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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

O CABO-VERDIANO ENQUANTO UM PRODUTO DA ESCRAVATURA MOLDADO PELA ARIDEZ DAS ILHAS

Cabo Verde, embora arquipelágico e insular, é um país que, pelas suas características geomorfológicas e climatéricas, se enquadra no Sahel. O Sahel (que do significado árabe quer dizer “costa” ou “fronteira”) é uma faixa terrestre no continente africano, com uma largura média entre 500 a 700 km e comprimento de 5400 km, delimitado ao norte pelo deserto do Saara, ao sul pela Savana do Sudão, a oeste pelo oceano Atlântico e o mar Vermelho a leste. Trata-se de uma região que recebe escassas precipitações, entre 150 a 300 mm por ano, extremamente vulnerável a longos períodos de seca e, consequentemente, afetada por graves e mortais epidemias de fome.

 

No caso de Cabo Verde, desde a sua descoberta em 1460 e posterior povoamento com brancos oriundos da Europa (Portugal) e escravos capturados no continente africano (Costa da Guiné) muitos têm sido os episódios marcados por longas secas e consequentes epidemias de fome que resultaram na morte e emigração de boa parte da população do país. No século passado, um dos mais longos e impetuosos períodos de fome foi a chamada fome de quarenta que durou praticamente uma década (1940-1950). Se tivermos em conta que nessa altura Cabo Verde ainda era uma colónia portuguesa (Portugal vivia o tempo de ditadura do Estado Novo: 1933-1974) e que o mundo enfrentava a segunda maior guerra dos tempos modernos (Segunda Grande Guerra,1939-1945), sem a devida assistência alimentar essa fome teve um forte impacto na estrutura da população cabo-verdiana.

 

Desde cedo que o homem cabo-verdiano teve que aprender a se adaptar ao clima árido destas ilhas, tanto é que a música, a literatura, a arte, os usos e costumes e as tradições deste país, de um modo geral, são um produto resultante desta contínua luta que, desde os nossos primórdios, vem sendo travada entre o homem e a seca. Portanto, hoje se somos um povo reconhecido no além-fronteiras pela sua brilhante literatura e riquíssima música, (in) felizmente, em parte, devemos isso a influência da seca nas nossas vidas.

 

Em 2017, mais uma vez a seca assolou estas ilhas e ainda se vive as consequências dela resultantes. Felizmente, hoje ela já não tem o acentuado impacto nas nossas vidas, tal como nos outros tempos, e podemos contar com a pronta ajuda da comunidade internacional para mitigar os seus efeitos, principalmente no mundo rural onde se depende sobretudo das atividades ligadas à terra (agricultura e pecuária). Todavia, com o aquecimento global tendem-se a agravar e a tornarem-se frequentes os períodos de seca, em especial na região onde se enquadra o nosso país, pelo que temos que estar sempre prevenidos para situações como esta que se vem enfrentando desde há quase um ano. Infelizmente, por mais que queiramos e ainda que chova em abundância em algum ano, não se pode ignorar a presença da seca nas nossas vidas. Pois, somos um produto dela.     

 

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