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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

DRACUS - O DRAGOEIRO SAGRADO (PARTE II)

 

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Meu nome completo é Lucy Anne Morris Smith, sou viúva, tenho sessenta e dois anos e nasci e cresci no seio de uma família de classe média e de devoção católica que vivia num vilarejo de North Yorkshire. Sou filha única e o sonho do meu pai era ver-me licenciada em Biologia na Oxford. Assim, com 22 anos completei a minha licenciatura e casei-me com Richard Isaac Smith, meu colega de universidade. Meu marido era doutorado em Filosofia e dizia que a missão dele era provar para o mundo que Platão estava certo e que a Atlântida um dia existiu. Passamos a residir aqui em Londres, onde ele doutorou-se em Filosofia Clássica, na Faculdade de Artes e Humanidades da King’s College de Londres e passou a leccionar aulas de filosofia, enquanto eu trabalhava como curadora no Museu de História Natural de Londres.

 

O Richard trabalhava muito. Quando não estava na Universidade a leccionar ou a investigar estava confinado no seu escritório em casa. Às vezes, quando ele não conseguia pregar os olhos, levantava-se de madrugada e descia para o rés-do-chão onde enfiava-se no escritório até à hora do pequeno-almoço, saindo depois para a universidade. Das poucas conversas que tínhamos sobre as suas investigações, lembro-me de uma certa vez ele ter-me dito que nunca tinha estado tão próximo de provar ao mundo que a Atlântida não foi um devaneio do Platão. Segundo ele, tinha provas suficientes que a Atlântida foi uma enorme ilha-continente, muito maior que a Grã-Bretanha, da qual actualmente os únicos vestígios à superfície só poderiam ser encontrados num conjunto de ilhas situadas no oceano Atlântico designado de Macaronésia (Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde) e que uma planta originária desses arquipélagos tinha muito a nos contar.

 

Nas suas viagens, ele já tinha estado na Madeira, nos Açores e nas Canárias, tendo recolhido neste último algumas amostras, inclusive das folhas, sementes e seiva do Dragoeiro (Dracaena draco). Quando olhei aquela planta pela primeira vez pensei que estivesse perante alguma espécie de fauna alienígena. Do meu curso de biologia, apenas lembro-me de uma breve referência que o Darwin fez na sua obra dando conhecimento ao mundo da existência dessa espécie nessas ilhas atlânticas e que ele mesmo pôde comprovar quando por aí passou a bordo do navio Beagle em 1832. Assim, passei a dar mais atenção a essa estranha espécie de planta e comecei a procurar referências sobre ela nas colecções do Museu de História Natural de Londres.

 

Hoje sei que a Dracaena Draco é uma espécie de fauna endémica da macaronésia, estando presente também no pequeno arquipélago de Socotra, no Iémen, que pode chegar a alcançar os 15 metros de altura e 5 metros de diâmetro; com casca lisa tornando-se rugosa de cor castanho-prata, terminando-se numa copa ampla em forma de guarda-sol de contorno circular. O seu fruto é uma baga de formato esférico, numa primeira fase amarelo-esverdeado, tornando-se, quando maduro, laranja brilhante. Mas o mais curioso nessa planta, se é que lhe posso chamar assim, é a sua resina. Quando cortada, a planta sangra literalmente. Pedi ao meu marido umas gotículas da amostra que ele tinha trazido das Canarias para analisar no microscópio, tendo ele consentido o meu pedido.

 

Quando aproximei o olho às lentes do microscópio recuei-me imediatamente para trás. Nunca na minha vida tinha visto algo igual. As células multiplicavam-se a uma velocidade fora do normal, para logo depois voltarem ao estado inicial. Era quase certo que lhes faltava algo para completarem a mutação. Mas tal era um enigma cuja resolução ultrapassava todos os meus conhecimentos científicos. Apressei-me o máximo que pude para chegar à casa e contar logo ao Richard o que havia descoberto.

 

- Não há como acreditar nisso Lucy. É impossível! Essa amostra, da qual dei-te as gotas, foi-me vendida por um descendente dos Aborígenes Canários (Guanches) em 1995 numa feira de antiguidades em Tenerife, e ele garantiu-me ser uma relíquia que, se tivermos em conta a sua linhagem familiar e o facto da conquista castelhana do arquipélago ter ocorrido entre 1402-1496, deve ter quase seis séculos de existência. Segundo o mesmo, os seus antepassados diziam ser os últimos descendentes de um povo que em tempos habitou uma enorme ilha que se perdia para lá do horizonte, que creio ser a Atlântida de Platão, e que o líquido em questão chama-se DRACUS, o sangue da vida – contou-me Richard, enquanto analisava a olho nu o conteúdo contido no pequeno frasco.

 

- Se não tivesse visto com os meus próprios olhos, também não acreditaria que há “vida” nesse líquido de aspecto vermelho que se encontra dentro desse pequeno frasco que seguras nas tuas mãos – disse eu - acho que deverias mesmo ter muito cuidado em manuseá-lo e, tão pouco, ousar-te a experimentá-lo.

 

- Podes estar descansada que jamais cometeria tal erro Lucy! – Tranquilizou-me ele, ao mesmo tempo que se levantava da poltrona da sala dirigindo-se para o escritório.

 

Se tivesse tido conhecimento dos factos que estariam para acontecer, confesso-lhe que jamais teria colocado o meu marido a par das minhas descobertas. A partir desse dia em diante o Richard passou a comportar-se de uma forma estranha. Deu entrada na universidade com um pedido de licença sabática, alegando estar com princípios de um esgotamento mental. Recolheu-se em casa, trancando-se no escritório horas a fio. Dormia poucas horas durante a noite, deixou a barba crescer e passou a adoptar um estilo, na minha opinião, um pouco desleixado para um senhor da sua idade e estatuto social.

 

Tinha um pressentimento que o nosso casamento estava cada dia mais próximo da ruptura. Uma noite, quando eu menos esperava, ele veio ter comigo ao quarto e disse-me que precisava de uma pausa nas suas investigações porque achava que estava a entrar em campos nunca antes explorados pela raça humana e que temia não poder haver retorno. Ele deitou-se e dormiu tranquilamente até que de madrugada começou a ter convulsões. Parecia estar dominado por uma força sobrenatural. De tudo aquilo que saía da boca dele só pude perceber e reter o seguinte: “Dracus insulae meridianam”. De repente, as convulsões sessaram-se e ele voltou a dormir profundamente como se nada tivesse acontecido.

 

Na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço questionei-lhe se recordava de ter tido um pesadelo enquanto dormia, ao que ele me respondeu que nunca tinha dormido tão bem na sua vida. Assim que terminou a refeição pediu-me licença dizendo que tinha que se recolher ao escritório para arrumar umas papeladas. Mais tarde almoçou comigo, e retornou novamente ao escritório. Donde só saiu a hora do jantar. Disse-me que realmente tinha chegado à conclusão que não adiantava levar adiante as investigações quanto a existência da Atlântida e que queria apenas conhecer o último arquipélago parte da Macaronésia onde ainda não tinha estado, Cabo Verde, e que logo a seguir retomaria as aulas na King’s College de Londres.

 

Ainda lembro-me daquele dia como se fosse hoje. Estávamos na manhã dia 05 de Agosto de 1997. Fazia um calor típico do verão londrino. Fui com ele até ao aeroporto e confesso-lhe que era a primeira vez que lhe via tão feliz nos últimos tempos. Finalmente, ele tinha cortado aquela barba que já lhe chegava acima do peito e os cabelos longos que lhe davam uma aparência de velho. Antes de nos despedirmos, ele disse-me que me tinha deixado uma surpresa na gaveta da sua secretária mas para só entrar no escritório assim que ele ligasse a dizer que tinha chegado ao destino. Senti um aperto no coração, mas no momento não me importei muito com aquilo para não lhe estragar a sua felicidade. Queria que ele fosse despreocupado e com a garantia que eu ficaria bem até ao seu regresso.

 

O avião partiu de Londres às 10h00 horas da manhã em direcção à Lisboa, onde ele faria uma escala de algumas horas enquanto aguardaria o próximo avião que o levaria até a ilha do Sal em Cabo Verde. Ligou-me assim que chegou ao hotel na ilha do Sal a dizer-me que estava seduzido pela beleza do país e que, não obstante o aspecto bastante árido dessa ilha, havia por lá praias paradisíacas. Passaria o resto do dia 06 de Agosto de 1997 na ilha do Sal, a aproveitar as belas praias de areia branca e mar azul-turquesa para repor as energias. No dia seguinte tinha um voo de ligação que o levaria até São Vicente, ponto de escala de onde seguiria para Santo Antão a bordo de uma avioneta. Disse-me que no hotel no Sal tinha visto algumas fotografias da ilha de Santo Antão e que essa tinha um aspecto mais montanhoso e verdejante, sendo cortada por vales profundos que sobem abruptamente, quase que na vertical, mais de mil metros acima do nível do mar. Estava ansioso por conhecer uma zona de nome Janela e visitar uma tal pedra do letreiro.

 

No dia 07 de Agosto de 1997 acordei com uma sensação estranha. Não sei como lhe posso explicar, mas era como se tivessem arrancado uma parte de mim. Estava com uma forte dor de cabeça e optei por ligar para trabalho a avisar que nesse dia não estava em condições de ir trabalhar. Esse aperto não queria abandonar-me e, como que se algo estivesse para acontecer, de repente comecei a pensar no Richard e lagrimas vieram-me aos olhos. Subitamente o telefone tocou. Estavam a ligar do Sal do hotel onde o Richard tinha pernoitado e disseram-me que as noticias que tinham para me transmitir não eram boas. O avião no qual o Richard seguia para Santo Antão não tinha conseguido pousar no aeródromo local, devido à chuva e a neblina, e num esforço dos pilotos para regressar de volta para São Vicente o avião perdeu-se no trajecto e foi-se embater numa montanha a uma altitude superior aos 1300 metros, incendiando-se e matando todos os 18 passageiros e tripulantes que seguiam a bordo.

 

(continua)

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