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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

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A TRADICIONAL MATANÇA DE PORCO EM SANTO ANTÃO

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Hoje vamos fazer uma pequena incursão pelas tradições santantonenses. A minha escolha recaiu sobre a tradicional matança de porco. Vou-vos relatar um pouco o processo da matança de porco que era feito lá em casa quando eu ainda era uma criança.

 

Lembro-me bem que todos os anos era feito a engorda do porco para ser "retirado" nas férias de verão, que era quando havia mais gente em casa, incluindo os familiares que estavam no estrangeiro e que, entre Julho e Agosto, regressavam para curtir umas curtas e merecidas férias e matar as saudades da terra natal.

 

Dias antes da "retirada" do porco, a minha avó contratava três homens para realizar as tarefas inerentes à matança e desmembramento do animal. Na véspera, reuniam-se os utensílios e materiais necessários. As facas eram afiadas e as cordas de bananeira e sisal eram postas de molho em água, de modo a que no dia seguinte nada faltasse ou atrapalhasse as atividades.

 

Ainda de madrugada, mais ou menos por volta das quatro horas, chegavam o "matador" e os ajudantes. A minha avó levantava da cama para lhes entregar os materiais e abrir a porta da cozinha. Como se já estivesse a adivinhar que o dia seria de "festa", o Tigre, o nosso cão, já lá estava todo feliz a abanar a cauda. O coitado do porco, esse continuava a aproveitar, sem ter a mínima noção, as suas últimas horas de sono.

 

Os homens encarregues da matança dirigiam-se para junto do chiqueiro (pocilga) munidos dos materiais e utensílios. Era preparada uma panela de água quente para dar de beber ao porco. Não sei bem qual era a razão dessa prática, mas talvez a água quente servisse para ajudar o sangue do porco a fluir na hora em que lhe espetassem a faca.

 

Assim que o porco terminasse de sorver a água, os ajudantes do matador saltavam para dentro do chiqueiro e amarravam-no e puxavam-no à força para fora. Uma vez expulso do chiqueiro, o animal era dominado pelos homens, que o atiravam para o chão, ao mesmo tempo que o atavam os pés e amordaçavam-no. Durante esse processo, ouvia-se os grunhidos do porco que, já consciente do seu triste destino, lutava em vão pela sua vida.

 

Com o porco dominado, este era colocado na melhor posição para facilitar o trabalho do matador. Junto ao pescoço deixava-se um tacho com vinagre, sal e louro onde seria recolhido o sangue. Então, com um golpe certeiro, o matador acertava a garganta do animal e o sangue começava a jorrar abundantemente. Enquanto o porco, já com poucas forças, continuava a lutar pela a sua vida, o matador procurava ajeitar a faca na garganta dele, à procura de acertar a artéria e acabar finalmente com o seu sofrimento.

 

Como o porco já morto, o matador fazia um corte, em forma de cruz, no sangue que se encontrava no tacho e que era preservado por mais algum tempo no local. Os auxiliares ajudavam-no a colocar o porco em cima de uma cama feita de palhas secas e cobriam-no com mais alguma palha. Acendia-se um fósforo e colocava-se fogo no porco para fazer a tosquia dos pelos. Já com o porco praticamente tosquiado, com uma faca bem afiada, raspava-se os restantes pelos que ainda continuavam presos ao seu couro, de modo a deixa-lo com uma pele completamente lisa.

 

Já ao romper da manhã o porco estava pronto para ser desmembrado. Enquanto o Tigre já se ia deliciando com as unhas chamuscadas que lhe eram oferecidas, nós os meninos ficávamos felizes com os pequenos pedaços de orelha crua que o matador cortava do porco e nos presenteava. Esse era um dos momentos que mais aguardávamos e eu particularmente gostava muito do som que a cartilagem fazia quando a mastigava. Ai como era bom ser criança e eu nem sabia!

 

Numa chapa de alumínio ,dispunha-se o porco de costas viradas para o solo. Lavava-se-lhe com água e o matador abria-o ao meio com o auxílio de uma faca bastante afiada. Retiravam-se as tripas e demais órgãos (fígado, pulmões, coração...) e com uma caneca aproveitava-se o restante sangue que ainda se encontrava dentro do porco. Então o sangue e os órgãos principais eram enviados para dentro de casa para serem preparados, enquanto as tripas e o bandulho eram reservados para serem mais tarde lavados.

 

Enquanto as mulheres preparavam o café de manha com cachupa guisada acompanhada de "friginote" de porco, o matador e os seus auxiliares continuavam a desmembrar o animal. Sempre, por tradição, era costume nosso fazer troca de carne entre os vizinhos e os familiares quando se fazia matança de porco. Assim, a minha mãe mandava cortar pedaços de carne e toucinho que depois eram colocados em sacos de plástico que nós os meninos íamos distribuindo pelas casas indicadas. Uma vez que nessa época ainda não havia outras formas de preservar a carne que não a salga, a partilha de parte dela com os vizinhos não só evitava que toda ela fosse salgada, assim como servia para reforçar os laços de amizade e garantia que sempre que alguém nas redondezas matasse um porco haveria carne na mesa dos seus vizinhos.

 

Fazia-se uma pequena pausa para o café da manhã. Humm, os aromas da cachupa guisada, acompanhada de friginote, e do café que exalavam da sala de jantar eram bastante convidativos e atiçavam o apetite. Saciados os apetites vorazes e completamente satisfeitos, nós e os homens encarregues da matança regressávamos ao trabalho. Enquanto eles continuavam a cortar a carne e a minha mãe a preparar as trouxas para os vizinhos e familiares, íamos fazendo as entregas consoante as suas ordens. Terminadas as entregas, o matador e os ajudantes arranjavam a cabeça do porco que, juntamente com uma parte da carne e do toucinho, era salgada.

 

No momento em que se fazia o desmembramento do porco, a minha avó pedia ao matador para cortar bem o umbigo, de modo a que ele ficasse com uma boa parte de carne e toucinho. O umbigo era para o nosso hoje saudoso amigo Manuel d'Polina que era quem sempre limpava as pocilgas. O rabo do porco esse era do matador.

 

No final da tarde, depois de bem lavadas, enchiam-se os intestinos delgados com ar, para serem colocados a secar, antes de serem enchidos com carne bem temperada, para fazer as linguiças, enquanto os intestinos grossos e o bandulho eram enchidos com uma mistura do sangue e farinha de milho para fazer o famoso chouriço de sangue. Igualmente, colocava-se uma parte do toucinho cortado numa caldeira que se levava ao fogo. Dali era obtido a banha de porco e os torresmos.

 

Aproveitávamos a bexiga para fazer uma bola de futebol que não durava muito até furar. Enquanto isso, o Tigre, já bem farto, aproveitava para enterrar alguns ossos que ele comeria durante os próximos dias. E assim dava-se por terminado mais uma matança de porco lá em casa.

 

Socram d'Arievilo in "A Pedra do Letreiro" 

 

Imagem @http://urbansketchers-portugal.blogspot.com/2010/10/challenge-xxxi-matanca-do-porco-no.html

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