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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

D'SAFOR D'MÔTCH

O homem crioulo é por natureza desaforado. Ele pode atirar-se às mulheres dos outros mas se alguém mexer com a mulher dele pode crer que está a comprar guerra.

Esta letra retrata uma das tradições de maior expressão na cultura cabo-verdiana, o "cola sanjon", e a escolha da Ribeira de Julião não só se deve ao facto de ali, à semelhança do Porto Novo, se festejar o São João Baptista, mas também por eu querer, de uma forma singela, render uma homenagem àquele que tão bem soube eternizar, através da linguagem musical/poética, o modo de vida do homem cabo-verdiano, Manuel de Novas que, embora nasceu na zona de Penha de França, ilha de Santo Antão, é considerado filho de São Vicente, ilha onde viveu a maior (ou boa parte) parte da sua vida. E tal como ele, expressei-me em crioulo, não naquele que se quer padronizar, mas naquele onde as regras não impedem o cabo-verdiano de ser livre e original. A nós os "desaforados", dedico:

 

D'SAFOR D'MÔTCH

 

Aonte na rbera d'Julion 
Na ressaca d'um nôt d'sanjon 
E'm oiâ gente na um c'zê c'fazê 
Na um terpida d'um tamborada

 

Na pensa c'ma era lumnada 
E'm resolvê proximá pá expiá
Pá confiri o que tava tá passá 
Ma kl malta na kl barafundada

 

De repente sangue ferve'm na veia 
Nêva resolvê tapa'm na oi 
Quando e'm oiâ kl desgrassada 
Rodeod d'homê na kl vissarada

 

Era um colar diferente 
Um repicar de pau na tambor 
C'um tá dá d'trás ot tá dá d'frente 
Um suar de corpo d'respingá calor

 

E'm gritá bem alto 
Já tchere'm intentaçon
Ó diabo d'infer fastá de nha m'djer 
Se bô cá crê pá nô matá cumpanher

 

Ó senhor sanjon 
Por favor ocê perdoa'm 
Esse d'safor d'môtch 
Li na tchon d'rbera d'Julion.

 

Letra@ Socram d'Arievilo
Tela@ Severo Delgado

 

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O (in)GRATO

ó ilha, 
ó ilha minha
eu e tu
somos um 
no peito do outro
batendo feito tambor 
num rufiar endiabrado 
de fazer colar sanjon.
dois corpos numa fusão 
de rachar pedra ao sol 
espirrando suor e lágrimas 
sobre a terra queimada 
que ferida pela enxada 
brada aos céus chuva 
de jeito tão estridente 
que ao ecoar pelos vales 
lembra o grito de quem 
do ventre expulsa sua cria.
oh que saudade sem fim 
que já se prendeu em mim 
ao folhear as páginas da vida 
do pequeno menino filho da ilha 
que ousou sonhar com o mundo 
e acordou exilado noutra ilha!

 

Socram d'Arievilo in "A Pedra do Letreiro"

foto @ Marco Samuel

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SANTO CRUCIFIXO EM FESTA

Se não me estou em erro, a última vez que tinha marcado presença numa edição das festas em honra à Santa Cruz foi no longínquo ano de 2004, pouco antes de sair do país para ir completar os meus estudos. Por ser uma festa que tanto adoro, confesso que já tinha imensas saudades.

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Actualmente a festa é realizada apenas na vila do Coculi. Mas nem sempre foi assim. Dizem que a princípio ela era organizada no Figueiral mas que uma certa vez alguém de Chã de Pedras conseguiu desviar os tocadores que iam actuar nessa zona, mediante o pagamento de mais dez escudos por hora, ficando assim Chã de Pedras com o direito de organizar afesta. Anos mais tarde, a D. Chiquinha, que era quem organizava a festa, descontente com algo que não correu bem, arrumou as suas coisas e foi organizar a festa em Coculi. Ainda assim, Chã de Pedras conseguiu manter por muitos anos a tradição de organizar a festa, mas já sem o brilho de outrora. Em 2001 houve uma vã tentativa de devolver a festa de Santa Cruz à Chã de Pedras, mas as coisas ficaram muito aquém do programado e não mais se organizou a festa por lá até hoje. Segundo dizem, em tom de piada, a culpa foi do Jorge Neto.

 

Desde que se construiu a estrada de acesso à Boca de Ambas-as-Ribeiras que a festa é comemorada ao longo dessa referida estrada. Há barracas de comes e bebes de um lado e doutro da estrada, começando próximo da Boca do Figueiral e acabando para lá da Delegação Municipal. O troço de estrada está repleto de pessoas a caminhar para cima e para baixo, a conversar umas com as outras, a beber e a comer, a comprar umas peças de roupas nas barracas dos vendedores ambulantes.

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Aproveito para fazer uma pausa e observar o jogo da banca. Noutros tempos essa prática era ilegal e sempre que soasse o aviso que lá vinha a polícia o "dealer" desmontava a sua banca e as pessoas dissipavam-se por entre a multidão. Mas hoje não. Segundo me disseram agora o jogo é legal, pelo que há muita gente com as suas bancas a jogarem tranquilamente enquanto a polícia faz a sua ronda. Acho que foi uma óptima ideia terem optado pela legalização do jogo porque é uma prática já enraizada e bastante associada às festas de romarias. Só não sei se é preciso pagar alguma taxa às finanças locais para se poder explorar esse tipo de jogo. Tento a minha sorte apostando uma moeda. Ganho uma vez mas depressa perco o que já tinha ganhado e apresso-me logo para ir embora antes que resolva arriscar mais alguma moeda.

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A corrida de cavalos é uma das actividades mais aguardadas nessas festas. Miúdos e graúdos procuram a melhor posição para poderem assistir a chegada do cavalo favorito à meta. Alguns, mais corajosos, aventuram-se dentro da pista à espera que seja ordenada a partida e só se afastam quando os cavalos já estão bem próximos. Os cavalos passam a toda a velocidade e muita gente segue atrás para saber como é que ficaram posicionados. Uma multidão junta-se em frente ao júri contestando a decisão que ditou a despromoção para segundo lugar do cavalo Fast que havia chegado em primeiro. A justificação do Júri é que o jokey que montava o Fast "apertou" o seu adversário e segundo os regulamentos tal prática é penalizada com a desqualificação. Os fãs do Fast não se convencem mas parece que não há volta a dar senão aceitar o veredicto. A algazarra não dá sinais de terminar tão cedo pelo que resolvo deixar a corrida de lado e seguir a minha vida.

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Volto a parar junto a uma banca onde se jogam os dados. Desta vez sou apenas levado por uma pequena curiosidade. Nessa banca o "dealer" não é um cabo-verdiano autóctone mas sim cidadão originário da costa ocidental africana, que segundo me tinham dito antes já foi vendedor ambulante mas que hoje se dedica também aos jogos de fortuna e azar. É interessante ver que ele está bem integrado na sociedade cabo-verdiana ao ponto de explorar hoje um costume que antes se reservava aos cabo-verdianos. Fico igualmente contente ao ver que nessa banca não só estavam a apostar cabo-verdianos como havia um sujeito que aparentava traços europeus a fazer as suas apostas. Essa banca é o exemplo que hoje vivemos numa sociedade multicultural. Quem sabe no próximo ano não venha a encontrar uma banca com um "dealer" chinês!

 

Não tenho tempo para aguardar pelo baile popular. Tenho que regressar cedo para casa porque amanhã tenho um compromisso. Parto feliz e de coração tranquilo por saber que treze anos depois voltei a festejar as festas da Santa Cruz. As coisas estão um pouco diferente mas o ritmo e a entrega dos festeiros e o mesmo de sempre. Santo Antão continua a produzir muitos jovens mas ainda falta muito para fazer retornar esses jovens depois dos estudos a fim de garantir um são desenvolvimento dessa ilha apetrechada de um enorme potencial.

LAGOA DO PLANALTO LESTE: O NOSSO PARAÍSO

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Ontem fui ao campo! Desculpem-me, Lagoa queria eu dizer! Campo é Campo Abaixo, lugar onde se soltam os animais para irem pastar. Aqui não, aqui é lugar de gente!

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Lagoa é uma localidade com uma particularidade bastante interessante. A estrada que a atravessa serve igualmente de fronteira divisória entre os municípios da Ribeira Grande e do Porto Novo, fazendo lembrar a famosa fronteira entre a Holanda e a Bélgica, onde um cliente entra num bar pelo lado holandês, compra uma cerveja e consome-a na esplanada que, pelo seu turno, fica em território belga (ou vice-versa). Pois, na Lagoa também o senhor Pedro pode ser habitante da Ribeira Grande e o seu vizinho mais próximo, o Sr. João, que vive do outro lado da estrada ser residente do concelho do Porto Novo, ou ainda acontecer o filho da Dona Maria ter que atravessar todos os dias (de segunda à sexta-feira) a estrada para ir do Porto Novo estudar na escola que fica imediatamente do outro lado, no concelho da Ribeira Grande. Interessante, não é?!

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Foi precisamente na Lagoinha, lugar situado pouco antes da Lagoa que, há mais de vinte anos , assisti, pela primeira vez, a peça teatral Rabo da Bruxa do Grupo Juventude em Marcha. Lembro desse dia como se fosse hoje. Estávamos na casa dos meus tios e tínhamos ido para a colheita da batata inglesa, tendo o pessoal resolvido pernoitar lá, o meu primo Paulo resolveu regressar à ribeira para levar com ele um televisor e um gerador a diesel para que pudéssemos então assistir a peça teatral. Nessa noite dei gargalhadas, umas atrás das outras, graças as peripécias da dupla Frank de Pi e Manuel Repa.

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Nesse tempo já havia muitos socalcos, diques e banquetas construídos no âmbito do programa de florestação das zonas altas da ilha, que vinha sendo executado pelas FAIMO (Frentes de Alta Intensidade de Mão-de-Obra), órgão pertencente ao Governo de Cabo Verde. Hoje, volvidos vinte e poucos anos, é com muito regozijo que vejo que grande parte dessas árvores que foram plantadas conseguiu resistir ao clima agreste, crescendo em pequenos aglomerados verdes que mais parecem pequenas ilhas isoladas umas das outras por um mar de cor castanha. Acho que se todos nós der o seu contributo, plantando nem que seja uma única árvore e defendendo as que já lá estão dos fogos florestais, talvez daqui outros vinte e tal anos o que resta desse mar castanho seja engolido por árvores de grande porte, unindo as "ilhas" de floresta numa única e vasta "ilha". Aí é que Lagoa seria o tal de "parvissa" (paraíso) que o saudoso Sr. Teodoro de Melão já previa há alguns anos.

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A eletricidade 24/24 horas já é uma realidade também na Lagoa e demais aldeias circundantes, o que permite aos residentes desfrutarem-se desse bem público na sua plenitude. A pequena central elétrica a diesel que apenas fornecia eletricidade durante algumas horas é coisa do passado. Lagoa também é Santo Antão e, como tal, está integrada na rede elétrica alimentada pela central única da ilha.  A instalação de uma antena de rede móvel não só reforçou o sinal como permitiu a cobertura de uma maior área, permitindo aos lagoenses comunicar em todo e qualquer lado para toda e qualquer parte do mundo.

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A água, a tal fonte da vida, que tanta falta faz nas zonas altas da ilha, mas que abunda nalguns vales da zona norte, com muito esforço já é uma realidade nas torneiras das casas dessa região. Todavia, o projecto inicial provou não estar à altura para garantir que o precioso líquido não faltasse nas torneiras das casas dos lagoenses, donde um novo projecto está em curso para resolver definitivamente o problema da penúria de água que durante muitos e longos anos limitou consideravelmente a vida das pessoas. Talvez em breve burros carregados de vasilhas de água a caminhar debaixo de um sol abrasador seja apenas uma memória do passado recente.

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Enquanto caminhava pela estrada que me levava até as proximidades da Bordeira de Agriões, ia imaginando na minha mente irrequieta aqueles socalcos preenchidos de videiras de onde se colhia uvas suculentas para produzir um delicioso vinho "made in" Sto. Antão. Sei perfeitamente que a inexistência de água em estado líquido é uma restrição que devo ter em conta na materialização desse meu devaneio. Mas quem disse que a água só existe no estado líquido! Nessas ilhas tropicais não dispomos de água em estado sólido, mas em algumas partes ela abunda em estado gasoso. É o caso da Lagoa, onde diariamente várias toneladas de água na forma de nevoeiro cobrem toda a zona envolvente. As plantas conseguem elas próprias converter esse nevoeiro em água líquida para o seu próprio consumo e o homem, desde tempos remotos, vem testando algumas técnicas para aproveitar esse potencial hídrico em zonas áridas e semi-áridas. Aqui também é algo a pensar!

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Ontem era dia de festa por aquelas bandas. Segundo me disseram a festa que se estava a realizar era em honra ao São José. A princípio fiquei um pouco perplexo, visto que na minha zona também se comemora o São José, não no primeiro dia de Maio, mas sim no dia 19 de Março. Depois de refletir um pouco, cheguei à conclusão que talvez trata-se de uma estratégia deles a fim de garantir exclusividade nas comemorações. O que interessa é que havia muita gente (fiéis e festeiros) a seguir a procissão em direção à capela local, exímios tamboreiros a "refincar" pau no tambor, tal e qual se fazia antigamente nas festas de romaria, barracas de comes e bebes, salão de dança e uma pequena feira de venda de produtos da ilha no Espongeiro.

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Gosto de ver a ilha assim, a transpirar vida e a dar sinais de progresso. Às vezes não temos que ficar eternamente de braços cruzados à espera que sejam os responsáveis políticos a fazer-nos tudo. A obrigação deles é apenas a de nos oferecer a linha, a cana e o anzol. Cabe a nos ir pescar o peixe e leva-lo às nossas mesas. Colocar as mãos na massa e moldar a nossa sociedade para que possamos ter mais e melhor bem-estar. No caso de Lagoa, vê-se e sente-se perfeitamente que se está a fazer alguma coisa para garantir um futuro melhor para essa comunidade. Talvez o próximo passo seja calcetar a estrada que liga o Espongeiro à Lagoa e avançar com o plano urbanístico da localidade. Pois, o potencial agrícola e turístico de Lagoa é significativo e a sua exploração planeada pode trazer maior crescimento económico, mais postos de emprego e melhorias de bem-estar aos lagoenses. Hoje Lagoa pode ser uma simples aldeia rural mas amanhã poderá reunir condições para ser elevada a vila e, quem sabe, daqui algumas décadas venha a ser a cidade de Lagoa do Planalto Leste

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NÁUFRAGOS E FAMINTOS: A ÚLTIMA VIAGEM DO JOHN E. SCHMELTZER SS

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No próximo dia 25 de Novembro de 2017 faz 70 anos que o navio da marinha mercante estadunidense John E. Schmeltzer SS naufragou nas proximidades do promontório de Canjana, a 5 milhas náuticas de Ponta de Peça, salvando parte significativa da população da ilha de Santo Antão de morrer à míngua em resultado da grave fome que há anos vinha dizimando os cabo-verdianos.  

 

Durante uma década (1940-1950), Cabo Verde viveu mais uma dura crise humanitária de secas cíclicas e consequente epidemia de fomes. Enquanto noutras partes do mundo, principalmente na Europa, morria-se em resultado dos bombardeamentos da Segunda Grande Guerra Mundial, em Cabo Verde morria-se porque não havia nada para comer ou mesmo para beber. Embora ainda o país fosse parte integrante do império ultramarino português, Salazar não se importou muito com a tragédia que se vivia nessas ilhas, até porque na própria metrópole funcionava o racionamento alimentar e ele já tinha deixado o aviso “livro-vos da guerra, mas não da fome”.

 

Assim, os cabo-verdianos estavam entregues à sua sorte. Cada um tinha que escapar da forma como melhor pudesse. As poucas famílias mais abastadas tiveram também que racionar os escassos recursos disponíveis a fim de poderem sobreviver até o regresso das chuvas. As que não tinham nada apenas tinham que esperar pela hora do livramento divino. Ainda assim, no caso da ilha de Santo Antão, o desespero da fome levava muitos a aventuram-se a “subtrair” produtos hortícolas das hortas das famílias de posse. Para quem fosse apanhado a furtar aplicava-se a lei marcial: o infeliz era chicoteado e/ou assassinado e enterrado no local pelos guardas.

 

Ainda sem nenhum sinal que pudesse indicar que a queda das chuvas estaria para breve, a salvação dos habitantes da ilha de Santo Antão haveria de chegar a partir do mar. Na noite do dia 24 de Novembro de 1947, um navio que tinha partido do Porto de Rosário, na Argentina, com destino a Gotemburgo, na Suécia, com um carregamento de milho estava a cruzar as águas do norte do arquipélago de Cabo-verde. Por volta da meia-noite de 25 de Novembro de 1947, o Capitão do navio, que na altura estava próximo da idade de se reformar, avisou o seu Imediato Karl que a luz emitida pelo Farol de Ponta Machado (São Pedro – Ilha de São Vicente) seria avistada por volta das 04h00 e que o acordasse assim que tal sucedesse.

 

Todavia, o Imediato do navio não respeitou as ordens do seu Capitão e só foi chamá-lo por volta das 05h46 quando lhe relatou que à frente do navio via-se “nuvens ou terra”. Quando a visão do capitão se ajustou à escuridão já era demasiado tarde para evitar o encalhe do navio que viria a ocorrer por volta das 05h49. Ainda ele ordenou que se pusesse o leme o máximo à direita, mas antes que tal ordem pudesse ser efectivada o navio embateu contra os baixios e naufragou.

 

A notícia do naufrágio espalhou-se por todos os cantos e recantos da ilha, atraindo populações de localidades bastante distantes, algumas que ficavam mesmo a dias de caminhada a pé debaixo de um sol abrasador. Como podem imaginar, alguns viajantes provavelmente nunca terão visto o majestoso navio John a repousar-se nos rochedos de Ponta de Peça. A fraqueza, a falta de água potável e as consequências da dura viagem terão reclamado a vida de vários. Aqueles que conseguiram vencer a dura jornada e chegar ao local estabeleceram, juntamente com a tripulação do navio, um pequeno povoado e microeconomia baseados no conteúdo da carga da embarcação. De acordo com informações de um texto que tive acesso, a troca directa consistia por cada lata de milho os ilhéus entregarem uma lata de água aos marinheiros. Sendo que no local em questão não havia água potável, os ilhéus tinham que fazer uma dura viagem à procura desse bem escasso, de modo a poderem adquirir o sustento.

 

Mas a fome era tão severa que a aflição levava muitos a atiram-se ao milho que tinha estado em contacto com a água salgada. Mesmo quando esse milho era consumido depois de fervido muitas pessoas eram acometidas pela disenteria que em muitos casos resultava na morte da vítima. Para evitar consequências de peste pela presença de cadáveres humanos a jazer nas proximidades, estabeleceu-se que os coveiros seriam agraciados com um binde de cuscuz por cada corpo que sepultassem. Mais uma vez a aflição voltou a falar mais alto e a expectativa de ganhar um binde de cuscuz que pudesse adiar a morte fez com que algumas pessoas encontradas em agonia fossem sepultadas ainda com sinais vitais. Não havia tempo para compaixão e ressentimento. Pois, em tempo de fome a selecção natural sacrifica os fracos para garantir a sobrevivência dos mais fortes e o que se fazia era apenas acelerar o processo de morte natural de alguns para garantir o sustento de outros.

 

O povoado conseguiu resistir durante alguns anos subsequentes ao naufrágio, tendo inclusivo aí nascido pessoas. Os tripulantes do navio foram resgatados pouco tempo após o naufrágio e retornaram aos Estados Unidos da América. Em 12 de Janeiro de 1949, um inspector da Guarda Costeira dos USA sediada em Nova Iorque deu entrada com uma ordem pedindo a revogação da licença de Capitão atribuída ao senhor Karl e suspensão do seu título de Imediato por um período de seis meses, ao considera-lo culpado por negligência e incompetência enquanto desempenhava as funções de Imediato do navio John no dia 25 de Novembro de 1947.

 

 Em memória da tripulação do John E. Schmeltzer SS e das vítimas das fomes de 40.

 

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Socram d'Arievilo|2017

 

Nota: o navio representado na imagem é o  Blijdendyk pertencente a mesma classe que o John E. Schmeltzer SS.

DRACUS - O DRAGOEIRO SAGRADO (PARTE II)

 

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Meu nome completo é Lucy Anne Morris Smith, sou viúva, tenho sessenta e dois anos e nasci e cresci no seio de uma família de classe média e de devoção católica que vivia num vilarejo de North Yorkshire. Sou filha única e o sonho do meu pai era ver-me licenciada em Biologia na Oxford. Assim, com 22 anos completei a minha licenciatura e casei-me com Richard Isaac Smith, meu colega de universidade. Meu marido era doutorado em Filosofia e dizia que a missão dele era provar para o mundo que Platão estava certo e que a Atlântida um dia existiu. Passamos a residir aqui em Londres, onde ele doutorou-se em Filosofia Clássica, na Faculdade de Artes e Humanidades da King’s College de Londres e passou a leccionar aulas de filosofia, enquanto eu trabalhava como curadora no Museu de História Natural de Londres.

 

O Richard trabalhava muito. Quando não estava na Universidade a leccionar ou a investigar estava confinado no seu escritório em casa. Às vezes, quando ele não conseguia pregar os olhos, levantava-se de madrugada e descia para o rés-do-chão onde enfiava-se no escritório até à hora do pequeno-almoço, saindo depois para a universidade. Das poucas conversas que tínhamos sobre as suas investigações, lembro-me de uma certa vez ele ter-me dito que nunca tinha estado tão próximo de provar ao mundo que a Atlântida não foi um devaneio do Platão. Segundo ele, tinha provas suficientes que a Atlântida foi uma enorme ilha-continente, muito maior que a Grã-Bretanha, da qual actualmente os únicos vestígios à superfície só poderiam ser encontrados num conjunto de ilhas situadas no oceano Atlântico designado de Macaronésia (Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde) e que uma planta originária desses arquipélagos tinha muito a nos contar.

 

Nas suas viagens, ele já tinha estado na Madeira, nos Açores e nas Canárias, tendo recolhido neste último algumas amostras, inclusive das folhas, sementes e seiva do Dragoeiro (Dracaena draco). Quando olhei aquela planta pela primeira vez pensei que estivesse perante alguma espécie de fauna alienígena. Do meu curso de biologia, apenas lembro-me de uma breve referência que o Darwin fez na sua obra dando conhecimento ao mundo da existência dessa espécie nessas ilhas atlânticas e que ele mesmo pôde comprovar quando por aí passou a bordo do navio Beagle em 1832. Assim, passei a dar mais atenção a essa estranha espécie de planta e comecei a procurar referências sobre ela nas colecções do Museu de História Natural de Londres.

 

Hoje sei que a Dracaena Draco é uma espécie de fauna endémica da macaronésia, estando presente também no pequeno arquipélago de Socotra, no Iémen, que pode chegar a alcançar os 15 metros de altura e 5 metros de diâmetro; com casca lisa tornando-se rugosa de cor castanho-prata, terminando-se numa copa ampla em forma de guarda-sol de contorno circular. O seu fruto é uma baga de formato esférico, numa primeira fase amarelo-esverdeado, tornando-se, quando maduro, laranja brilhante. Mas o mais curioso nessa planta, se é que lhe posso chamar assim, é a sua resina. Quando cortada, a planta sangra literalmente. Pedi ao meu marido umas gotículas da amostra que ele tinha trazido das Canarias para analisar no microscópio, tendo ele consentido o meu pedido.

 

Quando aproximei o olho às lentes do microscópio recuei-me imediatamente para trás. Nunca na minha vida tinha visto algo igual. As células multiplicavam-se a uma velocidade fora do normal, para logo depois voltarem ao estado inicial. Era quase certo que lhes faltava algo para completarem a mutação. Mas tal era um enigma cuja resolução ultrapassava todos os meus conhecimentos científicos. Apressei-me o máximo que pude para chegar à casa e contar logo ao Richard o que havia descoberto.

 

- Não há como acreditar nisso Lucy. É impossível! Essa amostra, da qual dei-te as gotas, foi-me vendida por um descendente dos Aborígenes Canários (Guanches) em 1995 numa feira de antiguidades em Tenerife, e ele garantiu-me ser uma relíquia que, se tivermos em conta a sua linhagem familiar e o facto da conquista castelhana do arquipélago ter ocorrido entre 1402-1496, deve ter quase seis séculos de existência. Segundo o mesmo, os seus antepassados diziam ser os últimos descendentes de um povo que em tempos habitou uma enorme ilha que se perdia para lá do horizonte, que creio ser a Atlântida de Platão, e que o líquido em questão chama-se DRACUS, o sangue da vida – contou-me Richard, enquanto analisava a olho nu o conteúdo contido no pequeno frasco.

 

- Se não tivesse visto com os meus próprios olhos, também não acreditaria que há “vida” nesse líquido de aspecto vermelho que se encontra dentro desse pequeno frasco que seguras nas tuas mãos – disse eu - acho que deverias mesmo ter muito cuidado em manuseá-lo e, tão pouco, ousar-te a experimentá-lo.

 

- Podes estar descansada que jamais cometeria tal erro Lucy! – Tranquilizou-me ele, ao mesmo tempo que se levantava da poltrona da sala dirigindo-se para o escritório.

 

Se tivesse tido conhecimento dos factos que estariam para acontecer, confesso-lhe que jamais teria colocado o meu marido a par das minhas descobertas. A partir desse dia em diante o Richard passou a comportar-se de uma forma estranha. Deu entrada na universidade com um pedido de licença sabática, alegando estar com princípios de um esgotamento mental. Recolheu-se em casa, trancando-se no escritório horas a fio. Dormia poucas horas durante a noite, deixou a barba crescer e passou a adoptar um estilo, na minha opinião, um pouco desleixado para um senhor da sua idade e estatuto social.

 

Tinha um pressentimento que o nosso casamento estava cada dia mais próximo da ruptura. Uma noite, quando eu menos esperava, ele veio ter comigo ao quarto e disse-me que precisava de uma pausa nas suas investigações porque achava que estava a entrar em campos nunca antes explorados pela raça humana e que temia não poder haver retorno. Ele deitou-se e dormiu tranquilamente até que de madrugada começou a ter convulsões. Parecia estar dominado por uma força sobrenatural. De tudo aquilo que saía da boca dele só pude perceber e reter o seguinte: “Dracus insulae meridianam”. De repente, as convulsões sessaram-se e ele voltou a dormir profundamente como se nada tivesse acontecido.

 

Na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço questionei-lhe se recordava de ter tido um pesadelo enquanto dormia, ao que ele me respondeu que nunca tinha dormido tão bem na sua vida. Assim que terminou a refeição pediu-me licença dizendo que tinha que se recolher ao escritório para arrumar umas papeladas. Mais tarde almoçou comigo, e retornou novamente ao escritório. Donde só saiu a hora do jantar. Disse-me que realmente tinha chegado à conclusão que não adiantava levar adiante as investigações quanto a existência da Atlântida e que queria apenas conhecer o último arquipélago parte da Macaronésia onde ainda não tinha estado, Cabo Verde, e que logo a seguir retomaria as aulas na King’s College de Londres.

 

Ainda lembro-me daquele dia como se fosse hoje. Estávamos na manhã dia 05 de Agosto de 1997. Fazia um calor típico do verão londrino. Fui com ele até ao aeroporto e confesso-lhe que era a primeira vez que lhe via tão feliz nos últimos tempos. Finalmente, ele tinha cortado aquela barba que já lhe chegava acima do peito e os cabelos longos que lhe davam uma aparência de velho. Antes de nos despedirmos, ele disse-me que me tinha deixado uma surpresa na gaveta da sua secretária mas para só entrar no escritório assim que ele ligasse a dizer que tinha chegado ao destino. Senti um aperto no coração, mas no momento não me importei muito com aquilo para não lhe estragar a sua felicidade. Queria que ele fosse despreocupado e com a garantia que eu ficaria bem até ao seu regresso.

 

O avião partiu de Londres às 10h00 horas da manhã em direcção à Lisboa, onde ele faria uma escala de algumas horas enquanto aguardaria o próximo avião que o levaria até a ilha do Sal em Cabo Verde. Ligou-me assim que chegou ao hotel na ilha do Sal a dizer-me que estava seduzido pela beleza do país e que, não obstante o aspecto bastante árido dessa ilha, havia por lá praias paradisíacas. Passaria o resto do dia 06 de Agosto de 1997 na ilha do Sal, a aproveitar as belas praias de areia branca e mar azul-turquesa para repor as energias. No dia seguinte tinha um voo de ligação que o levaria até São Vicente, ponto de escala de onde seguiria para Santo Antão a bordo de uma avioneta. Disse-me que no hotel no Sal tinha visto algumas fotografias da ilha de Santo Antão e que essa tinha um aspecto mais montanhoso e verdejante, sendo cortada por vales profundos que sobem abruptamente, quase que na vertical, mais de mil metros acima do nível do mar. Estava ansioso por conhecer uma zona de nome Janela e visitar uma tal pedra do letreiro.

 

No dia 07 de Agosto de 1997 acordei com uma sensação estranha. Não sei como lhe posso explicar, mas era como se tivessem arrancado uma parte de mim. Estava com uma forte dor de cabeça e optei por ligar para trabalho a avisar que nesse dia não estava em condições de ir trabalhar. Esse aperto não queria abandonar-me e, como que se algo estivesse para acontecer, de repente comecei a pensar no Richard e lagrimas vieram-me aos olhos. Subitamente o telefone tocou. Estavam a ligar do Sal do hotel onde o Richard tinha pernoitado e disseram-me que as noticias que tinham para me transmitir não eram boas. O avião no qual o Richard seguia para Santo Antão não tinha conseguido pousar no aeródromo local, devido à chuva e a neblina, e num esforço dos pilotos para regressar de volta para São Vicente o avião perdeu-se no trajecto e foi-se embater numa montanha a uma altitude superior aos 1300 metros, incendiando-se e matando todos os 18 passageiros e tripulantes que seguiam a bordo.

 

(continua)

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@Socram d'Arievilo|2017

DRACUS - O DRAGOEIRO SAGRADO (PARTE I)

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- Minha cara senhora, essas coisas são lendas! E, eu em lendas não acredito! – disse o Sr. Thomas ainda incrédulo com aquilo que a Sra. Lucy acabara de lhe contar.

 

- Percebo a sua posição Professor Thomas. O senhor é um homem com uma reputação invejável no ramo das ciências da física e da matemática, portanto será difícil convencer-lhe com relatos do oculto, por mais sem provas concretas. Mas fique a saber que este planeta mantém bem escondido dos nossos olhos segredos que poderiam mesmo revolucionar as leis de Newton e Einstein. E acredite que Platão não teria escrito acerca da Atlântida se não tivesse tido conhecimento ou provas da sua existência!

 

- Não se exagere também trazendo à baila a questão da Atlântida, Sra. Lucy! Sabe perfeitamente que até hoje não se conseguiu localizar um único vestígio dessa mítica ilha-continente. Mesmo que ela tivesse submergido, como muitos são levados a acreditar, com todas as tecnologias que temos hoje no século XXI, onde se incluem os sofisticados satélites geoestacionários, com certeza já tínhamos descoberto a sua localização e para lá enviado submarinos-robôs para exploração. É bem provável que Platão se tenha deixado levar pelos acontecimentos da altura e daí ter forjado esse mito – respondeu o Sr. Thomas.

 

- Do seu lado percebe-se, sem resquícios de dúvida, que a ciência um dia terá respostas para tudo aquilo que se passa neste mundo e tudo o quanto se afirmar, mas que a ciência não seja capaz de corroborar por ora, são superstições – exclamou a Sra. Lucy – mas creio que o Sr. Thomas esteja equivocado em parte. Pois há coisas que até hoje a ciência não conseguiu provar, ou que jamais conseguirá provar, a sua existência, não podendo contudo serem consideradas superstições!

 

- Desculpe-me Sra. Lucy, se lhe ofendi as suas crenças. Não era esse o meu propósito! Sei que você é uma católica devota e que tem as suas razões para não acreditar apenas na ciência. Mas, como a senhora própria sabe, já dizia o São Tomé que é preciso ver para crer – disse o Sr. Thomas, numa clara tentativa de apaziguar o debate.

 

- Ora essa Sr. Thomas! Ambos estamos cá para fazer valer as nossas posições e não lhe posso exigir que leve em conta tudo aquilo que lhe estou a dizer, sem antes testar a sua veracidade. Já fui sim uma devota, mas depois de tudo aquilo que pude presenciar, pus de lado grande parte da minha devoção à igreja, porque creio que ela também, tal como a ciência, não está totalmente preparada para dar uma resposta cabal à nossa passagem por este mundo e sua continuação ou não, aqui ou nalguma outra parte do universo, em outra forma que não a matéria.

 

- Agora sim, conseguiu deixar-me mesmo intrigado com essa nossa conversa – exclamou o Sr. Thomas! – Pelo que pude perceber, a senhora viu algo que abalou a devoção à sua religião. É isso, não é Sra. Lucy?! – Interrogou o Sr. Thomas, um tanto quanto confuso.

 

- Se o senhor tiver tempo e paciência, prometo-lhe contar tudo o quanto eu sei e presenciei sobre o DRACUS – respondeu a Sra. Lucy, enquanto aproveitava o momento para limpar os seus óculos que estavam um pouco embaciados.

 

- A minha cara Sra. Lucy sabe que, enquanto cientista que estuda a astronomia, venho tentando indagar a existência de vida microbiana numa das luas de Júpiter, a lua Europa, para ser mais preciso, algo que poderá revolucionar toda a ciência que foi desenvolvida até hoje. Saber que não estamos sozinhos neste infinito universo é algo que me intriga desde criança quando, na casa dos meus pais, eu passava horas a fio a contemplar a beleza dos astros no céu nocturno, e agora eu vejo na Europa uma oportunidade única para desmascarar certas verdades tidas como absolutas. Portanto, ambos estamos a tentar, cada um pelos seus meios, provar que não somos os únicos seres aprisionados numa esfera planetária que descreve movimentos contínuos em torno de uma Estrela. E digo-lhe que estou deveras curioso para saber tudo aquilo que me propõe contar. 
 

A senhora parecia nervosa, mas via-se nos seus olhos que ela estava ansiosa para deitar para fora tudo o que lhe vinha tirando o sono nos últimos anos. Segurou o copo com água, olhou, por alguns segundos, nos olhos do Sr. Thomas, bebeu delicadamente um gole e, pousando o copo de volta em cima da mesa, começou o longo desabafo:

 
(continua)

 

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@Socram d'Arievilo| 2017

 

A dinastia vira-lata: um Piloto no reino dos Tigres

 

Lá em casa nunca faltou cães! Desde os tempos dos meus avós maternos que é costume termos um cão de guarda. O nome preferido sempre foi Tigre ou Tigrinho, para os mais íntimos. Por sorte, pude crescer praticamente ao lado do melhor Tigre que por lá já passou.

 

Estava o meu pai e um dos seus irmãos a regressar da primeira edição do festival da Baia das Gatas quando, no cais do Porto Novo, acharam uma cadela com uma ninhada de cachorros. Sem perda de tempo, cada um deles resgatou uma cria para levar para casa. Isso foi no verão de 1984 e eu só viria a nascer alguns meses mais tarde, em Janeiro de 1985. Assim, posso dizer que esse Tigre foi a minha versão de irmão de quatro patas. Como seria de esperar, não tenho memórias desses meus primeiros tempos de vida, mas tenho quase certeza de ter recebido umas tantas lambidelas desse meu mano canino.

 

O Tigre era um cão que não fazia mal a ninguém, nem a uma mosca sequer! Assim, era hábito meu quando menino fazer dele o meu cavalo para cavalgar pelo pátio lá de casa. E ele lá seguia todo feliz a ofegar. O seu local predilecto de descanso era a bancada que fica na parte de frente da casa dos meus avós. De lá, sempre que passava alguém que chamasse por ele, ele respondia com as suas suaves lambidelas enquanto abanava a cauda de um lado para outro.

 

Lembro-me de uma certa vez que ele foi na companhia da minha mãe e do meu saudoso amigo Mário de Tchuntchim para Espadanã para a colheita de milho. Na ida foram à pé mas no regresso tiveram boleia do meu tio António de Guilherme, só que o Tigre não aceitou de modo nenhum que lhe enfiassem no camião, pelo que acabou por ficar no Espadanã. De lá da casa onde estava não arredou as patas, até o Mário ir lá novamente e trazer-lhe de volta pelo caminho vicinal.

 

Os dias de festa que envolviam lançamento de foguetes eram o calvário do meu Tigrinho. Mal ele escutava o barulho dos foguetes a ecoar pelos confins do vale, punha-se logo a tremer. A única escapatória dele era encontrar o mais rapidamente possível um lugar onde pudesse abrigar. Assim, ele tinha o hábito de esconder-se debaixo das camas nesses dias de lançamento de foguetes. Não só lá em casa, como nas casas da vizinhança. De lá saía somente assim que já não escutasse mais nenhum estrondo e, mesmo os vizinhos, já sabendo do seu hábito, não se importavam muito com a sua presença por baixo das suas camas, por mais sabiam que ele era um cão inofensivo e amado por todos.

 

Em meados de 2001, o Tigre terminaria a sua nobre missão enquanto cão de guarda lá de casa. Tinham sido dezasseis longos anos de reinado de um rei nobre. Até aos últimos dias que antecederam a sua partida para o além, o Tigrinho nunca tinha mordido ninguém, ao contrário do seu irmão que já juntava no temível currículo não sei quantas mordeduras, inclusive duas que resultaram em corte parcial de uma das orelhas das vítimas. Mas em jeito de despedida o Tigrinho ainda teria que nos deixar provas que cão que não ladra morde. Assim, talvez numa vã tentativa de fugir da morte, ele resolveu esconder-se debaixo da cama da minha avó, donde foi enxotado pela minha mãe que, depois de muitas tentativas amigáveis que não surtiram efeito, teve que recorrer a um pau. O pobre e moribundo do Tigrinho finalmente saiu de debaixo da cama a agonizar da “paulada” que levara mas ainda teve tempo para cravar os dentes numa das pernas da minha mãe.

 

Ele ficou ainda alguns dias preso junto a uma moita de bananeira onde tinha sombra e água fresca e recebia as refeições que praticamente já ignorava por completo. Lá faleceu em paz deixando-nos mergulhados num mar de tristeza. Era quase certo que não voltaríamos a ter cão daquela categoria lá em casa. Depois dele veio um outro Tigre, este de pequena estatura, que praticamente não teve tempo para aquecer o trono. Haveria de morrer envenenado ao comer estricnina que fora colocada numa propriedade alheia.

 

Mais tarde haveria de chegar o Piloto, um cão viajante, a fazer jus ao nome que recebera. Piloto achava que era rei das redondezas e mal parava em casa. Um autêntico “voluntário”! Saía todas as noites à procura de pequenas e para visitar os seus amigos, chegando a ficar dias fora de casa. Havia duas soluções para ele: prisão perpétua ou castração. Optou-se pela opção menos dolorosa, a segunda! Passou a ausentar-se menos de casa, mas ainda assim era companhia assídua quando um de nós tinha que sair. Era hábito dele acompanhar eu e a minha irmã até a paragem do carro que nos levava para o liceu e quando se visitava alguém, ele era sempre o primeiro a assumir a frente, e mesmo o primeiro a ocupar um lugar na sala de visitas, inclusive quando a minha mãe tinha que ir comparecer na casa de um falecido para entregar aos familiares as condolências, tínhamos que prendê-lo com uma corda, coisa que não servia para nada, já que ele roía a corda e farejava até encontrar a minha mãe. Não sei se estão a imaginar, mas a minha mãe ficava toda embaraçada principalmente porque o Piloto era todo branco…um cão branco numa casa de luto, que vergonha!

 

O reinado do Piloto foi bem mais longo que o seu predecessor mas por ironia do destino o fim haveria de ser o mesmo. Ao acompanhar o meu pai até o curral dos animais, tendo farejado o cheiro de carne, desviou-se do caminho acabando por cair numa armadilha de carne envenenada com estricnina. Com os sintomas de envenenamento ele foi-se deitar no terraço da casa mas, não conseguindo suportar as dores, ao resolver descer, acabou por cair pelas escadas abaixo. Apressei-me para socorre-lo, ainda sem saber as razões de tão inusitada queda. Mas logo vi que era envenenamento porque ele estava paralisado e a contorcer-se todo. Corri para lhe dar água, mas já não havia nada a fazer. Deu o último suspiro nos meus braços. Jamais esquecerei o olhar dele!

 

Voltava-se a dinastia dos Tigres. Agora chegaria a vez de um velhaco ascender ao trono. Outro Tigre…vamos designá-lo de Tigre V, para evitar confusões de nomes. Nunca tínhamos tido um cão especialista em devorar galinhas. Não tendo nós galinhas em casa, o astuto do Tigre V aventurava-se pelas redondezas à procura de capoeiras ou de galinhas soltas. Talvez por ser de estatura pequena, as vitimas só se davam pela sua presença quando lhes enfiava os caninos no pescoço. Mas o Tigre V não tinha por hábito comer a sua presa logo no local do crime. Ele arrastava-a até casa, onde procurava um local escondido para a devorar. Já estávamos a desconfiar que esse cão era um manhento, mas ainda assim deixávamo-lo gozar da sua liberdade. Mas quando outras pessoas começaram a nos relatar as aventuras do Tigre V tínhamos que rapidamente assumir uma posição para pôr cobro às suas manhas. Só havia três alternativas: execução; prisão perpétua ou castração. Execução é uma prática que nunca teve lugar na nossa casa, donde tivemos, numa primeira etapa, que optar pela castração.

 

Era ideia nossa que castrar o Tigre V à frente da sua presa favorita iria demovê-lo de continuar com os seus defeitos. Assim, arranjamos uma galinha para o dia da castração. Quando cheguei com a galinha em casa, com a manha a falar mais alto, o Tigre passou logo a língua pelos lábios, talvez a imaginar como seria delicioso degustar aquele pitéu cru e sem temperos. Prendemos o desgraçado e preparou-se os materiais de castração, mas não lhe vedamos os olhos. Ele teria que ver com os próprios olhos o porquê da castração. A ganir e sempre de olhos fixos na galinha, ele perdeu o direito de deixar descendência. Depois de uns dias a convalescer da perda dos testículos, pensávamos nós que ele já estava curado de toda a espécie de mal. Estávamos totalmente enganados! O desgraçado do cão haveria de voltar a aprontar das suas! Bom, esgotada uma das opções e descartada a da execução, só nós restava condenar-lhe à prisão perpétua! Assim foi! Viva o rei Tigre V! Vida longa acorrentada ao rei Tigre V! Já são mais de dez anos acorrentado, o que não lhe impediu até agora de morder tantas crianças lá mesmo onde está preso e tentar capturar uns pombos e pardais que vão lá importunar-lhe, tentando roubar-lhe a comida. Sorte deles não saberem que estão perante o maior devorador de aves da zona!

 

Nesse entremeio, tivemos ainda em casa o príncipe Bello, um cão arraçado de Dálmata que era surdo e sofria de alguns problemas de saúde, e que cresceu à sombra do Tigre, sem nunca ter conseguido ascender ao trono. Não obstante a sua deficiência, o Bello era um lindo cão e foi amado incondicionalmente lá em casa até há poucos dias quando partiu repentinamente para o paraíso canino. Quando nas minhas recentes férias a Santo Antão lhe dei banho não imaginava que era o último. Até sempre Bello! 

 

Em memória do Bello.

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Patchê Parloa: São Nicolau a ilha da Saudade

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Até a minha idade de mais ou menos dezoito anos o meu mundo conhecido se resumia à minha ilha natal, Santo Antão, e à vizinha ilha de São Vicente. Excepto uma atribulada viagem de avião que fiz nos meus primeiros meses de vida, na companhia da minha mãe, entre o Aeródromo Agostinho Neto, na Ponta do Sol, e o Aeroporto de São Pedro,  da qual só sei por ouvir dizer, só tinha viajado de carro e de barco. Mas sempre fui curioso por conhecer outras paragens, mesmo que de forma virtual. Ainda no tempo em que não havia televisão, através do meu livro de ciências integradas já sabia de cor e salteado as dimensões de todas as ilhas de Cabo Verde, suas actividades económicas e vilas principais e datas de descoberta e povoamento. 

 

A ilha de São Nicolau viria a conhecer melhor a sua realidade pelas mãos do ilustre Dr. Baltazar Lopes da Silva, quando li um trecho do seu famoso romance Chiquinho que servia de texto num dos nossos livros de língua portuguesa. Confesso-vos que cada vez que lia aquele texto era capaz, na minha mente, de viajar até a pacata aldeia do Caleijão, tendo como guias os principais personagens do romance, como o Chiquinho, o Toi Mulato, a Mamãe, a Mamãe-Velha e nha Rosa Calita. Gostava particularmente da personagem de nha Rosa Calita que, nas palavras do autor, era uma velha senhora com aspectos de Camões por lhe faltar um olho, exímia contadeira de histórias de quem os meninos gostavam muito. Esse romance marcou de tal modo a minha infância e adolescência que já era um sonho meu um dia poder conhecer de perto a terra natal do menino Chiquinho.

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Até parece que a vida conspira a nosso favor e o destino já vem traçado desde lá do berço. Em Portugal, conheci a Ezilda, moça natural da ilha de São Nicolau, mais precisamente nascida e criada no Caleijão, aquele lugar que eu já ouvia falar desde tenra idade e sonhava um dia poder vir a conhecer. Comecei a namorar com ela e quando regressamos a Cabo Verde, há cerca de um ano, ela disse-me que assim que quisesse poderia ir com ela conhecer São Nicolau. A viagem foi marcada para o mês de Julho. 

 

Em menos de 24 horas estivemos em quatro ilhas de Cabo Verde. Regressamos de Santo Antão para Santiago (Praia), via São Vicente, e logo no dia seguinte já estávamos a apanhar novamente o avião no aeroporto Internacional Nelson Mandela, desta vez com destino a São Nicolau. Mais ou menos por volta das 09h30 da manhã já tínhamos aterrado no Aeródromo da Preguiça. À nossa espera estavam os pais, o tio e o primo da Ezilda. Os pais dela são pessoas de uma simpatia extraordinária (já os conhecia desde a altura em que ainda vivia em Portugal), por isso sinto-me à vontade e como se estivesse em casa.  O Caleijão fica numa encosta sobranceira ao Campo da Preguiça, tem algumas dezenas de casas e tem aspecto de ser bastante produtivo quando chove, mas algo me diz que já não tem a pujança dos tempos do Chiquinho. Tal como a minha ilha natal, São Nicolau também sofre os efeitos da desertificação humana e vê-se isso no pouco movimento de gente nas ruas, terrenos com aspecto baldio e algumas casas abandonadas. Ainda assim, Caleijão é um lugar lindo e não estava nada desapontado por aí estar!

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Estava curioso para conhecer a outrora Vila da Ribeira Brava, hoje elevada a categoria de cidade. Ribeira Brava, ou Stancha, como é carinhosamente chamada pelos residentes, é daqueles lugares que todos os cabo-verdianos têm obrigação de saber da sua existência. Foi lá que, em 1866, nasceu o primeiro Liceu-Seminário de Cabo Verde, escola que nos brindou com uma mão cheia de ilustres intelectuais, onde se destacam Baltazar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, alguns dos mentores da revista Claridade que viria a revolucionar a literatura cabo-verdiana e criar as bases para a emancipação política, social e cultural da sociedade cabo-verdiana de então sob o jugo colonial português. Dada essa sua importância, podemos assim dizer que a Ribeira Brava está para Cabo Verde assim como Coimbra está para Portugal. 

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Assim que se chega ao lugar chamado “Somada” tem-se uma vista completa da Cidade da Ribeira Brava. Alguns metros mais para frente foi construído um pequeno miradouro para as pessoas desfrutarem-se da soberba vista sobre essa pequena mas bem organizada e embelezada cidade-vila. A cidade mantém tão bem preservada a sua herança colonial. As ruas são estreitas e terminam num largo central, denominado Terreiro, onde estão vários edifícios de elevado valor patrimonial e arquitectónico, tais como, a Sé Catedral de Nossa Senhora do Rosário,  a antiga Escola Central Mouzinho de Albuquerque, que alberga hoje a Biblioteca Municipal, e uma praceta bem cuidada e ornamentada  com plantas de flores que recebeu, em 1876, o busto do Dr. Júlio Dias (1805-1873), segundo dizem, um homem nobre e médico do povo que abdicou da sua residência, vendendo-a ao Estado para que nela passasse então a funcionar o Liceu-Seminário de Cabo Verde.

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Por aqueles dias a ribeira que corta a cidade recebia uma feira agro-cultural para dinamizar a pequena economia local. Havia muitos emigrantes que vieram matar as saudades da terra mãe, por isso o movimento junto das pequenas barracas de comes e bebes era notável. Excelente momento para se desfrutar de um dos grogues mais famosos de Cabo Verde, ou porque não beber um delicioso ponche de maracujá, comprar alguns produtos hortícolas, frutas, rendas e bordados, plantas diversas, ou então assistir a preparação tradicional da famosa farinha de pau de São Nicolau e, ao cair da noite, a actuação de grupos musicais/dança locais que nos animam com uma boa rabecada ao ritmo e velocidade que só os "patchê parloa" tão bem sabem dominar. 

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Durante a minha curta passagem por São Nicolau tive ainda oportunidade de conhecer Queimadas e Fajã, dois lugares agraciados com incomensuráveis belezas naturais, a pequena aldeia piscatória da Preguiça, a bela Águas das Patas e o Tarrafal. Neste último, pude ver os enormes atuns que se pescam nas águas ricas ao redor da ilha e que nos chegam à casa enlatados pela famosa fábrica SUCLA. Foi uma pena não ter conseguido ir até a Praia Branca, terra onde dizem ter sido composta a melancólica morna "sodade" que tão bem foi internacionalizada pela nossa saudosa Diva dos Pés Descalços Cesária Évora; o majestoso vale da Ribeira Prata; o Parque Natural do Monto Gordo, um lugar rico em termos de fauna e flora endémicas do arquipélago, que foi há poucos anos eleito, assim como o Carbeirinho, uma das sete maravilhas de Cabo Verde; o Juncalinho e a sua lagoa de água salgada; a Covoada, de entre outros lugares recônditos. Com certeza, irei regressar em breve porque São Nicolau é sinónimo de saudades!

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DA CRISTA DO GALO A VISTA É UM REGALO

No meu imaginário de criança, logo a seguir a última montanha vinha o céu e quem vivesse numa casinha que ficava no topo de uma montanha tinha o privilégio de tocá-lo com as suas próprias mãos. Assim, tinha dias que passava tempo a fio a mirar uma montanha que fica num lugar chamado Tacuda e que tem o formato que mais faz lembrar as cabeças de três ou quatro senhores que lá estão a conversar. O facto de todos os dias esses senhores estarem na mesma posição era algo que me intrigava muito e imaginava-os como deuses que lá do céu observavam tudo o que fazíamos ali em baixo no vale.

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Com o tempo, passei a perceber que na realidade aquilo era apenas uma ilusão criada na minha cabeça de menino inocente e que o céu, talvez, ficasse bem longe dali. Ainda assim, continuava curioso por conhecer a Tacuda e o Galo. Sempre ouvia dizer que lá em cima na Tacuda havia mangueiras que davam mangas deliciosas, e que um pouco antes, no Galo, junto a uma nascente de água doce que brotava das rochas sem nunca secar, mesmo nos anos de seca mais severa, nhe Eizé P’Cent, que Deus tenha a sua alma em paz, tinha uma pequena horta onde produzia cana-de-açúcar e plantara algumas macieiras cujas maçãs eram uma delícia. Ah, como eu queria também provar essas mangas e maçãs!

 

Mas ir à Tacuda, ou mesmo até Galo, era uma coisa que estava fora de questão, por mais que desejasse o contrário! Jamais a minha mãe e a minha avó iriam permitir que eu subisse por aqueles caminhos falsos e íngremes, construídos para caber pouco mais que dois pés e onde não são permitidos descuidos para um adulto, quanto mais para uma criança. Mas, tinha umas crianças da vizinhança, um pouco mais novas que eu, que lá iam acompanhadas dos avós e que por lá desciam como cabritos a respingar pelas montanhas sem medo das alturas e dos perigos vários que alguns dos mais velhos diziam representar aquele caminho. 

 

Alguns anos mais tarde, numa ida à Cinta Branca na companhia dos meus primos para conhecer o lugar e ver de perto uma pequena horta onde o Armindo encontrava-se a trabalhar, resolvemos nos aventurar numa ida até Galo para ver se realmente havia lá maçãs. Os mais destemidos foram-se à frente e eu resolvi seguir logo atrás. O caminho não deve ter mais que três palmos de largura e foi escavado numa encosta íngreme de uma montanha que sobe, praticamente, na vertical muitos metros acima e do lado de fora termina numa ribanceira que vai ficando mais assustadora à medida que se vai subindo. Mal comecei a subir as minhas pernas já tremiam que nem vara verde. Meu coração batia a mil e a única solução que vinha à minha cabeça era voltar para trás. Quase a rastejar, comecei a longa descida e fazia de tudo para não olhar para a ribanceira. Assim que pude alcançar terra firme jurei a mim mesmo que nunca mais iria a Galo. 

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Realmente não haveria de tentar ir a Galo pelos próximos vinte anos. Somente há um ano, depois de ter regressado de Portugal, onde tinha estado a residir nos últimos tempos, é que Galo voltaria a cruzar-se no meu caminho. Já não via o meu amigo Sérgio fazia alguns anos. Ele também tinha estado fora, na Argélia, a concluir os seus estudos superiores. Quando criança, o Sérgio fazia o trajecto da Tacuda como que a brincar, e lá de casa eu ficava admirado quando via ele e as duas primas a descer, quase que a correr, pela encosta abaixo sem receio nenhum. Eles são meninos de Tacuda e para eles ir lá não deve representar perigo nenhum! Diz-me ele que agora está a explorar a horta que em tempos pertenceu ao nhe Eizé P'cent, tendo inclusive montado lá um pequeno sistema de rega gota-a-gota para aproveitar a água da nascente, facto que lhe obriga a subir até lá sempre que pode para efectuar a rega e verificar o estado em que se encontram as plantas. Combinamos que da próxima vez eu ia com ele, visto que tinha muita curiosidade em conhecer aquele lugar que povoou o meu imaginário quando criança.

 

Já na parte de tarde, quando o Sol se preparava para deixar a margem esquerda do vale, partimos em direcção à Cinta Branca, e de lá para Galo. Fizemos o trajecto pelo Cabouco d'Riba. Um caminho de cabra nos conduz até a Cinta Branca. Mesmo lá onde ainda era quase um planalto já começava a sentir alguma vertigem a tomar conta da minha cabeça, o que era normal depois de muito tempo sem andar por caminhos tão íngremes. Quando chegamos à Cinta Branca, fizemos uma pequena pausa e, enquanto eu recuperava do já notável cansaço, ficamos a contemplar a beleza da nossa pequena aldeia natal, Fajã de Barreira. Que vista! 

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Começava agora a verdadeira aventura, tentar chegar finalmente a Galo. A sensação era a mesma de há quase vinte anos, pois na minha cabeça algo me dizia que não ia conseguir vencer a minha fobia e assim alcançar a meta. O Sérgio, que já é veterano a fazer o trajecto, assumiu a dianteira, enquanto eu olhava para cima e para baixo, analisando as ameaças e as oportunidades do lugar e os meus pontos fortes e fracos, para só depois enfrentar o desafio. São poucos metros de caminho entre Cinta Branca e Galo, mas para quem não está acostumado a trepar montanhas parece que nunca mais se alcança o destino. O Sérgio disse-me que passou por lá com um depósito de água com capacidade para 1 000 litros que ele utiliza como tanque de gota-a-gota, que o caminho era bom e que devia apenas olhar para a frente. Fiquei intrigado a pensar como terá ele conseguido aí passar com esse tal depósito. Já vejo Galo! Ele tinha razão! Realmente se não desviarmos a atenção para a ribanceira fica tudo menos complicado! 

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Galo é deveras um pequeno regalo! Sentia como se estivesse sentado num pequeno miradouro de onde conseguia contemplar boa parte do Vale de Chã de Pedras. Fora a vista panorâmica, Galo é um pequeno mistério! Uma nascente de água doce brota de um buraco feito na rocha, permitindo a prática de agricultura de regadio numa pequena faixa de terreno no meio do sequeiro. Ninguém sabe ao certo de onde virá aquela bênção da mãe natureza. O certo é que, graças a ela, nhe Eizé P'cent plantava um pouco de tudo. Cana-de-açúcar, mandioca, mangueiras, macieiras, bananeiras e até fruta-pão. Hoje já não nasce tanta água lá como noutros tempos, mas o Sérgio efectuou uma pequena revolução agrária para racionar a pouca água disponível. Com alguns depósitos feitos de polietileno ele consegue recolher a pouca água da nascente para regar, através de um sistema gota-a-gota uma pequena horta onde ele planta alfaces, beterrabas, coentros, tomates, mandiocas, cenouras de entre outras espécies. A terra é boa e produz muito bem! 

plantas endémicas.jpgEnquanto esperamos pelo término da rega, subimos até uma pequena ladeira de onde se tem uma vista deslumbrante da parte superior do vale de Chã de Pedras. Aqui ainda é possível encontrar algumas plantas endémicas da ilha como o saião, a língua-de-vaca e o agrião das rochas. Sentindo os efeitos da vertigem, sento-me a contemplar a paisagem enquanto o Sérgio se aventura um pouco mais para cima, na tentativa de registar algumas excelentes fotografias do vale lá em baixo. As macieiras estão um pouco velhas mas ainda assim produzem algumas maçãs. Colhemos algumas que aparentavam estar maduras para comermos enquanto descíamos.

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Descer? Já me tinha esquecido que tinha que voltar a fazer aquele caminho, só que agora no sentido inverso. Mais uma vez, o Sérgio seguiu à frente e eu, abraçado à rocha, fui dando pequenos e lentos passos. Mas agora tudo parecia bem mais simples e num curto espaço de tempo já tinha alcançado a Cinta Branca. 

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Pelo caminho escutamos um bando de pardais que pareciam estar felizes da vida com algum achado. Bom, onde há pardais a chiar daquela forma estridente tem que haver frutas. Era uma goiabeira e de longe parecia estar carregada de goiabas! Corremos para lá e os pardais fugiram assim que se aperceberam da nossa presença. As goiabas de sequeiro são doces como mel, principalmente aquelas que foram debicadas pelos pardais. Recolhemos praticamente tudo o quanto estava inchado ou maduro e deixamos apenas os verdes. Talvez, nesse dia os pardais tenham finalmente apreendido a lição que enquanto se come não se assobia ou, melhor dizendo, não se chia! 

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