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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A dinastia vira-lata: um Piloto no reino dos Tigres

 

Lá em casa nunca faltou cães! Desde os tempos dos meus avós maternos que é costume termos um cão de guarda. O nome preferido sempre foi Tigre ou Tigrinho, para os mais íntimos. Por sorte, pude crescer praticamente ao lado do melhor Tigre que por lá já passou.

 

Estava o meu pai e um dos seus irmãos a regressar da primeira edição do festival da Baia das Gatas quando, no cais do Porto Novo, acharam uma cadela com uma ninhada de cachorros. Sem perda de tempo, cada um deles resgatou uma cria para levar para casa. Isso foi no verão de 1984 e eu só viria a nascer alguns meses mais tarde, em Janeiro de 1985. Assim, posso dizer que esse Tigre foi a minha versão de irmão de quatro patas. Como seria de esperar, não tenho memórias desses meus primeiros tempos de vida, mas tenho quase certeza de ter recebido umas tantas lambidelas desse meu mano canino.

 

O Tigre era um cão que não fazia mal a ninguém, nem a uma mosca sequer! Assim, era hábito meu quando menino fazer dele o meu cavalo para cavalgar pelo pátio lá de casa. E ele lá seguia todo feliz a ofegar. O seu local predilecto de descanso era a bancada que fica na parte de frente da casa dos meus avós. De lá, sempre que passava alguém que chamasse por ele, ele respondia com as suas suaves lambidelas enquanto abanava a cauda de um lado para outro.

 

Lembro-me de uma certa vez que ele foi na companhia da minha mãe e do meu saudoso amigo Mário de Tchuntchim para Espadanã para a colheita de milho. Na ida foram à pé mas no regresso tiveram boleia do meu tio António de Guilherme, só que o Tigre não aceitou de modo nenhum que lhe enfiassem no camião, pelo que acabou por ficar no Espadanã. De lá da casa onde estava não arredou as patas, até o Mário ir lá novamente e trazer-lhe de volta pelo caminho vicinal.

 

Os dias de festa que envolviam lançamento de foguetes eram o calvário do meu Tigrinho. Mal ele escutava o barulho dos foguetes a ecoar pelos confins do vale, punha-se logo a tremer. A única escapatória dele era encontrar o mais rapidamente possível um lugar onde pudesse abrigar. Assim, ele tinha o hábito de esconder-se debaixo das camas nesses dias de lançamento de foguetes. Não só lá em casa, como nas casas da vizinhança. De lá saía somente assim que já não escutasse mais nenhum estrondo e, mesmo os vizinhos, já sabendo do seu hábito, não se importavam muito com a sua presença por baixo das suas camas, por mais sabiam que ele era um cão inofensivo e amado por todos.

 

Em meados de 2001, o Tigre terminaria a sua nobre missão enquanto cão de guarda lá de casa. Tinham sido dezasseis longos anos de reinado de um rei nobre. Até aos últimos dias que antecederam a sua partida para o além, o Tigrinho nunca tinha mordido ninguém, ao contrário do seu irmão que já juntava no temível currículo não sei quantas mordeduras, inclusive duas que resultaram em corte parcial de uma das orelhas das vítimas. Mas em jeito de despedida o Tigrinho ainda teria que nos deixar provas que cão que não ladra morde. Assim, talvez numa vã tentativa de fugir da morte, ele resolveu esconder-se debaixo da cama da minha avó, donde foi enxotado pela minha mãe que, depois de muitas tentativas amigáveis que não surtiram efeito, teve que recorrer a um pau. O pobre e moribundo do Tigrinho finalmente saiu de debaixo da cama a agonizar da “paulada” que levara mas ainda teve tempo para cravar os dentes numa das pernas da minha mãe.

 

Ele ficou ainda alguns dias preso junto a uma moita de bananeira onde tinha sombra e água fresca e recebia as refeições que praticamente já ignorava por completo. Lá faleceu em paz deixando-nos mergulhados num mar de tristeza. Era quase certo que não voltaríamos a ter cão daquela categoria lá em casa. Depois dele veio um outro Tigre, este de pequena estatura, que praticamente não teve tempo para aquecer o trono. Haveria de morrer envenenado ao comer estricnina que fora colocada numa propriedade alheia.

 

Mais tarde haveria de chegar o Piloto, um cão viajante, a fazer jus ao nome que recebera. Piloto achava que era rei das redondezas e mal parava em casa. Um autêntico “voluntário”! Saía todas as noites à procura de pequenas e para visitar os seus amigos, chegando a ficar dias fora de casa. Havia duas soluções para ele: prisão perpétua ou castração. Optou-se pela opção menos dolorosa, a segunda! Passou a ausentar-se menos de casa, mas ainda assim era companhia assídua quando um de nós tinha que sair. Era hábito dele acompanhar eu e a minha irmã até a paragem do carro que nos levava para o liceu e quando se visitava alguém, ele era sempre o primeiro a assumir a frente, e mesmo o primeiro a ocupar um lugar na sala de visitas, inclusive quando a minha mãe tinha que ir comparecer na casa de um falecido para entregar aos familiares as condolências, tínhamos que prendê-lo com uma corda, coisa que não servia para nada, já que ele roía a corda e farejava até encontrar a minha mãe. Não sei se estão a imaginar, mas a minha mãe ficava toda embaraçada principalmente porque o Piloto era todo branco…um cão branco numa casa de luto, que vergonha!

 

O reinado do Piloto foi bem mais longo que o seu predecessor mas por ironia do destino o fim haveria de ser o mesmo. Ao acompanhar o meu pai até o curral dos animais, tendo farejado o cheiro de carne, desviou-se do caminho acabando por cair numa armadilha de carne envenenada com estricnina. Com os sintomas de envenenamento ele foi-se deitar no terraço da casa mas, não conseguindo suportar as dores, ao resolver descer, acabou por cair pelas escadas abaixo. Apressei-me para socorre-lo, ainda sem saber as razões de tão inusitada queda. Mas logo vi que era envenenamento porque ele estava paralisado e a contorcer-se todo. Corri para lhe dar água, mas já não havia nada a fazer. Deu o último suspiro nos meus braços. Jamais esquecerei o olhar dele!

 

Voltava-se a dinastia dos Tigres. Agora chegaria a vez de um velhaco ascender ao trono. Outro Tigre…vamos designá-lo de Tigre V, para evitar confusões de nomes. Nunca tínhamos tido um cão especialista em devorar galinhas. Não tendo nós galinhas em casa, o astuto do Tigre V aventurava-se pelas redondezas à procura de capoeiras ou de galinhas soltas. Talvez por ser de estatura pequena, as vitimas só se davam pela sua presença quando lhes enfiava os caninos no pescoço. Mas o Tigre V não tinha por hábito comer a sua presa logo no local do crime. Ele arrastava-a até casa, onde procurava um local escondido para a devorar. Já estávamos a desconfiar que esse cão era um manhento, mas ainda assim deixávamo-lo gozar da sua liberdade. Mas quando outras pessoas começaram a nos relatar as aventuras do Tigre V tínhamos que rapidamente assumir uma posição para pôr cobro às suas manhas. Só havia três alternativas: execução; prisão perpétua ou castração. Execução é uma prática que nunca teve lugar na nossa casa, donde tivemos, numa primeira etapa, que optar pela castração.

 

Era ideia nossa que castrar o Tigre V à frente da sua presa favorita iria demovê-lo de continuar com os seus defeitos. Assim, arranjamos uma galinha para o dia da castração. Quando cheguei com a galinha em casa, com a manha a falar mais alto, o Tigre passou logo a língua pelos lábios, talvez a imaginar como seria delicioso degustar aquele pitéu cru e sem temperos. Prendemos o desgraçado e preparou-se os materiais de castração, mas não lhe vedamos os olhos. Ele teria que ver com os próprios olhos o porquê da castração. A ganir e sempre de olhos fixos na galinha, ele perdeu o direito de deixar descendência. Depois de uns dias a convalescer da perda dos testículos, pensávamos nós que ele já estava curado de toda a espécie de mal. Estávamos totalmente enganados! O desgraçado do cão haveria de voltar a aprontar das suas! Bom, esgotada uma das opções e descartada a da execução, só nós restava condenar-lhe à prisão perpétua! Assim foi! Viva o rei Tigre V! Vida longa acorrentada ao rei Tigre V! Já são mais de dez anos acorrentado, o que não lhe impediu até agora de morder tantas crianças lá mesmo onde está preso e tentar capturar uns pombos e pardais que vão lá importunar-lhe, tentando roubar-lhe a comida. Sorte deles não saberem que estão perante o maior devorador de aves da zona!

 

Nesse entremeio, tivemos ainda em casa o príncipe Bello, um cão arraçado de Dálmata que era surdo e sofria de alguns problemas de saúde, e que cresceu à sombra do Tigre, sem nunca ter conseguido ascender ao trono. Não obstante a sua deficiência, o Bello era um lindo cão e foi amado incondicionalmente lá em casa até há poucos dias quando partiu repentinamente para o paraíso canino. Quando nas minhas recentes férias a Santo Antão lhe dei banho não imaginava que era o último. Até sempre Bello! 

 

Em memória do Bello.

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