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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

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A TRADICIONAL MATANÇA DE PORCO EM SANTO ANTÃO

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Hoje vamos fazer uma pequena incursão pelas tradições santantonenses. A minha escolha recaiu sobre a tradicional matança de porco. Vou-vos relatar um pouco o processo da matança de porco que era feito lá em casa quando eu ainda era uma criança.

 

Lembro-me bem que todos os anos era feito a engorda do porco para ser "retirado" nas férias de verão, que era quando havia mais gente em casa, incluindo os familiares que estavam no estrangeiro e que, entre Julho e Agosto, regressavam para curtir umas curtas e merecidas férias e matar as saudades da terra natal.

 

Dias antes da "retirada" do porco, a minha avó contratava três homens para realizar as tarefas inerentes à matança e desmembramento do animal. Na véspera, reuniam-se os utensílios e materiais necessários. As facas eram afiadas e as cordas de bananeira e sisal eram postas de molho em água, de modo a que no dia seguinte nada faltasse ou atrapalhasse as atividades.

 

Ainda de madrugada, mais ou menos por volta das quatro horas, chegavam o "matador" e os ajudantes. A minha avó levantava da cama para lhes entregar os materiais e abrir a porta da cozinha. Como se já estivesse a adivinhar que o dia seria de "festa", o Tigre, o nosso cão, já lá estava todo feliz a abanar a cauda. O coitado do porco, esse continuava a aproveitar, sem ter a mínima noção, as suas últimas horas de sono.

 

Os homens encarregues da matança dirigiam-se para junto do chiqueiro (pocilga) munidos dos materiais e utensílios. Era preparada uma panela de água quente para dar de beber ao porco. Não sei bem qual era a razão dessa prática, mas talvez a água quente servisse para ajudar o sangue do porco a fluir na hora em que lhe espetassem a faca.

 

Assim que o porco terminasse de sorver a água, os ajudantes do matador saltavam para dentro do chiqueiro e amarravam-no e puxavam-no à força para fora. Uma vez expulso do chiqueiro, o animal era dominado pelos homens, que o atiravam para o chão, ao mesmo tempo que o atavam os pés e amordaçavam-no. Durante esse processo, ouvia-se os grunhidos do porco que, já consciente do seu triste destino, lutava em vão pela sua vida.

 

Com o porco dominado, este era colocado na melhor posição para facilitar o trabalho do matador. Junto ao pescoço deixava-se um tacho com vinagre, sal e louro onde seria recolhido o sangue. Então, com um golpe certeiro, o matador acertava a garganta do animal e o sangue começava a jorrar abundantemente. Enquanto o porco, já com poucas forças, continuava a lutar pela a sua vida, o matador procurava ajeitar a faca na garganta dele, à procura de acertar a artéria e acabar finalmente com o seu sofrimento.

 

Como o porco já morto, o matador fazia um corte, em forma de cruz, no sangue que se encontrava no tacho e que era preservado por mais algum tempo no local. Os auxiliares ajudavam-no a colocar o porco em cima de uma cama feita de palhas secas e cobriam-no com mais alguma palha. Acendia-se um fósforo e colocava-se fogo no porco para fazer a tosquia dos pelos. Já com o porco praticamente tosquiado, com uma faca bem afiada, raspava-se os restantes pelos que ainda continuavam presos ao seu couro, de modo a deixa-lo com uma pele completamente lisa.

 

Já ao romper da manhã o porco estava pronto para ser desmembrado. Enquanto o Tigre já se ia deliciando com as unhas chamuscadas que lhe eram oferecidas, nós os meninos ficávamos felizes com os pequenos pedaços de orelha crua que o matador cortava do porco e nos presenteava. Esse era um dos momentos que mais aguardávamos e eu particularmente gostava muito do som que a cartilagem fazia quando a mastigava. Ai como era bom ser criança e eu nem sabia!

 

Numa chapa de alumínio ,dispunha-se o porco de costas viradas para o solo. Lavava-se-lhe com água e o matador abria-o ao meio com o auxílio de uma faca bastante afiada. Retiravam-se as tripas e demais órgãos (fígado, pulmões, coração...) e com uma caneca aproveitava-se o restante sangue que ainda se encontrava dentro do porco. Então o sangue e os órgãos principais eram enviados para dentro de casa para serem preparados, enquanto as tripas e o bandulho eram reservados para serem mais tarde lavados.

 

Enquanto as mulheres preparavam o café de manha com cachupa guisada acompanhada de "friginote" de porco, o matador e os seus auxiliares continuavam a desmembrar o animal. Sempre, por tradição, era costume nosso fazer troca de carne entre os vizinhos e os familiares quando se fazia matança de porco. Assim, a minha mãe mandava cortar pedaços de carne e toucinho que depois eram colocados em sacos de plástico que nós os meninos íamos distribuindo pelas casas indicadas. Uma vez que nessa época ainda não havia outras formas de preservar a carne que não a salga, a partilha de parte dela com os vizinhos não só evitava que toda ela fosse salgada, assim como servia para reforçar os laços de amizade e garantia que sempre que alguém nas redondezas matasse um porco haveria carne na mesa dos seus vizinhos.

 

Fazia-se uma pequena pausa para o café da manhã. Humm, os aromas da cachupa guisada, acompanhada de friginote, e do café que exalavam da sala de jantar eram bastante convidativos e atiçavam o apetite. Saciados os apetites vorazes e completamente satisfeitos, nós e os homens encarregues da matança regressávamos ao trabalho. Enquanto eles continuavam a cortar a carne e a minha mãe a preparar as trouxas para os vizinhos e familiares, íamos fazendo as entregas consoante as suas ordens. Terminadas as entregas, o matador e os ajudantes arranjavam a cabeça do porco que, juntamente com uma parte da carne e do toucinho, era salgada.

 

No momento em que se fazia o desmembramento do porco, a minha avó pedia ao matador para cortar bem o umbigo, de modo a que ele ficasse com uma boa parte de carne e toucinho. O umbigo era para o nosso hoje saudoso amigo Manuel d'Polina que era quem sempre limpava as pocilgas. O rabo do porco esse era do matador.

 

No final da tarde, depois de bem lavadas, enchiam-se os intestinos delgados com ar, para serem colocados a secar, antes de serem enchidos com carne bem temperada, para fazer as linguiças, enquanto os intestinos grossos e o bandulho eram enchidos com uma mistura do sangue e farinha de milho para fazer o famoso chouriço de sangue. Igualmente, colocava-se uma parte do toucinho cortado numa caldeira que se levava ao fogo. Dali era obtido a banha de porco e os torresmos.

 

Aproveitávamos a bexiga para fazer uma bola de futebol que não durava muito até furar. Enquanto isso, o Tigre, já bem farto, aproveitava para enterrar alguns ossos que ele comeria durante os próximos dias. E assim dava-se por terminado mais uma matança de porco lá em casa.

 

Socram d'Arievilo in "A Pedra do Letreiro" 

 

Imagem @http://urbansketchers-portugal.blogspot.com/2010/10/challenge-xxxi-matanca-do-porco-no.html

O TABULEIRO DA ILUSÃO

no chão crã da ilha nua

sobre a fornalha ardente
improviso o tabuleiro d'oril
de entre as mãos calejadas
na incerteza deixo c
                                     a
                                     i
                                     r
grãos da minha vida
nos vagos orifícios
do jogo d'um contra mil
em rodeio, corvos negros
pousam
           um
               a
                um
sobre o velho espantalho
jogam à batota contra mim
e fazem festim em capote
o céu prenhe de rios e mares
entre uma g
                     o
                      t
                      a e outra de chuva
finge chorar a minha derrota
na ilusão remonto o tabuleiro
para a derradeira jogada
vem a seca e as pragas
...chitada!

 

Socram d'Arievilo in "O Tabuleiro da Ilusão"

 

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SS JOHN E. SCHMELTZER: A HISTÓRIA DE UM "LIBERTY SHIP"

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Foi há 70 anos que o navio da marinha mercante estadunidense SS John E. Schmeltzer naufragou a cinco milhas náuticas da Ponta de Peça, nas proximidades do Promontório de Canjana, concelho do Porto Novo, ilha de Santo Antão. Pela importância que o naufrágio teve na vida socioeconómica das duas ilhas do extremo noroeste do arquipélago de Cabo Verde, principalmente na sociedade santantonense, não se pode permitir que os factos morram com a geração de então, sendo portanto nossa obrigação recolher, preservar e dar a conhecer à nova geração, e às vindouras, a drástica situação de secas, fome e abandono que se viveu nestas ilhas durante a década de quarenta do século passado.

 

Neste contexto, o blogue a Pedra do Letreiro procurou investigar o porquê desse navio que contribuiu para salvar grande parte da população de Santo Antão e São Vicente de morrer à fome se chamar SS John Emile Schmeltzer. Quem terá sido John Emile Schmeltzer? Vamos então aos factos.

 

No dia 01 de Setembro de 1939, pelas 04h45, a Alemanha então comandada por Hitler invadia a Polónia, dando assim início a Segunda Guerra Mundial. Logo de seguida o Reino Unido lançava um ultimato aos alemães para que retirassem as suas tropas da Polónia, tendo-lhes dado dois dias para tal. Como seria de esperar, a Alemanha ignorou o ultimato, obrigando assim o Reino Unido a declarar-lhe guerra. A seguir, outros Aliados viriam a fazer o mesmo, mergulhando o mundo numa das guerras mais sangrentas da era moderna. 

 

Nos meses seguintes, a poderosa máquina de guerra aérea, terrestre e marinha alemã conseguiu aniquilar parte significativa dos esforços de guerra dos Aliados. A sobrevivência económica do Reino Unido dependia largamente da chegada em segurança dos navios mercantes que transportavam os equipamentos militares, suprimentos e tropas para o teatro de guerra, todavia os submarinos inimigos, “Lobos do Mar”, conseguiam, cada vez mais, afundar um maior número desses navios e as indústrias britânicas devastadas pela guerra não conseguiam, num curto espaço de tempo, produzir navios substitutos em número suficiente para suprir as baixas infligidas pela força alemã.

 

O Reino Unido era um dos maiores aliados dos Estados Unidos da América na Europa Ocidental, portanto a sua queda representaria uma grande ameaça para os próprios EUA. Assim, alguns meses antes de os japoneses atacarem a base norte-americana de Pearl Harbor, os EUA decidiram entrar, ainda que indirectamente, na Segunda Guerra Mundial, prestando uma ajuda, em termos de logística bélica, inestimável para o Reino Unido. O presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, e o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Winston Churchill, acordaram a concepção de um programa inovador de ajuda em regime de “Lend-Lease” que passou a permitir que armas e outros equipamentos bélicos fossem enviados para qualquer país considerado vital para a defesa dos interesses dos norte-americanos que até então mantinham uma posição neutra face à guerra.

 

Assim, dois estaleiros navais norte-americanos, respectivamente localizados na Costa Oeste (Pacífico) e Costa Este (Atlântico), começaram a produzir 60 navios comerciais para o Reino Unido. O projecto dos navios que foi oferecido pelos britânicos datava-se de 1879, sendo portanto obsoleto. Não obstante os navios estarem projectados para possuírem caldeiras a carvão e motores alternativos tecnicamente obsoletos, tinham a vantagem de serem práticos e poderem ser construídos em tempo record. Assim, os engenheiros navais dos EUA aproveitaram o projecto britânico e reformularam-no de modo a produzirem navios económicos num curto espaço de tempo.

 

Até o fim da Segunda Guerra Mundial, a indústria naval estadunidense produziu um total de quase seis mil navios mercantes e a maior frota de navios de combate até então vista pelo mundo. Os “Liberty Ships”, designados de “Ugly Ducklings” (“Patinhos Feios”) por Franklin Roosevelt, foram a maior e mais famosa classe de navios mercantes construídos durante a Segunda Guerra Mundial. Ao todo, entre 1941 e 1945, construiu-se o impressionante número de 2711 desses famosos navios. Mas quem eram esses tais “Liberty Ships”?

 

“Liberty Ship” foi o nome atribuído aos navios construídos pela Comissão Marítima dos Estados Unidos da América durante o Programa de Emergência da Segunda Guerra Mundial para auxiliar os Aliados no teatro de guerra no combate contra os germânicos. A Comissão Marítima atribuiu a esses navios a designação oficial “EC2-S-C1”. Onde o “EC” era a designação para navio de carga de emergência (“emergency cargo ship”); o “2” indicava a grande dimensão do navio que chegava a medir entre 400 a 450 pés de comprimento em linha de flutuação; o “S” era o significado para máquina a vapor (“steam engine”) e o “C1” o design especifico do navio e o número de modificação, respectivamente, (“the specific ship design and modification number”). A imagem seguinte representa a maquete de um (“Liberty Ship”).

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Fonte: National Museum of American History

 

Cada “liberty” tinha 441 pés (134 metros) de comprimento e 56 pés (17 metros) de largura. O sistema de propulsão era constituído por uma máquina a vapor de três cilindros alternativos, alimentada por duas caldeiras a óleo combustível e que produzia uma força equivalente a 2500 cavalos, permitindo o navio deslocar-se a uma velocidade de 11 nós (20 km/h). Os seus cinco compartimentos tinham capacidade para transportar mais de 9 mil toneladas de carga, isto fora os aviões, tanques e locomotivas que podia levar atados ao seu convés.  A seguir, figuras representando a anatomia de um “liberty ship”.

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Fonte: skylighters.org

 

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Fonte: blueprints.com

 

A cada um dos navios que era construído atribuía-se o nome de uma personalidade já falecida e que ao longo da vida tivesse contribuído significativamente para o engrandecimento da sociedade americana. Mais de 100 desses navios que foram construídos entre 1944/1945 receberam os nomes de marinheiros mercantes mortos durante a guerra. Contudo houve uma excepção, embora não intencional. O SS Francis J. O´Gara recebeu o nome de um fuzileiro naval que se pensava não ter sobrevivido quando o cargueiro Jean Nicolet foi torpedeado por um submarino japonês no oceano índico, no dia 4 de Julho de 1944. Todavia, ele tinha sobrevivido e sido feito prisioneiro de guerra pelos japoneses, juntamente com o capitão do cargueiro, David Nilsson, e o operador de rádio, Augustus Tilden. Francis J. O´Gara foi mais tarde resgatado, em 28 de Outubro de 1945, de um campo-prisão de guerra japonês e viveu até 18 de Setembro de 1981, quando faleceu aos 69 anos. A seguir, uma foto histórica de Francis, o único homenageado a ter o privilégio de posar ao lado do navio baptizado com o seu nome.

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Fonte: ogara.org

 

O primeiro dos 2711 navios a ser construído foi o SS Patrick Henry, lançado ao mar no dia 27 de Setembro de 1941. As 250 mil peças que compunham o navio foram pré-fabricadas em várias partes dos EUA em seções de 250 toneladas e montadas em 244 dias pela Bethlehem Shipbuilding Corporation, no seu estaleiro naval Bethlehem-Fairfield, sito na cidade de Baltimore, estado de Maryland. O tempo record de construção pertence ao SS Robert E. Peary, construído em 4 dias, 15 horas e 29 minutos. Segundo Wise e Baron (2004), cada um dos navios da classe “Liberty” chegava a custar, a valores do ano de 1945, dois milhões de USD (34 milhões de USD em 2017). Assim, os 2711 navios terão representado para os USA um investimento de 5,522 mil milhões de USD (92,174 mil milhões de USD em 2017).

 

Acreditava-se à época que se um navio conseguisse realizar mais que uma viagem, conseguir-se-ia então recuperar o valor do investimento nele realizado. Ao todo, 50 desses navios foram dados como perdidos na sua viagem de estreia. Contudo, ao longo do período que durou a Segunda Guerra Mundial, dos 2710 (1 dos 2711 navios ter-se-á incendiado e ficado completamente destruído ainda quando estava em construção no estaleiro), apenas 196 (7,2%) foram dados como perdidos, incluindo aqueles que foram destruídos por tempestades, naufrágios ou outros infortúnios não atribuídos à guerra. Tendo os EUA saídos vitoriosos da Segunda Guerra Mundial, o programa de construção de emergência dos navios teve um retorno incomensurável para esse país.

 

John Emile Schmeltzer (1882-1943) foi um engenheiro sénior, director da divisão técnica de construção naval da Comissão Marítima dos Estados Unidos da América (USMC) que deu enormes contributos na construção dos “liberty ships” durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Foi ele que defendeu que um investimento nos estaleiros navais era necessário para os tornar mais eficientes no processo de montagem dos navios, cumprindo-se assim a agenda de construção num período mais curto, o que, por sua vez, permitiria entregar um maior número de navios para satisfazer as necessidades da marinha mercante dos USA.

 

Sabe-se que John Emile Schmeltzer terá nascido no ano de 1882 na Pennsylvania, filho de pais franceses (Louis Schmeltzer e Mary Elisabeth Schmeltzer). Casou-se aos 34 anos com Anne Austin Schmeltzer, com quem teve dois filhos, John Emile Schmeltzer Jr. e Louis Bourke Schmeltzer. Ele faleceu, subitamente, na noite do dia 24 de Fevereiro (quarta-feira) de 1943 com a idade de 60 anos, durante uma viagem entre Providence e Washington DC. Em reconhecimento ao seu trabalho de mérito desemprenhado na Comissão Marítima, o centésimo trigésimo quinto navio a ser lançado ao mar recebeu o seu nome, SS John E. Schmeltzer.

 

O SS John E. Schmeltzer foi lançado ao mar em Baltimore, Maryland, no dia 16 de Maio de 1943 e naufragou na madrugada do dia 25 de Novembro de 1947 nos baixios de Ponta de Peça Santo Antão, às 05h49 locais, quando seguia viagem do Porto de Rosário, Argentina, para Gotemburgo, Suécia. O Porto de Rosário é um porto fluvial localizado na cidade de Rosário, margem direita do rio Paraná, acessível a partir do oceano Atlântico, de onde dista 550 quilómetros. É um dos centros de exportação de mercadorias de maior expressão da Argentina e é o eixo de maior área portuária desse país.

 

Em percurso marítimo, a distância entre Porto Rosário e Gotemburgo estima-se em aproximadamente 13 mil quilómetros, enquanto Praia Formosa, na ilha de Santo Antão, dista desse local uns 7,4 mil quilómetros. Tendo em conta que os navios da classe a que pertencia o “SS John” deslocavam-se à velocidade de 20 km/hora, estima-se que, sem a realização de escalas, a viagem entre Rosário e Praia Formosa tenha durado cerca de 14 a 16 dias. Assim, o “SS John” deverá ter zarpado do Porto de Rosário entre os dias 09 e 11 de Novembro de 1947. Na figura que se segue, apresenta-se o traçado hipotético realizado pelo navio entre o porto de partida e o local do naufrágio, assim como o percurso completo previsto, caso não tivesse naufragado.

adesivo-mapa-mundi-adesivo-mapa.jpgFonte: mapa com edição feita pelo autor

 

No momento em que o navio naufragou, segundo um documento oficial da Guarda Costeira dos Estados Unidos da América, encontrava-se ao leme o imediato Karl Skjaveland que mais tarde, em 12 de Janeiro de 1949, viria a ser julgado por negligência pela sua conduta imprudente que terá culminado no encalhe do SS John E. Schmeltzer. O julgamento deu como provado os fatos incumbidos ao réu, tendo-lhe sido aplicada a pena de suspensão dos títulos de imediato e capitão por um período de seis meses.

 

Num trecho do documento supracitado diz-se que o capitão na data do naufrágio estaria próximo da idade da reforma, mas em momento algum faz referência à sua identidade. Numa investigação por nós realizada foi possível saber que no dia 22 de Julho de 1947, sensivelmente quatro meses antes do naufrágio, a lista de tripulantes do “SS John", na chegada ao porto de Nova Iorque, era encabeçada pelo Capitão Alexander Ekke.

 

Alexander Ekke nasceu no dia 17 de Outubro de 1885 em Saarema, Estónia, e emigrou para os EUA com 27 anos de idade. As informações recolhidas indicam que ele prestou serviço na marinha e mais tarde passou a ser capitão de navios. Obteve a cidadania americana em 1919 quando tinha 33 anos. Faleceu em Nova Iorque em Setembro de 1962 com a idade de 76 anos.

 

Cruzando as informações até aqui avançadas, à data do naufrágio do SS John E. Schmeltzer, Alexander Ekke tinha 62 anos, completados no dia 17 de Outubro de 1947. Assim, uma vez que no documento da Guarda Costeira Americana diz-se que o capitão do “SS John” no dia do naufrágio estava prestes a reformar-se, e se tivermos em conta que na última escala/chegada que o navio fez à Nova Iorque, no dia 22 de Julho de 1947, a lista de tripulante apresentava como sendo o capitão Alexander Ekke, com um elevado nível de confiança, conclui-se que era ele igualmente o capitão do navio no dia em que ocorreu o naufrágio na Ilha de Santo Antão. 

 

Éder Oliveira, Praia 25 de Novembro de 2017

 

Nota: este documento é o resultado de uma investigação realizada pelo autor, que nela investiu tempo e dedicação, portanto a sua reprodução ou aproveitamento, ainda que parcial, é estritamente proibida, sem autorização por ele expressa.

 

Referências

Wise, J., e Baron, S., (2004). “Soldiers Lost at Sea: A Chronicle of Troopship Disasters”, (2004 ed.),  United States Naval InstituteISBN 9781591149668

 

Links de pesquisa:

https://www.thoughtco.com/the-liberty-ship-program-2361030

http://www.usmm.org/libertyships.html

http://www.ahoy.tk-jk.net/macslog/WW2LibertyShips-TheBridge.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Liberty_ship

http://ogara.org/?p=45

https://www.skylighters.org/troopships/libertyships.html

http://www.jajones.com/pdf/Liberty_Ships_of_WWII.pdf

 

Anexos

Fases de construção de um “Liberty Ship”

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Fonte: montagem feita pelo autor a partir de fotos obtidas no Wikipedia

 

D'SAFOR D'MÔTCH

O homem crioulo é por natureza desaforado. Ele pode atirar-se às mulheres dos outros mas se alguém mexer com a mulher dele pode crer que está a comprar guerra.

Esta letra retrata uma das tradições de maior expressão na cultura cabo-verdiana, o "cola sanjon", e a escolha da Ribeira de Julião não só se deve ao facto de ali, à semelhança do Porto Novo, se festejar o São João Baptista, mas também por eu querer, de uma forma singela, render uma homenagem àquele que tão bem soube eternizar, através da linguagem musical/poética, o modo de vida do homem cabo-verdiano, Manuel de Novas que, embora nasceu na zona de Penha de França, ilha de Santo Antão, é considerado filho de São Vicente, ilha onde viveu a maior (ou boa parte) parte da sua vida. E tal como ele, expressei-me em crioulo, não naquele que se quer padronizar, mas naquele onde as regras não impedem o cabo-verdiano de ser livre e original. A nós os "desaforados", dedico:

 

D'SAFOR D'MÔTCH

 

Aonte na rbera d'Julion 
Na ressaca d'um nôt d'sanjon 
E'm oiâ gente na um c'zê c'fazê 
Na um terpida d'um tamborada

 

Na pensa c'ma era lumnada 
E'm resolvê proximá pá expiá
Pá confiri o que tava tá passá 
Ma kl malta na kl barafundada

 

De repente sangue ferve'm na veia 
Nêva resolvê tapa'm na oi 
Quando e'm oiâ kl desgrassada 
Rodeod d'homê na kl vissarada

 

Era um colar diferente 
Um repicar de pau na tambor 
C'um tá dá d'trás ot tá dá d'frente 
Um suar de corpo d'respingá calor

 

E'm gritá bem alto 
Já tchere'm intentaçon
Ó diabo d'infer fastá de nha m'djer 
Se bô cá crê pá nô matá cumpanher

 

Ó senhor sanjon 
Por favor ocê perdoa'm 
Esse d'safor d'môtch 
Li na tchon d'rbera d'Julion.

 

Letra@ Socram d'Arievilo
Tela@ Severo Delgado

 

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O (in)GRATO

ó ilha, 
ó ilha minha
eu e tu
somos um 
no peito do outro
batendo feito tambor 
num rufiar endiabrado 
de fazer colar sanjon.
dois corpos numa fusão 
de rachar pedra ao sol 
espirrando suor e lágrimas 
sobre a terra queimada 
que ferida pela enxada 
brada aos céus chuva 
de jeito tão estridente 
que ao ecoar pelos vales 
lembra o grito de quem 
do ventre expulsa sua cria.
oh que saudade sem fim 
que já se prendeu em mim 
ao folhear as páginas da vida 
do pequeno menino filho da ilha 
que ousou sonhar com o mundo 
e acordou exilado noutra ilha!

 

Socram d'Arievilo in "A Pedra do Letreiro"

foto @ Marco Samuel

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SANTO CRUCIFIXO EM FESTA

Se não me estou em erro, a última vez que tinha marcado presença numa edição das festas em honra à Santa Cruz foi no longínquo ano de 2004, pouco antes de sair do país para ir completar os meus estudos. Por ser uma festa que tanto adoro, confesso que já tinha imensas saudades.

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Actualmente a festa é realizada apenas na vila do Coculi. Mas nem sempre foi assim. Dizem que a princípio ela era organizada no Figueiral mas que uma certa vez alguém de Chã de Pedras conseguiu desviar os tocadores que iam actuar nessa zona, mediante o pagamento de mais dez escudos por hora, ficando assim Chã de Pedras com o direito de organizar afesta. Anos mais tarde, a D. Chiquinha, que era quem organizava a festa, descontente com algo que não correu bem, arrumou as suas coisas e foi organizar a festa em Coculi. Ainda assim, Chã de Pedras conseguiu manter por muitos anos a tradição de organizar a festa, mas já sem o brilho de outrora. Em 2001 houve uma vã tentativa de devolver a festa de Santa Cruz à Chã de Pedras, mas as coisas ficaram muito aquém do programado e não mais se organizou a festa por lá até hoje. Segundo dizem, em tom de piada, a culpa foi do Jorge Neto.

 

Desde que se construiu a estrada de acesso à Boca de Ambas-as-Ribeiras que a festa é comemorada ao longo dessa referida estrada. Há barracas de comes e bebes de um lado e doutro da estrada, começando próximo da Boca do Figueiral e acabando para lá da Delegação Municipal. O troço de estrada está repleto de pessoas a caminhar para cima e para baixo, a conversar umas com as outras, a beber e a comer, a comprar umas peças de roupas nas barracas dos vendedores ambulantes.

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Aproveito para fazer uma pausa e observar o jogo da banca. Noutros tempos essa prática era ilegal e sempre que soasse o aviso que lá vinha a polícia o "dealer" desmontava a sua banca e as pessoas dissipavam-se por entre a multidão. Mas hoje não. Segundo me disseram agora o jogo é legal, pelo que há muita gente com as suas bancas a jogarem tranquilamente enquanto a polícia faz a sua ronda. Acho que foi uma óptima ideia terem optado pela legalização do jogo porque é uma prática já enraizada e bastante associada às festas de romarias. Só não sei se é preciso pagar alguma taxa às finanças locais para se poder explorar esse tipo de jogo. Tento a minha sorte apostando uma moeda. Ganho uma vez mas depressa perco o que já tinha ganhado e apresso-me logo para ir embora antes que resolva arriscar mais alguma moeda.

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A corrida de cavalos é uma das actividades mais aguardadas nessas festas. Miúdos e graúdos procuram a melhor posição para poderem assistir a chegada do cavalo favorito à meta. Alguns, mais corajosos, aventuram-se dentro da pista à espera que seja ordenada a partida e só se afastam quando os cavalos já estão bem próximos. Os cavalos passam a toda a velocidade e muita gente segue atrás para saber como é que ficaram posicionados. Uma multidão junta-se em frente ao júri contestando a decisão que ditou a despromoção para segundo lugar do cavalo Fast que havia chegado em primeiro. A justificação do Júri é que o jokey que montava o Fast "apertou" o seu adversário e segundo os regulamentos tal prática é penalizada com a desqualificação. Os fãs do Fast não se convencem mas parece que não há volta a dar senão aceitar o veredicto. A algazarra não dá sinais de terminar tão cedo pelo que resolvo deixar a corrida de lado e seguir a minha vida.

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Volto a parar junto a uma banca onde se jogam os dados. Desta vez sou apenas levado por uma pequena curiosidade. Nessa banca o "dealer" não é um cabo-verdiano autóctone mas sim cidadão originário da costa ocidental africana, que segundo me tinham dito antes já foi vendedor ambulante mas que hoje se dedica também aos jogos de fortuna e azar. É interessante ver que ele está bem integrado na sociedade cabo-verdiana ao ponto de explorar hoje um costume que antes se reservava aos cabo-verdianos. Fico igualmente contente ao ver que nessa banca não só estavam a apostar cabo-verdianos como havia um sujeito que aparentava traços europeus a fazer as suas apostas. Essa banca é o exemplo que hoje vivemos numa sociedade multicultural. Quem sabe no próximo ano não venha a encontrar uma banca com um "dealer" chinês!

 

Não tenho tempo para aguardar pelo baile popular. Tenho que regressar cedo para casa porque amanhã tenho um compromisso. Parto feliz e de coração tranquilo por saber que treze anos depois voltei a festejar as festas da Santa Cruz. As coisas estão um pouco diferente mas o ritmo e a entrega dos festeiros e o mesmo de sempre. Santo Antão continua a produzir muitos jovens mas ainda falta muito para fazer retornar esses jovens depois dos estudos a fim de garantir um são desenvolvimento dessa ilha apetrechada de um enorme potencial.

LAGOA DO PLANALTO LESTE: O NOSSO PARAÍSO

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Ontem fui ao campo! Desculpem-me, Lagoa queria eu dizer! Campo é Campo Abaixo, lugar onde se soltam os animais para irem pastar. Aqui não, aqui é lugar de gente!

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Lagoa é uma localidade com uma particularidade bastante interessante. A estrada que a atravessa serve igualmente de fronteira divisória entre os municípios da Ribeira Grande e do Porto Novo, fazendo lembrar a famosa fronteira entre a Holanda e a Bélgica, onde um cliente entra num bar pelo lado holandês, compra uma cerveja e consome-a na esplanada que, pelo seu turno, fica em território belga (ou vice-versa). Pois, na Lagoa também o senhor Pedro pode ser habitante da Ribeira Grande e o seu vizinho mais próximo, o Sr. João, que vive do outro lado da estrada ser residente do concelho do Porto Novo, ou ainda acontecer o filho da Dona Maria ter que atravessar todos os dias (de segunda à sexta-feira) a estrada para ir do Porto Novo estudar na escola que fica imediatamente do outro lado, no concelho da Ribeira Grande. Interessante, não é?!

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Foi precisamente na Lagoinha, lugar situado pouco antes da Lagoa que, há mais de vinte anos , assisti, pela primeira vez, a peça teatral Rabo da Bruxa do Grupo Juventude em Marcha. Lembro desse dia como se fosse hoje. Estávamos na casa dos meus tios e tínhamos ido para a colheita da batata inglesa, tendo o pessoal resolvido pernoitar lá, o meu primo Paulo resolveu regressar à ribeira para levar com ele um televisor e um gerador a diesel para que pudéssemos então assistir a peça teatral. Nessa noite dei gargalhadas, umas atrás das outras, graças as peripécias da dupla Frank de Pi e Manuel Repa.

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Nesse tempo já havia muitos socalcos, diques e banquetas construídos no âmbito do programa de florestação das zonas altas da ilha, que vinha sendo executado pelas FAIMO (Frentes de Alta Intensidade de Mão-de-Obra), órgão pertencente ao Governo de Cabo Verde. Hoje, volvidos vinte e poucos anos, é com muito regozijo que vejo que grande parte dessas árvores que foram plantadas conseguiu resistir ao clima agreste, crescendo em pequenos aglomerados verdes que mais parecem pequenas ilhas isoladas umas das outras por um mar de cor castanha. Acho que se todos nós der o seu contributo, plantando nem que seja uma única árvore e defendendo as que já lá estão dos fogos florestais, talvez daqui outros vinte e tal anos o que resta desse mar castanho seja engolido por árvores de grande porte, unindo as "ilhas" de floresta numa única e vasta "ilha". Aí é que Lagoa seria o tal de "parvissa" (paraíso) que o saudoso Sr. Teodoro de Melão já previa há alguns anos.

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A eletricidade 24/24 horas já é uma realidade também na Lagoa e demais aldeias circundantes, o que permite aos residentes desfrutarem-se desse bem público na sua plenitude. A pequena central elétrica a diesel que apenas fornecia eletricidade durante algumas horas é coisa do passado. Lagoa também é Santo Antão e, como tal, está integrada na rede elétrica alimentada pela central única da ilha.  A instalação de uma antena de rede móvel não só reforçou o sinal como permitiu a cobertura de uma maior área, permitindo aos lagoenses comunicar em todo e qualquer lado para toda e qualquer parte do mundo.

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A água, a tal fonte da vida, que tanta falta faz nas zonas altas da ilha, mas que abunda nalguns vales da zona norte, com muito esforço já é uma realidade nas torneiras das casas dessa região. Todavia, o projecto inicial provou não estar à altura para garantir que o precioso líquido não faltasse nas torneiras das casas dos lagoenses, donde um novo projecto está em curso para resolver definitivamente o problema da penúria de água que durante muitos e longos anos limitou consideravelmente a vida das pessoas. Talvez em breve burros carregados de vasilhas de água a caminhar debaixo de um sol abrasador seja apenas uma memória do passado recente.

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Enquanto caminhava pela estrada que me levava até as proximidades da Bordeira de Agriões, ia imaginando na minha mente irrequieta aqueles socalcos preenchidos de videiras de onde se colhia uvas suculentas para produzir um delicioso vinho "made in" Sto. Antão. Sei perfeitamente que a inexistência de água em estado líquido é uma restrição que devo ter em conta na materialização desse meu devaneio. Mas quem disse que a água só existe no estado líquido! Nessas ilhas tropicais não dispomos de água em estado sólido, mas em algumas partes ela abunda em estado gasoso. É o caso da Lagoa, onde diariamente várias toneladas de água na forma de nevoeiro cobrem toda a zona envolvente. As plantas conseguem elas próprias converter esse nevoeiro em água líquida para o seu próprio consumo e o homem, desde tempos remotos, vem testando algumas técnicas para aproveitar esse potencial hídrico em zonas áridas e semi-áridas. Aqui também é algo a pensar!

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Ontem era dia de festa por aquelas bandas. Segundo me disseram a festa que se estava a realizar era em honra ao São José. A princípio fiquei um pouco perplexo, visto que na minha zona também se comemora o São José, não no primeiro dia de Maio, mas sim no dia 19 de Março. Depois de refletir um pouco, cheguei à conclusão que talvez trata-se de uma estratégia deles a fim de garantir exclusividade nas comemorações. O que interessa é que havia muita gente (fiéis e festeiros) a seguir a procissão em direção à capela local, exímios tamboreiros a "refincar" pau no tambor, tal e qual se fazia antigamente nas festas de romaria, barracas de comes e bebes, salão de dança e uma pequena feira de venda de produtos da ilha no Espongeiro.

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Gosto de ver a ilha assim, a transpirar vida e a dar sinais de progresso. Às vezes não temos que ficar eternamente de braços cruzados à espera que sejam os responsáveis políticos a fazer-nos tudo. A obrigação deles é apenas a de nos oferecer a linha, a cana e o anzol. Cabe a nos ir pescar o peixe e leva-lo às nossas mesas. Colocar as mãos na massa e moldar a nossa sociedade para que possamos ter mais e melhor bem-estar. No caso de Lagoa, vê-se e sente-se perfeitamente que se está a fazer alguma coisa para garantir um futuro melhor para essa comunidade. Talvez o próximo passo seja calcetar a estrada que liga o Espongeiro à Lagoa e avançar com o plano urbanístico da localidade. Pois, o potencial agrícola e turístico de Lagoa é significativo e a sua exploração planeada pode trazer maior crescimento económico, mais postos de emprego e melhorias de bem-estar aos lagoenses. Hoje Lagoa pode ser uma simples aldeia rural mas amanhã poderá reunir condições para ser elevada a vila e, quem sabe, daqui algumas décadas venha a ser a cidade de Lagoa do Planalto Leste

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NÁUFRAGOS E FAMINTOS: A ÚLTIMA VIAGEM DO JOHN E. SCHMELTZER SS

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No próximo dia 25 de Novembro de 2017 faz 70 anos que o navio da marinha mercante estadunidense John E. Schmeltzer SS naufragou nas proximidades do promontório de Canjana, a 5 milhas náuticas de Ponta de Peça, salvando parte significativa da população da ilha de Santo Antão de morrer à míngua em resultado da grave fome que há anos vinha dizimando os cabo-verdianos.  

 

Durante uma década (1940-1950), Cabo Verde viveu mais uma dura crise humanitária de secas cíclicas e consequente epidemia de fomes. Enquanto noutras partes do mundo, principalmente na Europa, morria-se em resultado dos bombardeamentos da Segunda Grande Guerra Mundial, em Cabo Verde morria-se porque não havia nada para comer ou mesmo para beber. Embora ainda o país fosse parte integrante do império ultramarino português, Salazar não se importou muito com a tragédia que se vivia nessas ilhas, até porque na própria metrópole funcionava o racionamento alimentar e ele já tinha deixado o aviso “livro-vos da guerra, mas não da fome”.

 

Assim, os cabo-verdianos estavam entregues à sua sorte. Cada um tinha que escapar da forma como melhor pudesse. As poucas famílias mais abastadas tiveram também que racionar os escassos recursos disponíveis a fim de poderem sobreviver até o regresso das chuvas. As que não tinham nada apenas tinham que esperar pela hora do livramento divino. Ainda assim, no caso da ilha de Santo Antão, o desespero da fome levava muitos a aventuram-se a “subtrair” produtos hortícolas das hortas das famílias de posse. Para quem fosse apanhado a furtar aplicava-se a lei marcial: o infeliz era chicoteado e/ou assassinado e enterrado no local pelos guardas.

 

Ainda sem nenhum sinal que pudesse indicar que a queda das chuvas estaria para breve, a salvação dos habitantes da ilha de Santo Antão haveria de chegar a partir do mar. Na noite do dia 24 de Novembro de 1947, um navio que tinha partido do Porto de Rosário, na Argentina, com destino a Gotemburgo, na Suécia, com um carregamento de milho estava a cruzar as águas do norte do arquipélago de Cabo-verde. Por volta da meia-noite de 25 de Novembro de 1947, o Capitão do navio, que na altura estava próximo da idade de se reformar, avisou o seu Imediato Karl que a luz emitida pelo Farol de Ponta Machado (São Pedro – Ilha de São Vicente) seria avistada por volta das 04h00 e que o acordasse assim que tal sucedesse.

 

Todavia, o Imediato do navio não respeitou as ordens do seu Capitão e só foi chamá-lo por volta das 05h46 quando lhe relatou que à frente do navio via-se “nuvens ou terra”. Quando a visão do capitão se ajustou à escuridão já era demasiado tarde para evitar o encalhe do navio que viria a ocorrer por volta das 05h49. Ainda ele ordenou que se pusesse o leme o máximo à direita, mas antes que tal ordem pudesse ser efectivada o navio embateu contra os baixios e naufragou.

 

A notícia do naufrágio espalhou-se por todos os cantos e recantos da ilha, atraindo populações de localidades bastante distantes, algumas que ficavam mesmo a dias de caminhada a pé debaixo de um sol abrasador. Como podem imaginar, alguns viajantes provavelmente nunca terão visto o majestoso navio John a repousar-se nos rochedos de Ponta de Peça. A fraqueza, a falta de água potável e as consequências da dura viagem terão reclamado a vida de vários. Aqueles que conseguiram vencer a dura jornada e chegar ao local estabeleceram, juntamente com a tripulação do navio, um pequeno povoado e microeconomia baseados no conteúdo da carga da embarcação. De acordo com informações de um texto que tive acesso, a troca directa consistia por cada lata de milho os ilhéus entregarem uma lata de água aos marinheiros. Sendo que no local em questão não havia água potável, os ilhéus tinham que fazer uma dura viagem à procura desse bem escasso, de modo a poderem adquirir o sustento.

 

Mas a fome era tão severa que a aflição levava muitos a atiram-se ao milho que tinha estado em contacto com a água salgada. Mesmo quando esse milho era consumido depois de fervido muitas pessoas eram acometidas pela disenteria que em muitos casos resultava na morte da vítima. Para evitar consequências de peste pela presença de cadáveres humanos a jazer nas proximidades, estabeleceu-se que os coveiros seriam agraciados com um binde de cuscuz por cada corpo que sepultassem. Mais uma vez a aflição voltou a falar mais alto e a expectativa de ganhar um binde de cuscuz que pudesse adiar a morte fez com que algumas pessoas encontradas em agonia fossem sepultadas ainda com sinais vitais. Não havia tempo para compaixão e ressentimento. Pois, em tempo de fome a selecção natural sacrifica os fracos para garantir a sobrevivência dos mais fortes e o que se fazia era apenas acelerar o processo de morte natural de alguns para garantir o sustento de outros.

 

O povoado conseguiu resistir durante alguns anos subsequentes ao naufrágio, tendo inclusivo aí nascido pessoas. Os tripulantes do navio foram resgatados pouco tempo após o naufrágio e retornaram aos Estados Unidos da América. Em 12 de Janeiro de 1949, um inspector da Guarda Costeira dos USA sediada em Nova Iorque deu entrada com uma ordem pedindo a revogação da licença de Capitão atribuída ao senhor Karl e suspensão do seu título de Imediato por um período de seis meses, ao considera-lo culpado por negligência e incompetência enquanto desempenhava as funções de Imediato do navio John no dia 25 de Novembro de 1947.

 

 Em memória da tripulação do John E. Schmeltzer SS e das vítimas das fomes de 40.

 

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Socram d'Arievilo|2017

 

Nota: o navio representado na imagem é o  Blijdendyk pertencente a mesma classe que o John E. Schmeltzer SS.

DRACUS - O DRAGOEIRO SAGRADO (PARTE II)

 

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Meu nome completo é Lucy Anne Morris Smith, sou viúva, tenho sessenta e dois anos e nasci e cresci no seio de uma família de classe média e de devoção católica que vivia num vilarejo de North Yorkshire. Sou filha única e o sonho do meu pai era ver-me licenciada em Biologia na Oxford. Assim, com 22 anos completei a minha licenciatura e casei-me com Richard Isaac Smith, meu colega de universidade. Meu marido era doutorado em Filosofia e dizia que a missão dele era provar para o mundo que Platão estava certo e que a Atlântida um dia existiu. Passamos a residir aqui em Londres, onde ele doutorou-se em Filosofia Clássica, na Faculdade de Artes e Humanidades da King’s College de Londres e passou a leccionar aulas de filosofia, enquanto eu trabalhava como curadora no Museu de História Natural de Londres.

 

O Richard trabalhava muito. Quando não estava na Universidade a leccionar ou a investigar estava confinado no seu escritório em casa. Às vezes, quando ele não conseguia pregar os olhos, levantava-se de madrugada e descia para o rés-do-chão onde enfiava-se no escritório até à hora do pequeno-almoço, saindo depois para a universidade. Das poucas conversas que tínhamos sobre as suas investigações, lembro-me de uma certa vez ele ter-me dito que nunca tinha estado tão próximo de provar ao mundo que a Atlântida não foi um devaneio do Platão. Segundo ele, tinha provas suficientes que a Atlântida foi uma enorme ilha-continente, muito maior que a Grã-Bretanha, da qual actualmente os únicos vestígios à superfície só poderiam ser encontrados num conjunto de ilhas situadas no oceano Atlântico designado de Macaronésia (Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde) e que uma planta originária desses arquipélagos tinha muito a nos contar.

 

Nas suas viagens, ele já tinha estado na Madeira, nos Açores e nas Canárias, tendo recolhido neste último algumas amostras, inclusive das folhas, sementes e seiva do Dragoeiro (Dracaena draco). Quando olhei aquela planta pela primeira vez pensei que estivesse perante alguma espécie de fauna alienígena. Do meu curso de biologia, apenas lembro-me de uma breve referência que o Darwin fez na sua obra dando conhecimento ao mundo da existência dessa espécie nessas ilhas atlânticas e que ele mesmo pôde comprovar quando por aí passou a bordo do navio Beagle em 1832. Assim, passei a dar mais atenção a essa estranha espécie de planta e comecei a procurar referências sobre ela nas colecções do Museu de História Natural de Londres.

 

Hoje sei que a Dracaena Draco é uma espécie de fauna endémica da macaronésia, estando presente também no pequeno arquipélago de Socotra, no Iémen, que pode chegar a alcançar os 15 metros de altura e 5 metros de diâmetro; com casca lisa tornando-se rugosa de cor castanho-prata, terminando-se numa copa ampla em forma de guarda-sol de contorno circular. O seu fruto é uma baga de formato esférico, numa primeira fase amarelo-esverdeado, tornando-se, quando maduro, laranja brilhante. Mas o mais curioso nessa planta, se é que lhe posso chamar assim, é a sua resina. Quando cortada, a planta sangra literalmente. Pedi ao meu marido umas gotículas da amostra que ele tinha trazido das Canarias para analisar no microscópio, tendo ele consentido o meu pedido.

 

Quando aproximei o olho às lentes do microscópio recuei-me imediatamente para trás. Nunca na minha vida tinha visto algo igual. As células multiplicavam-se a uma velocidade fora do normal, para logo depois voltarem ao estado inicial. Era quase certo que lhes faltava algo para completarem a mutação. Mas tal era um enigma cuja resolução ultrapassava todos os meus conhecimentos científicos. Apressei-me o máximo que pude para chegar à casa e contar logo ao Richard o que havia descoberto.

 

- Não há como acreditar nisso Lucy. É impossível! Essa amostra, da qual dei-te as gotas, foi-me vendida por um descendente dos Aborígenes Canários (Guanches) em 1995 numa feira de antiguidades em Tenerife, e ele garantiu-me ser uma relíquia que, se tivermos em conta a sua linhagem familiar e o facto da conquista castelhana do arquipélago ter ocorrido entre 1402-1496, deve ter quase seis séculos de existência. Segundo o mesmo, os seus antepassados diziam ser os últimos descendentes de um povo que em tempos habitou uma enorme ilha que se perdia para lá do horizonte, que creio ser a Atlântida de Platão, e que o líquido em questão chama-se DRACUS, o sangue da vida – contou-me Richard, enquanto analisava a olho nu o conteúdo contido no pequeno frasco.

 

- Se não tivesse visto com os meus próprios olhos, também não acreditaria que há “vida” nesse líquido de aspecto vermelho que se encontra dentro desse pequeno frasco que seguras nas tuas mãos – disse eu - acho que deverias mesmo ter muito cuidado em manuseá-lo e, tão pouco, ousar-te a experimentá-lo.

 

- Podes estar descansada que jamais cometeria tal erro Lucy! – Tranquilizou-me ele, ao mesmo tempo que se levantava da poltrona da sala dirigindo-se para o escritório.

 

Se tivesse tido conhecimento dos factos que estariam para acontecer, confesso-lhe que jamais teria colocado o meu marido a par das minhas descobertas. A partir desse dia em diante o Richard passou a comportar-se de uma forma estranha. Deu entrada na universidade com um pedido de licença sabática, alegando estar com princípios de um esgotamento mental. Recolheu-se em casa, trancando-se no escritório horas a fio. Dormia poucas horas durante a noite, deixou a barba crescer e passou a adoptar um estilo, na minha opinião, um pouco desleixado para um senhor da sua idade e estatuto social.

 

Tinha um pressentimento que o nosso casamento estava cada dia mais próximo da ruptura. Uma noite, quando eu menos esperava, ele veio ter comigo ao quarto e disse-me que precisava de uma pausa nas suas investigações porque achava que estava a entrar em campos nunca antes explorados pela raça humana e que temia não poder haver retorno. Ele deitou-se e dormiu tranquilamente até que de madrugada começou a ter convulsões. Parecia estar dominado por uma força sobrenatural. De tudo aquilo que saía da boca dele só pude perceber e reter o seguinte: “Dracus insulae meridianam”. De repente, as convulsões sessaram-se e ele voltou a dormir profundamente como se nada tivesse acontecido.

 

Na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço questionei-lhe se recordava de ter tido um pesadelo enquanto dormia, ao que ele me respondeu que nunca tinha dormido tão bem na sua vida. Assim que terminou a refeição pediu-me licença dizendo que tinha que se recolher ao escritório para arrumar umas papeladas. Mais tarde almoçou comigo, e retornou novamente ao escritório. Donde só saiu a hora do jantar. Disse-me que realmente tinha chegado à conclusão que não adiantava levar adiante as investigações quanto a existência da Atlântida e que queria apenas conhecer o último arquipélago parte da Macaronésia onde ainda não tinha estado, Cabo Verde, e que logo a seguir retomaria as aulas na King’s College de Londres.

 

Ainda lembro-me daquele dia como se fosse hoje. Estávamos na manhã dia 05 de Agosto de 1997. Fazia um calor típico do verão londrino. Fui com ele até ao aeroporto e confesso-lhe que era a primeira vez que lhe via tão feliz nos últimos tempos. Finalmente, ele tinha cortado aquela barba que já lhe chegava acima do peito e os cabelos longos que lhe davam uma aparência de velho. Antes de nos despedirmos, ele disse-me que me tinha deixado uma surpresa na gaveta da sua secretária mas para só entrar no escritório assim que ele ligasse a dizer que tinha chegado ao destino. Senti um aperto no coração, mas no momento não me importei muito com aquilo para não lhe estragar a sua felicidade. Queria que ele fosse despreocupado e com a garantia que eu ficaria bem até ao seu regresso.

 

O avião partiu de Londres às 10h00 horas da manhã em direcção à Lisboa, onde ele faria uma escala de algumas horas enquanto aguardaria o próximo avião que o levaria até a ilha do Sal em Cabo Verde. Ligou-me assim que chegou ao hotel na ilha do Sal a dizer-me que estava seduzido pela beleza do país e que, não obstante o aspecto bastante árido dessa ilha, havia por lá praias paradisíacas. Passaria o resto do dia 06 de Agosto de 1997 na ilha do Sal, a aproveitar as belas praias de areia branca e mar azul-turquesa para repor as energias. No dia seguinte tinha um voo de ligação que o levaria até São Vicente, ponto de escala de onde seguiria para Santo Antão a bordo de uma avioneta. Disse-me que no hotel no Sal tinha visto algumas fotografias da ilha de Santo Antão e que essa tinha um aspecto mais montanhoso e verdejante, sendo cortada por vales profundos que sobem abruptamente, quase que na vertical, mais de mil metros acima do nível do mar. Estava ansioso por conhecer uma zona de nome Janela e visitar uma tal pedra do letreiro.

 

No dia 07 de Agosto de 1997 acordei com uma sensação estranha. Não sei como lhe posso explicar, mas era como se tivessem arrancado uma parte de mim. Estava com uma forte dor de cabeça e optei por ligar para trabalho a avisar que nesse dia não estava em condições de ir trabalhar. Esse aperto não queria abandonar-me e, como que se algo estivesse para acontecer, de repente comecei a pensar no Richard e lagrimas vieram-me aos olhos. Subitamente o telefone tocou. Estavam a ligar do Sal do hotel onde o Richard tinha pernoitado e disseram-me que as noticias que tinham para me transmitir não eram boas. O avião no qual o Richard seguia para Santo Antão não tinha conseguido pousar no aeródromo local, devido à chuva e a neblina, e num esforço dos pilotos para regressar de volta para São Vicente o avião perdeu-se no trajecto e foi-se embater numa montanha a uma altitude superior aos 1300 metros, incendiando-se e matando todos os 18 passageiros e tripulantes que seguiam a bordo.

 

(continua)

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@Socram d'Arievilo|2017

DRACUS - O DRAGOEIRO SAGRADO (PARTE I)

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- Minha cara senhora, essas coisas são lendas! E, eu em lendas não acredito! – disse o Sr. Thomas ainda incrédulo com aquilo que a Sra. Lucy acabara de lhe contar.

 

- Percebo a sua posição Professor Thomas. O senhor é um homem com uma reputação invejável no ramo das ciências da física e da matemática, portanto será difícil convencer-lhe com relatos do oculto, por mais sem provas concretas. Mas fique a saber que este planeta mantém bem escondido dos nossos olhos segredos que poderiam mesmo revolucionar as leis de Newton e Einstein. E acredite que Platão não teria escrito acerca da Atlântida se não tivesse tido conhecimento ou provas da sua existência!

 

- Não se exagere também trazendo à baila a questão da Atlântida, Sra. Lucy! Sabe perfeitamente que até hoje não se conseguiu localizar um único vestígio dessa mítica ilha-continente. Mesmo que ela tivesse submergido, como muitos são levados a acreditar, com todas as tecnologias que temos hoje no século XXI, onde se incluem os sofisticados satélites geoestacionários, com certeza já tínhamos descoberto a sua localização e para lá enviado submarinos-robôs para exploração. É bem provável que Platão se tenha deixado levar pelos acontecimentos da altura e daí ter forjado esse mito – respondeu o Sr. Thomas.

 

- Do seu lado percebe-se, sem resquícios de dúvida, que a ciência um dia terá respostas para tudo aquilo que se passa neste mundo e tudo o quanto se afirmar, mas que a ciência não seja capaz de corroborar por ora, são superstições – exclamou a Sra. Lucy – mas creio que o Sr. Thomas esteja equivocado em parte. Pois há coisas que até hoje a ciência não conseguiu provar, ou que jamais conseguirá provar, a sua existência, não podendo contudo serem consideradas superstições!

 

- Desculpe-me Sra. Lucy, se lhe ofendi as suas crenças. Não era esse o meu propósito! Sei que você é uma católica devota e que tem as suas razões para não acreditar apenas na ciência. Mas, como a senhora própria sabe, já dizia o São Tomé que é preciso ver para crer – disse o Sr. Thomas, numa clara tentativa de apaziguar o debate.

 

- Ora essa Sr. Thomas! Ambos estamos cá para fazer valer as nossas posições e não lhe posso exigir que leve em conta tudo aquilo que lhe estou a dizer, sem antes testar a sua veracidade. Já fui sim uma devota, mas depois de tudo aquilo que pude presenciar, pus de lado grande parte da minha devoção à igreja, porque creio que ela também, tal como a ciência, não está totalmente preparada para dar uma resposta cabal à nossa passagem por este mundo e sua continuação ou não, aqui ou nalguma outra parte do universo, em outra forma que não a matéria.

 

- Agora sim, conseguiu deixar-me mesmo intrigado com essa nossa conversa – exclamou o Sr. Thomas! – Pelo que pude perceber, a senhora viu algo que abalou a devoção à sua religião. É isso, não é Sra. Lucy?! – Interrogou o Sr. Thomas, um tanto quanto confuso.

 

- Se o senhor tiver tempo e paciência, prometo-lhe contar tudo o quanto eu sei e presenciei sobre o DRACUS – respondeu a Sra. Lucy, enquanto aproveitava o momento para limpar os seus óculos que estavam um pouco embaciados.

 

- A minha cara Sra. Lucy sabe que, enquanto cientista que estuda a astronomia, venho tentando indagar a existência de vida microbiana numa das luas de Júpiter, a lua Europa, para ser mais preciso, algo que poderá revolucionar toda a ciência que foi desenvolvida até hoje. Saber que não estamos sozinhos neste infinito universo é algo que me intriga desde criança quando, na casa dos meus pais, eu passava horas a fio a contemplar a beleza dos astros no céu nocturno, e agora eu vejo na Europa uma oportunidade única para desmascarar certas verdades tidas como absolutas. Portanto, ambos estamos a tentar, cada um pelos seus meios, provar que não somos os únicos seres aprisionados numa esfera planetária que descreve movimentos contínuos em torno de uma Estrela. E digo-lhe que estou deveras curioso para saber tudo aquilo que me propõe contar. 
 

A senhora parecia nervosa, mas via-se nos seus olhos que ela estava ansiosa para deitar para fora tudo o que lhe vinha tirando o sono nos últimos anos. Segurou o copo com água, olhou, por alguns segundos, nos olhos do Sr. Thomas, bebeu delicadamente um gole e, pousando o copo de volta em cima da mesa, começou o longo desabafo:

 
(continua)

 

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@Socram d'Arievilo| 2017