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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

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Aventuras da Páscoa na ilha do Fogo: a volta à ilha

Cabo Verde é sim “um país dez destinos” que vale a pena ser percorrido de Santo Antão à Brava. É verdade que a falta de transportes nalguns percursos inter-ilhas e os exorbitantes preços praticados noutros acabam por funcionar como uma barreira que dificulta imenso a vida de quem quer conhecer todos os cantos e recantos deste arquipélago. Ainda assim, com um pouco de esforço e uma boa dose de paciência, aos poucos vai-se cumprindo este sonho.

 

Ainda até há poucos dias eu não conhecia uma das mais belas e impressionantes ilhas de Cabo Verde. Por isso, no fim-de-semana da Páscoa resolvemos fugir um pouco ao stress da vida citadina da nossa capital Praia e ir conhecer esse belo destino, ilha do Fogo. O Fogo é uma ilha de 476 Km quadrados que na realidade não é mais que a cratera de um enorme vulcão que entre a linha costeira e o ponto mais alto contam-se exactamente 2829 metros. E, ao contrário das outras ilhas do arquipélago de Cabo Verde cujos vulcões “calaram-se” há milhares ou mesmo milhões de anos, o Fogo continua vivo e, numa média de 20 em 20 anos, resolve cuspir fogo sobre Chã das Caldeiras. A última vez foi em 23 de Novembro de 2014. Ao todo, desde que a ilha foi descoberta pelos portugueses em 1460, o vulcão já entrou em erupção 25 vezes.

 

Bom, deixando de lado a história, a geografia e a geologia da ilha que já são do conhecimento de todos, vamos lá conhecer as (minhas) nossas aventuras da Páscoa na ilha do Fogo. Partimos do aeroporto da Praia Nelson Mandela às 9h00 da sexta-feira Santa rumo à ilha do Fogo, num voo da Binter Cabo Verde. Em menos de meia hora tínhamos aterrado no aeródromo de São Filipe. A medida que nos íamos aproximando da ilha via-se o imponente e omnipresente vulcão que é contornado pelo avião até aterrar em São Filipe.

 

Apanhamos um táxi que nos levou até o empreendimento turístico Casas do Sol. O Casas do Sol é bem acolhedor. Trata-se de um conjunto de pequenos apartamentos (em forma de casinhas) dispersos uns dos outros, onde em cada um se tem uma pequena kitchenette que se pode utilizar para confeccionar as refeições. Pois, por lá só se servem pequenos-almoços durante a estada. Há uma pequena piscina e tem-se acesso directo a uma extensa praia de areia negra cujo empreendimento lhe-é sobranceiro. O som das ondas a quebrarem na areia negra juntamente com chilrear dos passarinhos (principalmente pardais) transformavam-se numa doce melodia que nos convidava a deitar numa das espreguiçadeiras dispostas à volta da piscina, mas aquele não era o melhor momento. O tempo era pouco, ainda não tinhamos tomado o pequeno-almoço e tinhamos que conhecer em apenas três dias a cidade de São Filipe e toda a ilha do Fogo, especialmente Chã das Caldeiras.

 

O centro histórico de São Filipe é um dos mais belos que há em Cabo Verde. Quase todas as residências históricas têm sobrados e varandas. As ruas estão asseadas, possuem plantas a adorná-las e praticamente todas são empedradas. “Descobrimos” o Tropical Club, onde paramos para tomar o pequeno-almoço. Pedimos cachupa acompanhada de ovo estrelado e chouriço e uma meia de leite para despertar o corpo. Mas antes foi-nos servido um sumo natural de papaia para deliciar e refrescar a alma.

 

Satisfeitos, lá saímos a passear pela cidade. Fomos ao Presídio (ninguém foi preso, risos), praça onde se realizam as festas de Nhô São Filipe. Paramos no mercado municipal para ver o que havia de novidades por lá e não que encontramos umas mangas à venda. Compramos algumas para comer mais tarde. Pensamos em ir conhecer a zona das salinas que dizem ser um lugar de belezas esplêndidas. Paramos um taxista que nos disse que nos poderia fazer o percurso até lá, e que com uma paragem de 10 minutos antes do regresso, ficava pelo valor de 6 mil escudos o mesmo valor que ele cobrava até Mosteiros num percurso de ida-e-volta. Optamos por ir conhecer então a cidade de Mosteiros e almoçar por lá. O taxista chamava-se Zé Carlos. Rapidamente, ficamos a saber que ele era uma pessoa bastante simpática e com muita experiência na prestação de serviço de transporte de turistas.   O caminho até Mosteiros faz-se pelo Anel Rodoviário do Fogo, uma estrada moderna e asfaltada, mas não em todo o percurso. Gastou-se muito mais do que o investimento inicialmente previsto e não se construiu metade do anel rodoviário que deveria ligar todos os três concelhos do Fogo. Mas isso não é nenhuma novidade nas obras públicas em Cabo Verde. Obra sem derrapagem neste país talvez só com milagre.

 

Pelo caminho, o nosso taxista foi parando nalguns locais estratégicos para que pudéssemos contemplar melhor a paisagem. Afinal, resolvemos não ficar por Mosteiros mas sim, por mais 2 mil escudos (8 mil escudos no total), fazer a volta à ilha, retornando à São Filipe via Santa Catarina do Fogo. Paramos nos Mosteiros apenas o tempo suficiente para almoçar. Embora eu não seja um católico praticante, pelo enorme respeito que tenho à Igreja e em honra ao período quaresmal, resolvi comer peixe e não carne. A escolha recaiu sobre serra grelhada com legumes. Concluído o almoço, foi hora de retomar a estrada. Por sugestão do taxista, antes de apanharmos a estrada principal, fizemos um pequeno desvio até Chã de Feijoal para conhecer os cafezais onde se colhe um dos cafés mais saborosos do mundo. No percurso, fizemos uma paragem num miradouro que dá para contemplar a cidade dos Mosteiros. A vista é deveras gratificante. Em Chã de Feijoal, o café já tinha sido colhido e nalgumas casas era possível ver as cerejas de café a secar, para depois virem a ser debulhadas, torradas e embaladas. Normalmente, boa parte da colheita segue para o mercado internacional, onde o café do Fogo é bastante requisitado e altamente cotado.

 

Como já começava a fazer-se tarde, seguimos a nossa viagem em direcção à São Filipe (via norte). Pelo caminho paramos ainda num outro pequeno miradouro com vista para o mar. Na estrada vi algumas galinhas de mato em voo. Àquelas horas provavelmente estavam à procura de um poleiro seguro para descansarem. Passamos pela cidade de Cova Figueira, mas dado o avançar das horas não foi possível fazer uma paragem. Combinamos com o taxista levar-nos no dia seguinte à Chã das Caldeiras. Chegamos ao Casas do Sol e fomos imediatamente tomar um banho de água morna para relaxar o corpo antes de sairmos à procura de um local para o jantar. O jantar foi no Zebra Corner (Casa Colonial), um restaurante bastante acolhedor e com um excelente serviço. Dessa vez, a minha escolha foi búzio. Bebemos uma deliciosa caipirinha e saboreamos um divinal pudim de queijo. De seguida, voltamos ao empreendimento turístico para descansar porque às 8h00 da manhã tínhamos que estar de pé para subir ao Pico do Fogo. Não imaginam como eu estava bastante ansioso para descobrir Chã das Caldeiras e as suas gentes. Mas isso é história para um outro dia.

 

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