continua a produzir muitos jovens mas ainda falta muito para fazer retornar esses jovens depois dos estudos a fim de garantir um são desenvolvimento dessa ilha apetrechada de um enorme potencial.

LAGOA DO PLANALTO LESTE: O NOSSO PARAÍSO

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Ontem fui ao campo! Desculpem-me, Lagoa queria eu dizer! Campo é Campo Abaixo, lugar onde se soltam os animais para irem pastar. Aqui não, aqui é lugar de gente!

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Lagoa é uma localidade com uma particularidade bastante interessante. A estrada que a atravessa serve igualmente de fronteira divisória entre os municípios da Ribeira Grande e do Porto Novo, fazendo lembrar a famosa fronteira entre a Holanda e a Bélgica, onde um cliente entra num bar pelo lado holandês, compra uma cerveja e consome-a na esplanada que, pelo seu turno, fica em território belga (ou vice-versa). Pois, na Lagoa também o senhor Pedro pode ser habitante da Ribeira Grande e o seu vizinho mais próximo, o Sr. João, que vive do outro lado da estrada ser residente do concelho do Porto Novo, ou ainda acontecer o filho da Dona Maria ter que atravessar todos os dias (de segunda à sexta-feira) a estrada para ir do Porto Novo estudar na escola que fica imediatamente do outro lado, no concelho da Ribeira Grande. Interessante, não é?!

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Foi precisamente na Lagoinha, lugar situado pouco antes da Lagoa que, há mais de vinte anos , assisti, pela primeira vez, a peça teatral Rabo da Bruxa do Grupo Juventude em Marcha. Lembro desse dia como se fosse hoje. Estávamos na casa dos meus tios e tínhamos ido para a colheita da batata inglesa, tendo o pessoal resolvido pernoitar lá, o meu primo Paulo resolveu regressar à ribeira para levar com ele um televisor e um gerador a diesel para que pudéssemos então assistir a peça teatral. Nessa noite dei gargalhadas, umas atrás das outras, graças as peripécias da dupla Frank de Pi e Manuel Repa.

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Nesse tempo já havia muitos socalcos, diques e banquetas construídos no âmbito do programa de florestação das zonas altas da ilha, que vinha sendo executado pelas FAIMO (Frentes de Alta Intensidade de Mão-de-Obra), órgão pertencente ao Governo de Cabo Verde. Hoje, volvidos vinte e poucos anos, é com muito regozijo que vejo que grande parte dessas árvores que foram plantadas conseguiu resistir ao clima agreste, crescendo em pequenos aglomerados verdes que mais parecem pequenas ilhas isoladas umas das outras por um mar de cor castanha. Acho que se todos nós der o seu contributo, plantando nem que seja uma única árvore e defendendo as que já lá estão dos fogos florestais, talvez daqui outros vinte e tal anos o que resta desse mar castanho seja engolido por árvores de grande porte, unindo as "ilhas" de floresta numa única e vasta "ilha". Aí é que Lagoa seria o tal de "parvissa" (paraíso) que o saudoso Sr. Teodoro de Melão já previa há alguns anos.

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A eletricidade 24/24 horas já é uma realidade também na Lagoa e demais aldeias circundantes, o que permite aos residentes desfrutarem-se desse bem público na sua plenitude. A pequena central elétrica a diesel que apenas fornecia eletricidade durante algumas horas é coisa do passado. Lagoa também é Santo Antão e, como tal, está integrada na rede elétrica alimentada pela central única da ilha.  A instalação de uma antena de rede móvel não só reforçou o sinal como permitiu a cobertura de uma maior área, permitindo aos lagoenses comunicar em todo e qualquer lado para toda e qualquer parte do mundo.

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A água, a tal fonte da vida, que tanta falta faz nas zonas altas da ilha, mas que abunda nalguns vales da zona norte, com muito esforço já é uma realidade nas torneiras das casas dessa região. Todavia, o projecto inicial provou não estar à altura para garantir que o precioso líquido não faltasse nas torneiras das casas dos lagoenses, donde um novo projecto está em curso para resolver definitivamente o problema da penúria de água que durante muitos e longos anos limitou consideravelmente a vida das pessoas. Talvez em breve burros carregados de vasilhas de água a caminhar debaixo de um sol abrasador seja apenas uma memória do passado recente.

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Enquanto caminhava pela estrada que me levava até as proximidades da Bordeira de Agriões, ia imaginando na minha mente irrequieta aqueles socalcos preenchidos de videiras de onde se colhia uvas suculentas para produzir um delicioso vinho "made in" Sto. Antão. Sei perfeitamente que a inexistência de água em estado líquido é uma restrição que devo ter em conta na materialização desse meu devaneio. Mas quem disse que a água só existe no estado líquido! Nessas ilhas tropicais não dispomos de água em estado sólido, mas em algumas partes ela abunda em estado gasoso. É o caso da Lagoa, onde diariamente várias toneladas de água na forma de nevoeiro cobrem toda a zona envolvente. As plantas conseguem elas próprias converter esse nevoeiro em água líquida para o seu próprio consumo e o homem, desde tempos remotos, vem testando algumas técnicas para aproveitar esse potencial hídrico em zonas áridas e semi-áridas. Aqui também é algo a pensar!

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Ontem era dia de festa por aquelas bandas. Segundo me disseram a festa que se estava a realizar era em honra ao São José. A princípio fiquei um pouco perplexo, visto que na minha zona também se comemora o São José, não no primeiro dia de Maio, mas sim no dia 19 de Março. Depois de refletir um pouco, cheguei à conclusão que talvez trata-se de uma estratégia deles a fim de garantir exclusividade nas comemorações. O que interessa é que havia muita gente (fiéis e festeiros) a seguir a procissão em direção à capela local, exímios tamboreiros a "refincar" pau no tambor, tal e qual se fazia antigamente nas festas de romaria, barracas de comes e bebes, salão de dança e uma pequena feira de venda de produtos da ilha no Espongeiro.

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Gosto de ver a ilha assim, a transpirar vida e a dar sinais de progresso. Às vezes não temos que ficar eternamente de braços cruzados à espera que sejam os responsáveis políticos a fazer-nos tudo. A obrigação deles é apenas a de nos oferecer a linha, a cana e o anzol. Cabe a nos ir pescar o peixe e leva-lo às nossas mesas. Colocar as mãos na massa e moldar a nossa sociedade para que possamos ter mais e melhor bem-estar. No caso de Lagoa, vê-se e sente-se perfeitamente que se está a fazer alguma coisa para garantir um futuro melhor para essa comunidade. Talvez o próximo passo seja calcetar a estrada que liga o Espongeiro à Lagoa e avançar com o plano urbanístico da localidade. Pois, o potencial agrícola e turístico de Lagoa é significativo e a sua exploração planeada pode trazer maior crescimento económico, mais postos de emprego e melhorias de bem-estar aos lagoenses. Hoje Lagoa pode ser uma simples aldeia rural mas amanhã poderá reunir condições para ser elevada a vila e, quem sabe, daqui algumas décadas venha a ser a cidade de Lagoa do Planalto Leste

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