Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

O CABO-VERDIANO ENQUANTO UM PRODUTO DA ESCRAVATURA MOLDADO PELA ARIDEZ DAS ILHAS

Cabo Verde, embora arquipelágico e insular, é um país que, pelas suas características geomorfológicas e climatéricas, se enquadra no Sahel. O Sahel (que do significado árabe quer dizer “costa” ou “fronteira”) é uma faixa terrestre no continente africano, com uma largura média entre 500 a 700 km e comprimento de 5400 km, delimitado ao norte pelo deserto do Saara, ao sul pela Savana do Sudão, a oeste pelo oceano Atlântico e o mar Vermelho a leste. Trata-se de uma região que recebe escassas precipitações, entre 150 a 300 mm por ano, extremamente vulnerável a longos períodos de seca e, consequentemente, afetada por graves e mortais epidemias de fome.

 

No caso de Cabo Verde, desde a sua descoberta em 1460 e posterior povoamento com brancos oriundos da Europa (Portugal) e escravos capturados no continente africano (Costa da Guiné) muitos têm sido os episódios marcados por longas secas e consequentes epidemias de fome que resultaram na morte e emigração de boa parte da população do país. No século passado, um dos mais longos e impetuosos períodos de fome foi a chamada fome de quarenta que durou praticamente uma década (1940-1950). Se tivermos em conta que nessa altura Cabo Verde ainda era uma colónia portuguesa (Portugal vivia o tempo de ditadura do Estado Novo: 1933-1974) e que o mundo enfrentava a segunda maior guerra dos tempos modernos (Segunda Grande Guerra,1939-1945), sem a devida assistência alimentar essa fome teve um forte impacto na estrutura da população cabo-verdiana.

 

Desde cedo que o homem cabo-verdiano teve que aprender a se adaptar ao clima árido destas ilhas, tanto é que a música, a literatura, a arte, os usos e costumes e as tradições deste país, de um modo geral, são um produto resultante desta contínua luta que, desde os nossos primórdios, vem sendo travada entre o homem e a seca. Portanto, hoje se somos um povo reconhecido no além-fronteiras pela sua brilhante literatura e riquíssima música, (in) felizmente, em parte, devemos isso a influência da seca nas nossas vidas.

 

Em 2017, mais uma vez a seca assolou estas ilhas e ainda se vive as consequências dela resultantes. Felizmente, hoje ela já não tem o acentuado impacto nas nossas vidas, tal como nos outros tempos, e podemos contar com a pronta ajuda da comunidade internacional para mitigar os seus efeitos, principalmente no mundo rural onde se depende sobretudo das atividades ligadas à terra (agricultura e pecuária). Todavia, com o aquecimento global tendem-se a agravar e a tornarem-se frequentes os períodos de seca, em especial na região onde se enquadra o nosso país, pelo que temos que estar sempre prevenidos para situações como esta que se vem enfrentando desde há quase um ano. Infelizmente, por mais que queiramos e ainda que chova em abundância em algum ano, não se pode ignorar a presença da seca nas nossas vidas. Pois, somos um produto dela.     

 

Sem Título.png

 

BOI NO TRAPICHE: MOENDO HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA

Trapiche.jpg

 (imagem: Inforpress)
 

Uma das coisas que mais me orgulham nesta vida é o facto de ter nascido na ilha de Santo Antão. Saber que a minha placenta foi reduzida a cinzas que se misturam ao solo vulcânico dessa ilha faz-me sentir parte dela, de tal modo que existe um cordão umbilical no meu imaginário que nos liga num laço eterno. Santo Antão é, e sempre será, a minha maior fonte de inspiração. 

 

Hoje, estive a recordar, com bastante saudosismo, o tempo em que havia na ilha muitos trapiches movidos à tração bovina. Ainda eu menino, o meu avô paterno tinha um desses trapiches que era movido por possantes bois. Lembro-me perfeitamente que havia o Sandokan, o Bem-Posto, o Crioulo, o Africano...entre muitos outros. Era uma alegria enorme da meninada ver aqueles bois aos pares serem "cangados" ao trapiche, um de dentro e outro de fora, para depois serem "colados" por um homem que ia logo atrás deles, fazendo no ar círculos com um chicote em forma de ameaça, enquanto ia entoando palavras de encorajamento ("eh boi"). 

 

De um lado do trapiche posicionava-se um homem cuja responsabilidade era introduzir as canas nas estreitas aberturas que existiam entre os "ferros" de trapiche. Do lado oposto, um outro homem reintroduzia o bagaço de volta numa das aberturas, de forma a espremer o máximo de calda possível da cana. O bagaço era recolhido junto do primeiro homem e depois espalhado nos "terraços" onde ficava a secar ao sol. O processo de “introduzir cana-virar bagaço” no trapiche não era tão simples como à primeira vista poderá parecer. Exigia muita agilidade e cuidado da parte de quem estava encarregue da tarefa e não raras vezes acontecia a fatalidade de alguém introduzir alguns dedos por entre os ferros juntamente com as canas ou o bagaço.

 

A calda era recolhida em baldes de latão ou de madeira e depois despejada em pipas que eram armazenadas na casa de calda. Lá ela ficava em processo de fermentação por alguns dias até ficar pronta para ser levada ao alambique para dela se destilar a aguardente. A calda “ferventa”, ainda bastante adocicada, quando bebida dava umas mocas que deixava a pessoa a ver o mundo a girar. No alambique, à calda “ventilada” juntava-se uma porção de água-pé (“repé”) e, por efeito do aumento da temperatura que se produzia no forno (“forro”) do alambique, a mistura condensava-se no cabeção de onde ela seguia para o cano. Ao longo de uma calha feita de mastro de sisal, o cano de metal era arrefecido por água corrente, fazendo com que o vapor de aguardente passasse para o estado líquido. A aguardente era recolhida em garrafões que depois eram depositados nos alçapões existentes na casa do meu avô. De lá seguiam para São Vicente e São Nicolau, ilhas onde eram vendidos a preço de ouro.

 

A faina da cana-de-açúcar ia de meados de Fevereiro até Junho. Com a chegada do tempo das “aságuas” os bois eram enviados para campo-abaixo para livremente pastarem ao longo de alguns meses na erva verde  que crescia com a chegada da chuva. Nessa altura, deslocávamo-nos para “Tabuadinho” para a sementeira e por lá ficávamos por um longo período. Uma das principais diversões da criançada era montar armadilhas (“sorças”) para a caça dos pardais. Pardal assado é um manjar que só quem já o comeu sabe quão delicioso é. Hum, só de lembrar já tenho a boca a salivar!

 

Com o tempo, as secas, o aumento dos mil-pés, a introdução da cana BC14 e os engenhos movidos a motor mudaram drasticamente o quotidiano rural da ilha. Os trapiches aos poucos foram desaparecendo, dando lugar a esses engenhos mais eficientes, não obstante muito barulhentos, e os bois reformaram-se. A aguardente perdeu a sua essência e o seu genuíno sabor. Numa economia de loucos, juntou-se o açúcar refinado à calda pura de cana para se produzir cada vez mais por menos, até que o preço de um litro de "aguardente" chegou mais ou menos próximo do valor pelo qual se compra 1,5 litros de água engarrafada. Muita gente morreu por culpa do abuso do álcool. Muitos jovens tiveram que (e) migrar para fora da ilha à procura do emprego que por lá começou a escassear. O resultado é aquele que está à vista de todos: uma ilha de potencial à beira do colapso. Até quando?

 

Aos valentes homens que souberam dignificar o nome de Santo Antão dedico “Kêpritche nê Terpitche”, na esperança que a nossa geração e as vindouras consigam ainda a tempo mudar o curso da ilha.

 

000232185-cap-vert.jpg

(autor desconhecido)

 

KÊPRITCHE NÊ TERPITCHE

 

ja’s cangá boi nê terpitche

amosh, ah cuitod de ks bitche

sis vida ê só rêdiá e mais rêdiá

oh tont rêdiá c’tá fezê gente mêriá

 

eh cangá blimundo ma zêbion

eh d’scangá zêbion, cangá truvon

eh d’scangá blimundo, cangá zêbion

um cangá-d’scangá boi dê confuzon

 

ó jôn d’zidor mêtê cana

kêpritche nê terpitche

ó menêl d’tiudor d’svrá bogosse

kêpritche nê terpitche

oh mosse bsot mexe’m e’ch brosse

 

cana d’strengêr insocôd nô sôc

oh deus cê velê’m esse praga

kê merdon en’é aguardente

é vênene c’ti tá matá gente

 

min sis largue’m dô mon

má ess estória de fezê merdon

só pa estod tá intchê nê bidon

pa depôs bem sei tá matá criston

 

eh djô bique

ah tont t’ma côquê

ma grogue tá mut frôquê

nô têm kê reforçá limbique

 

pirulito ôa bô é meldito

bô crê tchêpá c’nem kêbrito

ah sê bô en’ fezê’m ks quitche

hoje e’m tá mandá pôb berbitche

 

Em memória de Nênê e Menêl de Polina (que as vossas almas estejam em paz) 

Aventuras da Páscoa na ilha do Fogo: a volta à ilha

Cabo Verde é sim “um país dez destinos” que vale a pena ser percorrido de Santo Antão à Brava. É verdade que a falta de transportes nalguns percursos inter-ilhas e os exorbitantes preços praticados noutros acabam por funcionar como uma barreira que dificulta imenso a vida de quem quer conhecer todos os cantos e recantos deste arquipélago. Ainda assim, com um pouco de esforço e uma boa dose de paciência, aos poucos vai-se cumprindo este sonho.

 

Ainda até há poucos dias eu não conhecia uma das mais belas e impressionantes ilhas de Cabo Verde. Por isso, no fim-de-semana da Páscoa resolvemos fugir um pouco ao stress da vida citadina da nossa capital Praia e ir conhecer esse belo destino, ilha do Fogo. O Fogo é uma ilha de 476 Km quadrados que na realidade não é mais que a cratera de um enorme vulcão que entre a linha costeira e o ponto mais alto contam-se exactamente 2829 metros. E, ao contrário das outras ilhas do arquipélago de Cabo Verde cujos vulcões “calaram-se” há milhares ou mesmo milhões de anos, o Fogo continua vivo e, numa média de 20 em 20 anos, resolve cuspir fogo sobre Chã das Caldeiras. A última vez foi em 23 de Novembro de 2014. Ao todo, desde que a ilha foi descoberta pelos portugueses em 1460, o vulcão já entrou em erupção 25 vezes.

 

Bom, deixando de lado a história, a geografia e a geologia da ilha que já são do conhecimento de todos, vamos lá conhecer as (minhas) nossas aventuras da Páscoa na ilha do Fogo. Partimos do aeroporto da Praia Nelson Mandela às 9h00 da sexta-feira Santa rumo à ilha do Fogo, num voo da Binter Cabo Verde. Em menos de meia hora tínhamos aterrado no aeródromo de São Filipe. A medida que nos íamos aproximando da ilha via-se o imponente e omnipresente vulcão que é contornado pelo avião até aterrar em São Filipe.

 

Apanhamos um táxi que nos levou até o empreendimento turístico Casas do Sol. O Casas do Sol é bem acolhedor. Trata-se de um conjunto de pequenos apartamentos (em forma de casinhas) dispersos uns dos outros, onde em cada um se tem uma pequena kitchenette que se pode utilizar para confeccionar as refeições. Pois, por lá só se servem pequenos-almoços durante a estada. Há uma pequena piscina e tem-se acesso directo a uma extensa praia de areia negra cujo empreendimento lhe-é sobranceiro. O som das ondas a quebrarem na areia negra juntamente com chilrear dos passarinhos (principalmente pardais) transformavam-se numa doce melodia que nos convidava a deitar numa das espreguiçadeiras dispostas à volta da piscina, mas aquele não era o melhor momento. O tempo era pouco, ainda não tinhamos tomado o pequeno-almoço e tinhamos que conhecer em apenas três dias a cidade de São Filipe e toda a ilha do Fogo, especialmente Chã das Caldeiras.

 

O centro histórico de São Filipe é um dos mais belos que há em Cabo Verde. Quase todas as residências históricas têm sobrados e varandas. As ruas estão asseadas, possuem plantas a adorná-las e praticamente todas são empedradas. “Descobrimos” o Tropical Club, onde paramos para tomar o pequeno-almoço. Pedimos cachupa acompanhada de ovo estrelado e chouriço e uma meia de leite para despertar o corpo. Mas antes foi-nos servido um sumo natural de papaia para deliciar e refrescar a alma.

 

Satisfeitos, lá saímos a passear pela cidade. Fomos ao Presídio (ninguém foi preso, risos), praça onde se realizam as festas de Nhô São Filipe. Paramos no mercado municipal para ver o que havia de novidades por lá e não que encontramos umas mangas à venda. Compramos algumas para comer mais tarde. Pensamos em ir conhecer a zona das salinas que dizem ser um lugar de belezas esplêndidas. Paramos um taxista que nos disse que nos poderia fazer o percurso até lá, e que com uma paragem de 10 minutos antes do regresso, ficava pelo valor de 6 mil escudos o mesmo valor que ele cobrava até Mosteiros num percurso de ida-e-volta. Optamos por ir conhecer então a cidade de Mosteiros e almoçar por lá. O taxista chamava-se Zé Carlos. Rapidamente, ficamos a saber que ele era uma pessoa bastante simpática e com muita experiência na prestação de serviço de transporte de turistas.   O caminho até Mosteiros faz-se pelo Anel Rodoviário do Fogo, uma estrada moderna e asfaltada, mas não em todo o percurso. Gastou-se muito mais do que o investimento inicialmente previsto e não se construiu metade do anel rodoviário que deveria ligar todos os três concelhos do Fogo. Mas isso não é nenhuma novidade nas obras públicas em Cabo Verde. Obra sem derrapagem neste país talvez só com milagre.

 

Pelo caminho, o nosso taxista foi parando nalguns locais estratégicos para que pudéssemos contemplar melhor a paisagem. Afinal, resolvemos não ficar por Mosteiros mas sim, por mais 2 mil escudos (8 mil escudos no total), fazer a volta à ilha, retornando à São Filipe via Santa Catarina do Fogo. Paramos nos Mosteiros apenas o tempo suficiente para almoçar. Embora eu não seja um católico praticante, pelo enorme respeito que tenho à Igreja e em honra ao período quaresmal, resolvi comer peixe e não carne. A escolha recaiu sobre serra grelhada com legumes. Concluído o almoço, foi hora de retomar a estrada. Por sugestão do taxista, antes de apanharmos a estrada principal, fizemos um pequeno desvio até Chã de Feijoal para conhecer os cafezais onde se colhe um dos cafés mais saborosos do mundo. No percurso, fizemos uma paragem num miradouro que dá para contemplar a cidade dos Mosteiros. A vista é deveras gratificante. Em Chã de Feijoal, o café já tinha sido colhido e nalgumas casas era possível ver as cerejas de café a secar, para depois virem a ser debulhadas, torradas e embaladas. Normalmente, boa parte da colheita segue para o mercado internacional, onde o café do Fogo é bastante requisitado e altamente cotado.

 

Como já começava a fazer-se tarde, seguimos a nossa viagem em direcção à São Filipe (via norte). Pelo caminho paramos ainda num outro pequeno miradouro com vista para o mar. Na estrada vi algumas galinhas de mato em voo. Àquelas horas provavelmente estavam à procura de um poleiro seguro para descansarem. Passamos pela cidade de Cova Figueira, mas dado o avançar das horas não foi possível fazer uma paragem. Combinamos com o taxista levar-nos no dia seguinte à Chã das Caldeiras. Chegamos ao Casas do Sol e fomos imediatamente tomar um banho de água morna para relaxar o corpo antes de sairmos à procura de um local para o jantar. O jantar foi no Zebra Corner (Casa Colonial), um restaurante bastante acolhedor e com um excelente serviço. Dessa vez, a minha escolha foi búzio. Bebemos uma deliciosa caipirinha e saboreamos um divinal pudim de queijo. De seguida, voltamos ao empreendimento turístico para descansar porque às 8h00 da manhã tínhamos que estar de pé para subir ao Pico do Fogo. Não imaginam como eu estava bastante ansioso para descobrir Chã das Caldeiras e as suas gentes. Mas isso é história para um outro dia.

 

20180330_094945[1].jpg

20180330_161433[1].jpg

20180330_162307[1].jpg

20180330_162703[1].jpg

20180330_161629[1].jpg

20180330_171717[1].jpg