Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

Santo Antão e Madeira: gémeos “falsos” separados à nascença?

 

capeverde-76b.jpg

 Foto ilha de Santo Antão: Lonely Planet

A Madeira e Santo Antão são duas ilhas que compartilham muitas semelhanças mas também muitas diferenças. Em termos de dimensão, as duas ilhas são praticamente do mesmo tamanho: enquanto Santo Antão tem 779 km2, a ilha da Madeira fica pelos 742,4 km2, ou seja uma diferença de 36,6 km2 a mais para Santo Antão, o que por outro lado corresponde praticamente ao tamanho da nossa pequena Santa Luzia (35 Km2). Mas, ao contrário de Santo Antão, a Madeira, juntamente com o Porto Santo, as Desertas e as Selvagens, é uma região autónoma de Portugal e, portanto, parte integrante da União Europeia. Já nós por cá, desde 1975 somos, juntamente com as demais 9 ilhas que compõem o nosso arquipélago, parte de Cabo Verde, um país que, não obstante as controvérsias, se considera africano.

 

Tanto Santo Antão como a Madeira fazem parte da Macaronésia (ilhas afortunadas), um conjunto de ilhas atlânticas do Atlântico Norte, situadas entre a Europa e a África, ao qual se junta uma extensa porção da costa noroeste africana que vai do Reino de Marrocos ao Sahara Ocidental (este último, uma antiga colónia espanhola hoje ocupada pelo Reino de Marrocos e reivindicada pela Frente Polisário). É verdade que ao contrário dos nossos primos mais a norte (Arquipélago da Madeira e dos Açores), as Canárias, Cabo Verde e a faixa litoral africana adjacente não foram assim tão abençoados pela chuva. As Canárias ainda assim, à exceção das ilhas mais “coladas” ao continente africano (Lanzarote e Fuerteventura), consegue ter ilhas (La Palma, La Gomera, El Hierro, Gran Canária e Tenerife) com clima bastante aprazível, com os picos montanhosos e encostas cobertos de florestas de pinheiros e louros. 

 

olhares.sapo.jpg

 (Ribeira Brava: Ilha da Madeira (olhares.sapo)

ribeira-da-torre-santo-antao.jpg

Ribeira da Torre: Ilha de Santo Antão (weather2travel.com)

Por cá, embora o nosso arquipélago esteja localizado numa das zonas de convergência de uma das massas de ar mais pluviogénicas à face da terra (a monção do Atlântico Sul) onde se formam os furacões mais destrutivos que chegam a alcançar a costa atlântica americana, a chuva é na grande maioria das vezes uma utopia. Mesmo quando ela vem, é bastante passageira e mal distribuída no espaço. Ainda assim, Santo Antão consegue, em termos climáticos, aproximar-se muito do seu irmão gêmeo da Madeira. Tanto é que temos a nossa pequena floresta de Água das Caldeiras e Pico da Cruz que não se compara em dimensão à Laurissilva da Madeira, todavia igualmente exuberante. O Dragoeiro, outrora bastante comum no nosso país e nos demais arquipélagos macaronésios, ainda é possível encontra-lo em um ou outro ponto da ilha de Santo Antão. Quem sabe em tempos remotos estas nossas ilhas, principalmente as montanhosas, não tenham sido cobertas por exuberantes florestas de Dragoeiros (o tal Jardim das Hespérides), tal qual ainda é hoje o nosso irmão Socotorá, arquipélago situado no indico e que, embora dista apenas 250 km do Corno de Africa, é parte integrante do Iémen (país da península arábica).

 

Santo Antão, tal como a Madeira, tem uma Ponta do Sol e um Paul. Cá temos a Ribeira Grande e eles lá têm a Ribeira Brava. A Ribeira Brava (Madeira) só faz lembrar a foz da Ribeira da Torre. Até o planalto sobranceiro à margem direita da Ribeira Brava faz lembrar o Alto de São Miguel subindo em direção ao Pinhão, só que eles lá não tem (as normas europeias jamais permitiriam tal) as pocilgas que encontramos na Boca de Pinhão que não só são antiestéticas como exalam “une fragrance que nous rappelle de la m#r#e”). Paul, a Madeira tem do Mar e da Serra. Ah, mas nós também temos! Paul a beira-mar, onde a Cidade das Pombas recebe os beijos das ondas atlânticas, na foz da ribeira mais majestosa que há em Cabo Verde, que sobe em direção à Serra (Pico da Cruz) passando pelas belas aldeias do Eito, da Passagem e do Cabo da Ribeira. Só não temos as belas estradas alcatroadas que, quando encontram as montanhas que sobem a pico, entram em tuneis que cortam a ilha em todas as direções. Como assim não temos? Já me estava a esquecer dos tuneis que também na Janela nos permitem vencer a montanha, intransponível durante muitos anos, e que hoje nos fazem chegar ao Porto Novo, contornando a orla marítima da costa nordeste numa estrada de alcatrão. Também a majestosa Ribeira da Torre é serpenteada por uma belíssima estrada de alcatrão que vai da Cidade da Ribeira Grande até ao Xôxô. Mas se tivéssemos recursos como tem a Madeira, também haveríamos de ter uma estrada Porto Novo - Paul - Ribeira da Torre - Ribeira Grande - Garça - Altomira - Tarrafal de Monte Trigo, com tuneis a penetrar as espessas montanhas e a conectar todos os vales e a orla costeira da ilha. Neste cenário, ir da Garça ao Altomira, por exemplo, seria um percurso de poucos minutos e não de várias horas como é atualmente. Aí sim, Santo Antão e a Madeira teriam muito mais em comum para além das belezas naturais e lugares homónimos! 

 

ilha da madeira.jpg

Vila da Ribeira Brava: Ilha da Madeira (Foto Amores)

ribeira grande.jpeg

Cidade da Ribeira Grande: Ilha de Santo Antão (Habitat Dinâmico)

A Madeira tem bananas que dizem ser as mais saborosas de Portugal. Dizem isso porque hoje Santo Antão já não é parte de Portugal! As nossas bananas que se produzem em grandes quantidades nos vales das ribeiras da Torre, Grande e do Paul, que em tempos chegavam às mesas das gentes da metrópole, são um requinto! A Madeira também tem cana-de-açúcar, mas não tem em quantidade que há na nossa ilha de Santo Antão! Dizem que Santo Antão produz 80% da cana sacarina de Cabo Verde mas devido ao açúcar refinado o nosso Grogue, que hoje poderia destronar qualquer Whisky, ser degustado por reis e rainhas da Europa, por atores e actrizes de Hollywood, e por homens de renome do mundo dos negócios, tem pouco valor de mercado. Na Madeira não! Lá tem Poncha, tem aguardente e tem mel, em pequenas quantidades mas com elevado valor de mercado. Quem tem visão sabe que qualidade e quantidade não são sinónimos e que mais vale pouco por muito que muito por pouco. Na Madeira sabem disso. Ah, se sabem!

 

Quando se fala em turismo nas ilhas atlânticas da Macaronésia, a Madeira é uma das rainhas! Em 2017, o arquipélago recebeu o total de 1,4 milhões de turistas que nele pernoitaram ao todo 7,5 milhões de noites. Estes dados representam um volume de negócios a volta dos 400 milhões de euros. É claro que o Porto Santo também contribui para esta performance, mas a jóia da coroa é a Madeira mesmo! Esta ilha é muito procurada principalmente pelo seu Carnaval do Funchal, Festa da Flor e as festividades alusivas ao Natal e Fim-de-Ano. Mas os atrativos não se resumem apenas às festividades. A ilha da Madeira é simplesmente bela! De aspecto montanhoso, tal e qual Santo Antão, a Madeira é trilhada de vales verdejantes e de água cristalina. Essa água cristalina resultante das abundantes chuvas e condensação do nevoeiro nas copas das lauráceas que cobrem os picos montanhosos dessa ilha é conduzida por uma extensa rede de levadas que a levam das vertentes orientadas para norte para o lado sul da ilha, onde ela é menos abundante mas que é onde se encontram boa parte da população madeirense e a maioria das plantações, como é o caso da cana-de-açúcar. Atualmente as levadas da Madeira são um produto turístico muito procurado. Nos vários vales verdejantes situados principalmente na encosta noroeste da ilha de Santo Antão, a mais pluviosa da ilha, também há várias levadas que conduzem a água das nascentes a montante para as parcelas de terreno localizadas em ambas as margens no sentido montante-jusante e principalmente ocupadas pela cana sacarina. Mas, ao contrário da Madeira, em Santo Antão as levadas não estão bem sinalizadas e não se posicionam por enquanto como um produto turístico de excelência desta ilha.

 

depositphotos_78954632-stock-photo-waterfalls-on-t

 Cachoeira no Litoral Norte: Ilha da Madeira (Rechitansorin)

neve-cachoeira1.jpg

Cachoeira de Neve: ilha de Santo Antão (Mikecv)

Por falar em turismo, no caso de Santo Antão a ilha não tem as instalações portuárias e aeroportuárias que há na Madeira. Temos um Porto, mas a sua dimensão só permite que nele atracam navios cruzeiros de pequena e média dimensão, e aeroporto, pelo menos por agora, apenas projeto. Assim, não obstante as várias potencialidades que há em Santo Antão, são poucos os investidores que nela queiram arriscar os seus capitais, donde o turismo é praticamente incipiente e sazonal. Em 2018, dos 716 mil turistas que escolheram as ilhas de Cabo Verde como destino para gozar as suas férias, apenas 26 mil (3,6% do total) passaram por Santo Antão. Todavia esse valor representa um crescimento de 24% face ao período homólogo, o que por si já é um dado animador para os operadores locais e sinal que a ilha está a conseguir paulatinamente conquistar o seu lugar no panorama turístico cabo-verdiano.  

 

As maiores potencialidades de Santo Antão são os seus vários quilómetros de caminhos pedestres (principalmente o que desce da Cova ao Paul) e os seus vários vales verdejantes. Outros produtos que talvez ainda carecem de um maior aproveitamento são a culinária da ilha, as festas de romaria, o próprio processo de fabrico do grogue e porque não as redes de levadas que devem receber obras de sinalização e de melhoramentos em termos de segurança. Não podemos nos esquecer igualmente das vistas estonteantes que temos do cimo das montanhas e que nos convidam a contemplar os vários vales que descem em direcção ao mar e as ilhas vizinhas quando o nevoeiro assim o permitir. Essas vistas seriam muito mais agradáveis se nesses locais construíssemos miradouros.

 

gatyourguide.es.jpg

 Casa Típica: Ilha da Madeira (gatyourguide.es)

casatipicasa.jpg

Casa Típica: Ilha de Santo Antão (flickriver.com)

Como se pôde constatar ao longo deste texto, Santo Antão e a Madeira no plano natural partilham imensas características, donde em termos de planeamento turístico não podemos nunca deixar de olhar para esse “irmão gémeo” como uma inspiração para fazer de Santo Antão uma referência do turismo rural e sustentável de Cabo Verde. É verdade que a Madeira não só é mais verde e mais rica que o nosso Santo Antão, mas podemos sempre aproveitar melhor as semelhanças entre elas para, ainda que pouco, reduzir as diferenças que as separam principalmente no plano de desenvolvimento económico.  

 

Levadas-da-Ilha-da-Madeira.jpg

 Vista Panorâmica: Ilha da Madeira (Madeira.best)

keadventures.jpg

Vista Panôramica: Ilha de Santo Antão (keadventures)

Comentar:

CorretorMais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.