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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

DA CRISTA DO GALO A VISTA É UM REGALO

No meu imaginário de criança, logo a seguir a última montanha vinha o céu e quem vivesse numa casinha que ficava no topo de uma montanha tinha o privilégio de tocá-lo com as suas próprias mãos. Assim, tinha dias que passava tempo a fio a mirar uma montanha que fica num lugar chamado Tacuda e que tem o formato que mais faz lembrar as cabeças de três ou quatro senhores que lá estão a conversar. O facto de todos os dias esses senhores estarem na mesma posição era algo que me intrigava muito e imaginava-os como deuses que lá do céu observavam tudo o que fazíamos ali em baixo no vale.

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Com o tempo, passei a perceber que na realidade aquilo era apenas uma ilusão criada na minha cabeça de menino inocente e que o céu, talvez, ficasse bem longe dali. Ainda assim, continuava curioso por conhecer a Tacuda e o Galo. Sempre ouvia dizer que lá em cima na Tacuda havia mangueiras que davam mangas deliciosas, e que um pouco antes, no Galo, junto a uma nascente de água doce que brotava das rochas sem nunca secar, mesmo nos anos de seca mais severa, nhe Eizé P’Cent, que Deus tenha a sua alma em paz, tinha uma pequena horta onde produzia cana-de-açúcar e plantara algumas macieiras cujas maçãs eram uma delícia. Ah, como eu queria também provar essas mangas e maçãs!

 

Mas ir à Tacuda, ou mesmo até Galo, era uma coisa que estava fora de questão, por mais que desejasse o contrário! Jamais a minha mãe e a minha avó iriam permitir que eu subisse por aqueles caminhos falsos e íngremes, construídos para caber pouco mais que dois pés e onde não são permitidos descuidos para um adulto, quanto mais para uma criança. Mas, tinha umas crianças da vizinhança, um pouco mais novas que eu, que lá iam acompanhadas dos avós e que por lá desciam como cabritos a respingar pelas montanhas sem medo das alturas e dos perigos vários que alguns dos mais velhos diziam representar aquele caminho. 

 

Alguns anos mais tarde, numa ida à Cinta Branca na companhia dos meus primos para conhecer o lugar e ver de perto uma pequena horta onde o Armindo encontrava-se a trabalhar, resolvemos nos aventurar numa ida até Galo para ver se realmente havia lá maçãs. Os mais destemidos foram-se à frente e eu resolvi seguir logo atrás. O caminho não deve ter mais que três palmos de largura e foi escavado numa encosta íngreme de uma montanha que sobe, praticamente, na vertical muitos metros acima e do lado de fora termina numa ribanceira que vai ficando mais assustadora à medida que se vai subindo. Mal comecei a subir as minhas pernas já tremiam que nem vara verde. Meu coração batia a mil e a única solução que vinha à minha cabeça era voltar para trás. Quase a rastejar, comecei a longa descida e fazia de tudo para não olhar para a ribanceira. Assim que pude alcançar terra firme jurei a mim mesmo que nunca mais iria a Galo. 

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Realmente não haveria de tentar ir a Galo pelos próximos vinte anos. Somente há um ano, depois de ter regressado de Portugal, onde tinha estado a residir nos últimos tempos, é que Galo voltaria a cruzar-se no meu caminho. Já não via o meu amigo Sérgio fazia alguns anos. Ele também tinha estado fora, na Argélia, a concluir os seus estudos superiores. Quando criança, o Sérgio fazia o trajecto da Tacuda como que a brincar, e lá de casa eu ficava admirado quando via ele e as duas primas a descer, quase que a correr, pela encosta abaixo sem receio nenhum. Eles são meninos de Tacuda e para eles ir lá não deve representar perigo nenhum! Diz-me ele que agora está a explorar a horta que em tempos pertenceu ao nhe Eizé P'cent, tendo inclusive montado lá um pequeno sistema de rega gota-a-gota para aproveitar a água da nascente, facto que lhe obriga a subir até lá sempre que pode para efectuar a rega e verificar o estado em que se encontram as plantas. Combinamos que da próxima vez eu ia com ele, visto que tinha muita curiosidade em conhecer aquele lugar que povoou o meu imaginário quando criança.

 

Já na parte de tarde, quando o Sol se preparava para deixar a margem esquerda do vale, partimos em direcção à Cinta Branca, e de lá para Galo. Fizemos o trajecto pelo Cabouco d'Riba. Um caminho de cabra nos conduz até a Cinta Branca. Mesmo lá onde ainda era quase um planalto já começava a sentir alguma vertigem a tomar conta da minha cabeça, o que era normal depois de muito tempo sem andar por caminhos tão íngremes. Quando chegamos à Cinta Branca, fizemos uma pequena pausa e, enquanto eu recuperava do já notável cansaço, ficamos a contemplar a beleza da nossa pequena aldeia natal, Fajã de Barreira. Que vista! 

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Começava agora a verdadeira aventura, tentar chegar finalmente a Galo. A sensação era a mesma de há quase vinte anos, pois na minha cabeça algo me dizia que não ia conseguir vencer a minha fobia e assim alcançar a meta. O Sérgio, que já é veterano a fazer o trajecto, assumiu a dianteira, enquanto eu olhava para cima e para baixo, analisando as ameaças e as oportunidades do lugar e os meus pontos fortes e fracos, para só depois enfrentar o desafio. São poucos metros de caminho entre Cinta Branca e Galo, mas para quem não está acostumado a trepar montanhas parece que nunca mais se alcança o destino. O Sérgio disse-me que passou por lá com um depósito de água com capacidade para 1 000 litros que ele utiliza como tanque de gota-a-gota, que o caminho era bom e que devia apenas olhar para a frente. Fiquei intrigado a pensar como terá ele conseguido aí passar com esse tal depósito. Já vejo Galo! Ele tinha razão! Realmente se não desviarmos a atenção para a ribanceira fica tudo menos complicado! 

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Galo é deveras um pequeno regalo! Sentia como se estivesse sentado num pequeno miradouro de onde conseguia contemplar boa parte do Vale de Chã de Pedras. Fora a vista panorâmica, Galo é um pequeno mistério! Uma nascente de água doce brota de um buraco feito na rocha, permitindo a prática de agricultura de regadio numa pequena faixa de terreno no meio do sequeiro. Ninguém sabe ao certo de onde virá aquela bênção da mãe natureza. O certo é que, graças a ela, nhe Eizé P'cent plantava um pouco de tudo. Cana-de-açúcar, mandioca, mangueiras, macieiras, bananeiras e até fruta-pão. Hoje já não nasce tanta água lá como noutros tempos, mas o Sérgio efectuou uma pequena revolução agrária para racionar a pouca água disponível. Com alguns depósitos feitos de polietileno ele consegue recolher a pouca água da nascente para regar, através de um sistema gota-a-gota uma pequena horta onde ele planta alfaces, beterrabas, coentros, tomates, mandiocas, cenouras de entre outras espécies. A terra é boa e produz muito bem! 

plantas endémicas.jpgEnquanto esperamos pelo término da rega, subimos até uma pequena ladeira de onde se tem uma vista deslumbrante da parte superior do vale de Chã de Pedras. Aqui ainda é possível encontrar algumas plantas endémicas da ilha como o saião, a língua-de-vaca e o agrião das rochas. Sentindo os efeitos da vertigem, sento-me a contemplar a paisagem enquanto o Sérgio se aventura um pouco mais para cima, na tentativa de registar algumas excelentes fotografias do vale lá em baixo. As macieiras estão um pouco velhas mas ainda assim produzem algumas maçãs. Colhemos algumas que aparentavam estar maduras para comermos enquanto descíamos.

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Descer? Já me tinha esquecido que tinha que voltar a fazer aquele caminho, só que agora no sentido inverso. Mais uma vez, o Sérgio seguiu à frente e eu, abraçado à rocha, fui dando pequenos e lentos passos. Mas agora tudo parecia bem mais simples e num curto espaço de tempo já tinha alcançado a Cinta Branca. 

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Pelo caminho escutamos um bando de pardais que pareciam estar felizes da vida com algum achado. Bom, onde há pardais a chiar daquela forma estridente tem que haver frutas. Era uma goiabeira e de longe parecia estar carregada de goiabas! Corremos para lá e os pardais fugiram assim que se aperceberam da nossa presença. As goiabas de sequeiro são doces como mel, principalmente aquelas que foram debicadas pelos pardais. Recolhemos praticamente tudo o quanto estava inchado ou maduro e deixamos apenas os verdes. Talvez, nesse dia os pardais tenham finalmente apreendido a lição que enquanto se come não se assobia ou, melhor dizendo, não se chia! 

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