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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

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Patchê Parloa: São Nicolau a ilha da Saudade

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Até a minha idade de mais ou menos dezoito anos o meu mundo conhecido se resumia à minha ilha natal, Santo Antão, e à vizinha ilha de São Vicente. Excepto uma atribulada viagem de avião que fiz nos meus primeiros meses de vida, na companhia da minha mãe, entre o Aeródromo Agostinho Neto, na Ponta do Sol, e o Aeroporto de São Pedro,  da qual só sei por ouvir dizer, só tinha viajado de carro e de barco. Mas sempre fui curioso por conhecer outras paragens, mesmo que de forma virtual. Ainda no tempo em que não havia televisão, através do meu livro de ciências integradas já sabia de cor e salteado as dimensões de todas as ilhas de Cabo Verde, suas actividades económicas e vilas principais e datas de descoberta e povoamento. 

 

A ilha de São Nicolau viria a conhecer melhor a sua realidade pelas mãos do ilustre Dr. Baltazar Lopes da Silva, quando li um trecho do seu famoso romance Chiquinho que servia de texto num dos nossos livros de língua portuguesa. Confesso-vos que cada vez que lia aquele texto era capaz, na minha mente, de viajar até a pacata aldeia do Caleijão, tendo como guias os principais personagens do romance, como o Chiquinho, o Toi Mulato, a Mamãe, a Mamãe-Velha e nha Rosa Calita. Gostava particularmente da personagem de nha Rosa Calita que, nas palavras do autor, era uma velha senhora com aspectos de Camões por lhe faltar um olho, exímia contadeira de histórias de quem os meninos gostavam muito. Esse romance marcou de tal modo a minha infância e adolescência que já era um sonho meu um dia poder conhecer de perto a terra natal do menino Chiquinho.

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Até parece que a vida conspira a nosso favor e o destino já vem traçado desde lá do berço. Em Portugal, conheci a Ezilda, moça natural da ilha de São Nicolau, mais precisamente nascida e criada no Caleijão, aquele lugar que eu já ouvia falar desde tenra idade e sonhava um dia poder vir a conhecer. Comecei a namorar com ela e quando regressamos a Cabo Verde, há cerca de um ano, ela disse-me que assim que quisesse poderia ir com ela conhecer São Nicolau. A viagem foi marcada para o mês de Julho. 

 

Em menos de 24 horas estivemos em quatro ilhas de Cabo Verde. Regressamos de Santo Antão para Santiago (Praia), via São Vicente, e logo no dia seguinte já estávamos a apanhar novamente o avião no aeroporto Internacional Nelson Mandela, desta vez com destino a São Nicolau. Mais ou menos por volta das 09h30 da manhã já tínhamos aterrado no Aeródromo da Preguiça. À nossa espera estavam os pais, o tio e o primo da Ezilda. Os pais dela são pessoas de uma simpatia extraordinária (já os conhecia desde a altura em que ainda vivia em Portugal), por isso sinto-me à vontade e como se estivesse em casa.  O Caleijão fica numa encosta sobranceira ao Campo da Preguiça, tem algumas dezenas de casas e tem aspecto de ser bastante produtivo quando chove, mas algo me diz que já não tem a pujança dos tempos do Chiquinho. Tal como a minha ilha natal, São Nicolau também sofre os efeitos da desertificação humana e vê-se isso no pouco movimento de gente nas ruas, terrenos com aspecto baldio e algumas casas abandonadas. Ainda assim, Caleijão é um lugar lindo e não estava nada desapontado por aí estar!

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Estava curioso para conhecer a outrora Vila da Ribeira Brava, hoje elevada a categoria de cidade. Ribeira Brava, ou Stancha, como é carinhosamente chamada pelos residentes, é daqueles lugares que todos os cabo-verdianos têm obrigação de saber da sua existência. Foi lá que, em 1866, nasceu o primeiro Liceu-Seminário de Cabo Verde, escola que nos brindou com uma mão cheia de ilustres intelectuais, onde se destacam Baltazar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, alguns dos mentores da revista Claridade que viria a revolucionar a literatura cabo-verdiana e criar as bases para a emancipação política, social e cultural da sociedade cabo-verdiana de então sob o jugo colonial português. Dada essa sua importância, podemos assim dizer que a Ribeira Brava está para Cabo Verde assim como Coimbra está para Portugal. 

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Assim que se chega ao lugar chamado “Somada” tem-se uma vista completa da Cidade da Ribeira Brava. Alguns metros mais para frente foi construído um pequeno miradouro para as pessoas desfrutarem-se da soberba vista sobre essa pequena mas bem organizada e embelezada cidade-vila. A cidade mantém tão bem preservada a sua herança colonial. As ruas são estreitas e terminam num largo central, denominado Terreiro, onde estão vários edifícios de elevado valor patrimonial e arquitectónico, tais como, a Sé Catedral de Nossa Senhora do Rosário,  a antiga Escola Central Mouzinho de Albuquerque, que alberga hoje a Biblioteca Municipal, e uma praceta bem cuidada e ornamentada  com plantas de flores que recebeu, em 1876, o busto do Dr. Júlio Dias (1805-1873), segundo dizem, um homem nobre e médico do povo que abdicou da sua residência, vendendo-a ao Estado para que nela passasse então a funcionar o Liceu-Seminário de Cabo Verde.

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 @http://photosducapvert.canalblog.com

Por aqueles dias a ribeira que corta a cidade recebia uma feira agro-cultural para dinamizar a pequena economia local. Havia muitos emigrantes que vieram matar as saudades da terra mãe, por isso o movimento junto das pequenas barracas de comes e bebes era notável. Excelente momento para se desfrutar de um dos grogues mais famosos de Cabo Verde, ou porque não beber um delicioso ponche de maracujá, comprar alguns produtos hortícolas, frutas, rendas e bordados, plantas diversas, ou então assistir a preparação tradicional da famosa farinha de pau de São Nicolau e, ao cair da noite, a actuação de grupos musicais/dança locais que nos animam com uma boa rabecada ao ritmo e velocidade que só os "patchê parloa" tão bem sabem dominar. 

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Durante a minha curta passagem por São Nicolau tive ainda oportunidade de conhecer Queimadas e Fajã, dois lugares agraciados com incomensuráveis belezas naturais, a pequena aldeia piscatória da Preguiça, a bela Águas das Patas e o Tarrafal. Neste último, pude ver os enormes atuns que se pescam nas águas ricas ao redor da ilha e que nos chegam à casa enlatados pela famosa fábrica SUCLA. Foi uma pena não ter conseguido ir até a Praia Branca, terra onde dizem ter sido composta a melancólica morna "sodade" que tão bem foi internacionalizada pela nossa saudosa Diva dos Pés Descalços Cesária Évora; o majestoso vale da Ribeira Prata; o Parque Natural do Monto Gordo, um lugar rico em termos de fauna e flora endémicas do arquipélago, que foi há poucos anos eleito, assim como o Carbeirinho, uma das sete maravilhas de Cabo Verde; o Juncalinho e a sua lagoa de água salgada; a Covoada, de entre outros lugares recônditos. Com certeza, irei regressar em breve porque São Nicolau é sinónimo de saudades!

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