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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

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NÁUFRAGOS E FAMINTOS: A ÚLTIMA VIAGEM DO JOHN E. SCHMELTZER SS

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No próximo dia 25 de Novembro de 2017 faz 70 anos que o navio da marinha mercante estadunidense John E. Schmeltzer SS naufragou nas proximidades do promontório de Canjana, a 5 milhas náuticas de Ponta de Peça, salvando parte significativa da população da ilha de Santo Antão de morrer à míngua em resultado da grave fome que há anos vinha dizimando os cabo-verdianos.  

 

Durante uma década (1940-1950), Cabo Verde viveu mais uma dura crise humanitária de secas cíclicas e consequente epidemia de fomes. Enquanto noutras partes do mundo, principalmente na Europa, morria-se em resultado dos bombardeamentos da Segunda Grande Guerra Mundial, em Cabo Verde morria-se porque não havia nada para comer ou mesmo para beber. Embora ainda o país fosse parte integrante do império ultramarino português, Salazar não se importou muito com a tragédia que se vivia nessas ilhas, até porque na própria metrópole funcionava o racionamento alimentar e ele já tinha deixado o aviso “livro-vos da guerra, mas não da fome”.

 

Assim, os cabo-verdianos estavam entregues à sua sorte. Cada um tinha que escapar da forma como melhor pudesse. As poucas famílias mais abastadas tiveram também que racionar os escassos recursos disponíveis a fim de poderem sobreviver até o regresso das chuvas. As que não tinham nada apenas tinham que esperar pela hora do livramento divino. Ainda assim, no caso da ilha de Santo Antão, o desespero da fome levava muitos a aventuram-se a “subtrair” produtos hortícolas das hortas das famílias de posse. Para quem fosse apanhado a furtar aplicava-se a lei marcial: o infeliz era chicoteado e/ou assassinado e enterrado no local pelos guardas.

 

Ainda sem nenhum sinal que pudesse indicar que a queda das chuvas estaria para breve, a salvação dos habitantes da ilha de Santo Antão haveria de chegar a partir do mar. Na noite do dia 24 de Novembro de 1947, um navio que tinha partido do Porto de Rosário, na Argentina, com destino a Gotemburgo, na Suécia, com um carregamento de milho estava a cruzar as águas do norte do arquipélago de Cabo-verde. Por volta da meia-noite de 25 de Novembro de 1947, o Capitão do navio, que na altura estava próximo da idade de se reformar, avisou o seu Imediato Karl que a luz emitida pelo Farol de Ponta Machado (São Pedro – Ilha de São Vicente) seria avistada por volta das 04h00 e que o acordasse assim que tal sucedesse.

 

Todavia, o Imediato do navio não respeitou as ordens do seu Capitão e só foi chamá-lo por volta das 05h46 quando lhe relatou que à frente do navio via-se “nuvens ou terra”. Quando a visão do capitão se ajustou à escuridão já era demasiado tarde para evitar o encalhe do navio que viria a ocorrer por volta das 05h49. Ainda ele ordenou que se pusesse o leme o máximo à direita, mas antes que tal ordem pudesse ser efectivada o navio embateu contra os baixios e naufragou.

 

A notícia do naufrágio espalhou-se por todos os cantos e recantos da ilha, atraindo populações de localidades bastante distantes, algumas que ficavam mesmo a dias de caminhada a pé debaixo de um sol abrasador. Como podem imaginar, alguns viajantes provavelmente nunca terão visto o majestoso navio John a repousar-se nos rochedos de Ponta de Peça. A fraqueza, a falta de água potável e as consequências da dura viagem terão reclamado a vida de vários. Aqueles que conseguiram vencer a dura jornada e chegar ao local estabeleceram, juntamente com a tripulação do navio, um pequeno povoado e microeconomia baseados no conteúdo da carga da embarcação. De acordo com informações de um texto que tive acesso, a troca directa consistia por cada lata de milho os ilhéus entregarem uma lata de água aos marinheiros. Sendo que no local em questão não havia água potável, os ilhéus tinham que fazer uma dura viagem à procura desse bem escasso, de modo a poderem adquirir o sustento.

 

Mas a fome era tão severa que a aflição levava muitos a atiram-se ao milho que tinha estado em contacto com a água salgada. Mesmo quando esse milho era consumido depois de fervido muitas pessoas eram acometidas pela disenteria que em muitos casos resultava na morte da vítima. Para evitar consequências de peste pela presença de cadáveres humanos a jazer nas proximidades, estabeleceu-se que os coveiros seriam agraciados com um binde de cuscuz por cada corpo que sepultassem. Mais uma vez a aflição voltou a falar mais alto e a expectativa de ganhar um binde de cuscuz que pudesse adiar a morte fez com que algumas pessoas encontradas em agonia fossem sepultadas ainda com sinais vitais. Não havia tempo para compaixão e ressentimento. Pois, em tempo de fome a selecção natural sacrifica os fracos para garantir a sobrevivência dos mais fortes e o que se fazia era apenas acelerar o processo de morte natural de alguns para garantir o sustento de outros.

 

O povoado conseguiu resistir durante alguns anos subsequentes ao naufrágio, tendo inclusivo aí nascido pessoas. Os tripulantes do navio foram resgatados pouco tempo após o naufrágio e retornaram aos Estados Unidos da América. Em 12 de Janeiro de 1949, um inspector da Guarda Costeira dos USA sediada em Nova Iorque deu entrada com uma ordem pedindo a revogação da licença de Capitão atribuída ao senhor Karl e suspensão do seu título de Imediato por um período de seis meses, ao considera-lo culpado por negligência e incompetência enquanto desempenhava as funções de Imediato do navio John no dia 25 de Novembro de 1947.

 

 Em memória da tripulação do John E. Schmeltzer SS e das vítimas das fomes de 40.

 

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Socram d'Arievilo|2017

 

Nota: o navio representado na imagem é o  Blijdendyk pertencente a mesma classe que o John E. Schmeltzer SS.

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