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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

OS VELHOS, OS MENINOS E A MORAL: CONTOS DE STO. ANTÃO

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Santo Antão é uma ilha com um folclore sobrenatural de uma riqueza inestimável. Acontece que o advento da eletricidade a várias ribeiras, muitas delas encravadas entre montanhas que sobem abruptamente em direção ao céu, onde antes se vivia na escuridão total da noite, ocultou de vez o oculto que povoava as nossas mentes e nos fazia tremer de medo, só de ouvir falar nele. Associadas também à chegada da eletricidade está a televisão, e todas as demais tecnologias modernas que levaram à extinção as brincadeiras que a meninada fazia à boca da noite, em especial o hábito de sentar-se à volta de um ancião para ouvir contar estórias e lendas que depois não deixavam vir o sono ou invadiam-no, transformando os sonhos em pesadelos de cortar o fôlego. Sou desse tempo!

Recordo-me de nha Chica Guida, a segunda mãe de quase toda a meninada lá da zona. Parteira dotada de mãos de ouro e que, nos tempos em que quase toda gente nascia em casa, ajudava as mães a trazer os filhos ao mundo. O meu primeiro suspiro neste mundo devo-lho. Muitos de nós roubou-lhe fumo do seu cachimbo e, para a imitar, fazíamos os nossos próprios cachimbos de goiaba verde e piteira de bambu, onde colocávamos tabaco que furtávamos à minha avó. Embora a minha avó não fumasse, ela plantava e secava tabaco que oferecia à nha Chica Guida e nha Mri Laura.

À tardinha vinha nha Chica Guida visitar à minha avó, nha Biata. As duas ficavam a conversar por horas a fio, às vezes também tomava parte do sarau nha Mri Laura. Depois reuníamos junto delas, para que nha Chica Guida nos contasse uma estória. Estórias de capotonas, canelinhas, cachorronas, maçongues, feiticeiras, sereias, encantados, góngões…Lembro-me de uma em que uma mãe que estava à espera de um filho, um dia foi à merada e, na vinda, ao tentar pôr a carga de lenha sobre a cabeça, em dificuldades, escutou uma voz que vinha do seu ventre “ó mê, se’m esdob bo’n de contá ninguém?” (ó mãe, se eu te ajudar, não digas a ninguém?). “Se bô contá, nós dôs tê m’rê!” (Caso contares a alguém, morremos os dois!). A mãe ficou perplexa, mas aceitou a ajuda e guardou segredo. Quando o filho nasceu, esse era um encantado. Mamou e desapareceu!

Os encantados vão para o mar viver com as sereias. De vez em quando visitam as mães para poderem mamar. Mas regressam não na forma humana, mas sim de um bicho qualquer. A mãe não pode assustar-se se vir, por exemplo, um rato a tentar mamar do seu peito. Se gritar, desfaz-se o encantamento e o menino cresce com problemas mentais. De cada vez que o encantado regressa à casa para ser amamentado, traz grãozinhos de areia à sua mãe, que depois transformam-se em ouro.

No caso do encantado do conto de nha Chica Guida, após o parto, as pessoas da aldeia, desconfiadas do destino que a mãe pudesse ter dado ao filho, já que ela não dizia o que era feito dele, chamaram a polícia. Ela foi conduzida à prisão, por infanticídio. No dia seguinte, amanheceu em casa. Por várias vezes foi reconduzida à prisão e sempre voltava à casa, sem que a polícia soubesse como. Então a polícia acabou por deixá-la em paz.

Contava-nos também ela que os maçongues são homens que vendem a alma ao diabo em troca de riquezas. Para manter o pacto com o diabo, todos os anos têm que enviar-lhe a alma de alguém. Caso contrário, iam eles acertar as suas contas com o diabo. Então era costume alguém que andasse às tantas da madrugada sozinho, encontrar cavaleiros vestidos de branco e montados em cavalos brancos. A pessoa era então carregada e deixada num penhasco. Se não caísse e morresse, quando resgatada ficava louca para a vida toda. Também os maçongues costumavam enviar cartas escritas a vermelho. Se o destinatário abrisse a carta, não demorava muito tempo até ver a face da morte.

Noutro conto, havia o caso da “mulherzinha” que vinha à noite à casa de alguém para acalentar o filho. Ouvia-se o bater do pau no pilão ou da roupa na surradeira. Quem durante a vida cometesse um aborto tinha à sua espera, após a morte, uma penitência de 7 anos para cuidar do filho. Sempre que um vivo a afugentasse da sua casa, a sua penitência recomeçava do zero.

Quando se encontrava um cachorrona pelo caminho, convinha que o tratasse pelo nome de um cão do vizinho. Procedendo-se assim, o bicho voltava ao tamanho normal e acompanhava a pessoa até que essa chegasse à sua casa. Jamais se poderia dar as costas ao cachorrona! Quem o fizesse acabaria morto. O melhor a fazer, nesses casos, era entrar em casa de costas viradas para dentro e depois fechar a porta. Caso se encontrasse uma “canelinha” (a canelinha era um esqueleto humano que assombrava as pessoas) dever-se-ia andar às voltas e não em linha reta. Em cada curva ela desmontava-se por completo e, enquanto estivesse a recompor-se, a pessoa ganhava tempo para fugir dela.

Bruxa ou feiticeira, ser com rabo e que voava montado em vassouras. Tinha os dias em que elas tinham que ir voar lá pelas bandas de Curral das Russas e encontrar com o chefe delas, isso normalmente em noites de lua cheia. Teve um marido que andava desconfiado da sua esposa. Achava, com razão, que ela era uma bruxa. Um dia ele fingiu que estava a dormir e deixou sair a alma do corpo da esposa. Ao achar o corpo frio, com uma faca fez nele alguns cortes e aplicou sal. Quando a bruxa regressou, murmurou “en’foi assim q’m txob” (não foi assim que te deixei)! Não conseguindo voltar novamente ao seu corpo humano, a bruxa morreu!

Sobre as sereias, contava-nos que havia uma exímia parteira lá da Sinagoga que fazia o parto delas. Quando assim, vinha o rei delas buscá-la à beira-mar. Ela ia na sua companhia e realizava o parto. Em troca, davam-lhe grãozinhos de areia que se transformavam em ouro e cristais. Também havia a noiva da Boca de Cavoque que assombrava quem por lá passasse em horas minguadas.

Conforme se pode concluir, esses contos e lendas tinham sempre a eles associada uma lição de moral. Aproveitavam-se das trevas da noite para disciplinar as crianças. Duvido que, nessa altura, existisse algum adolescente destemido que ousasse sair de casa à noite para ir a uma festa e só regressar de madrugada. Por outro lado, nos contos das “mulherzinhas” encontramos uma lição de moral no sentido de prevenir a prática sexual com o início da puberdade. Se interpretarmos que “mulher” é aquela que já vive sob as suas responsabilidades, “mulherzinha” poderá ser vista como sendo uma adolescente que se está a armar em “mulher”. Se praticar sexo e daí engravidar, a adolescente vai tentar abortar, de modo a que os pais não saibam e por forma a não arcar com as responsabilidades de uma mãe. Assim, os mais velhos tentavam acobardar as meninas com esses contos que incluíam duras penitências depois da vida para quem praticasse aborto, tentando assim adiar o inicio das práticas sexuais para a vida adulta.

Hoje a realidade é outra. O mundo está demasiadamente esclarecido e a escuridão e suas trevas são coisas do passado. Ninguém já quer contar estórias e, tão-pouco, algum menino/adolescente as quer escutar. A televisão, as redes sociais e os telemóveis entram nas nossas vidas cada vez mais cedo, expondo as crianças a perigos vários. Para onde terá ido a moral?

 

FATCHE E LUME

Bordera de Zegrion tem bijon

Tem bijon cima fijon

Quem qui cá tá q’erditá

Esperá notê di lua cheia

Pá bá oiá fatche e lume

Di bordera té tapume

Ó nhe Mri d’Antona

Bordera já pega lume

Fatche e fatche

Fatche e lume

Coitado di Manelinho

Sê distino na mundo

Lá na fundo d’Ribeirinha

N’esquivâ du’m canelinha

Findá pá meia notê em pino

Ó nhe Mri d’Antona

Bordera já pega lume

Fatche e fatche

Fatche e lume

 

Socram d’Arievilo