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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

SANTO ANTÃO: PARA ALÉM DAS MONTANHAS E UM POUCO MAIS ALÉM

Santo Antão, a ilha que fica no extremo norte de Cabo Verde, é uma das jóias deste pequeno arquipélago de origem vulcânica. Ao todo, são setecentos e setenta e nove quilómetros quadrados de paisagens de cortar a respiração, uma tela pintada a três cores: azul, verde e castanho. A ilha é tão montanhosa que nela ergue o segundo ponto mais alto do país, Topo de Coroa, um vulcão adormecido, que alcança os mil novecentos e setenta e nove metros acima do nível do mar. Há enormes vales que serpenteiam a ilha em quase toda a sua extensão, alguns deles verdadeiros oásis, onde há água cristalina a brotar das entranhas da terra. Uma terra fértil onde cresce um pouco de tudo de várias espécies de plantas tropicais.

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A ilha é o paraíso da paz e do sossego, ingredientes que vão se escasseando noutras partes do arquipélago. Um dos melhores locais para se meditar e recarregar as baterias. As pessoas são bastante acolhedoras e amáveis. Convidam-te para entrar e descansar um pouco, saborear um delicioso e genuíno grogue, um ponche de mel ou um licor acompanhado de um queijo fresco e doce de papaia. Nas hortas é possível encontrar várias frutas da época, inclusive ainda há quem deixe os cachos de banana amadurecerem na moita.

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Para os amantes da natureza e das caminhadas, a ilha oferece um leque diversificado de paisagens que podem ser exploradas sozinho ou acompanhado. Hoje a minha missão é percorrer parte de uma das ribeiras que, a meu ver, é das mais belas de Cabo Verde. Estou a falar da Ribeira de Chã de Pedras, a principal afluente da Ribeira Grande. A Ribeira de Chã de Pedras, pelo seu turno, tem duas afluentes principais, Ribeira de Agriões e Ribeira de Aguada, sendo que a sua nascente mais alta situa-se na Ribeirinha de Bordeira de Agriões a, mais ou menos, mil metros acima do nível do mar. 

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São 10h30 e o sol já alcançou a margem direita do vale. Munido do meu tablet, começo a descer em direcção à Ribeira de Hortinha, ponto de partida da minha aventura. Mal ponho os pés na ribeira, os meus ouvidos são invadidos pelo cântico da água que faz dos pedregulhos e calhaus diapasão, a medida que segue o seu percurso natural no sentido montante-jusante. A minha primeira paragem é uma antiga captação, construída em 1946 com o objectivo de desviar a água da ribeira para um reservatório que se situa alguns metros a jusante, de onde ela é conduzida por uma levada comprida para irrigar várias parcelas de plantações de cana-de-açúcar ao longo da margem direita do vale. Antes, uma pequena horta construída no meio da ribeira chama atenção de quem por lá passa devido à sua exuberância. A foto que se segue é prova disso.  

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Este ponto da ribeira é um local que reúne todas as condições para nele se construir uma barragem que poderia reter os milhões de metros cúbicos de água que todos os anos aqui passam na época das chuvas. A utilidade da barragem não ficaria só pela retenção de água. Ela poderia servir, perfeitamente, também como ponte de passagem da futura estrada para o povoado de Fajã de Barreira e ser explorada para fins turísticos. Por alguns momentos, deixo-me levar pela imaginação vendo a água a descer pelo vazadouro e ao lado um pequeno restaurante panorâmico com vista para a barragem onde se pode desfrutar da paz e do sossego que reinam por essas bandas, enquanto se molha a garganta seca com uma "geladinha". Algumas gôndolas transportam visitantes e turistas que aqui vêm de propósito para explorar a estreita, mas comprida, albufeira e praticar a pesca desportiva à carpa e outras espécies exóticas de peixe de água doce que nela foram libertadas. Humm que sonho!  

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Bom, de volta à realidade, à medida que vou caminhando para a cima tenho a sensação que há cada vez mais água a brotar das entranhas da terra e a correr ribeira abaixo. É um pequeno rio! Chamo-lhe de "Rio Pedra", em homenagem a zona de Chã de Pedras e pela quantidade de pedras que se encontra aqui. Nos anos anteriores, por esta altura era costume este troço da ribeira estar coberto de pequenas hortas de inhames e batatais, mas as cheias de Setembro de 2016 trouxeram muita areia e pedregulhos, o que inviabilizou, pelo menos por ora, essas plantações. Ainda assim, aqui e acolá vai surgindo alguma parcela de terreno cultivada.

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Estou num ponto onde a ribeira começa a tornar-se mais estreita e a ganhar os contornos de um autêntico canyon. No lugar denominado Ribeira de Martinho há uma pequena cascata com alguns metros de altura proveniente de Bento de Chã de Pedras que, não obstante o reduzido caudal por esta altura do ano, não passa despercebido aos olhos do aventureiro. Excelente lugar para "matar o calor" e estar em sintonia com a natureza! 

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Ainda só estou a meio do percurso e já sinto que valeu a pena ter tirado essas horas do meu último dia de férias para "explorar" uma ribeira que, embora tenha marcado muito a minha infância nas apanhas de agrião que fazia com os meus primos, ainda hoje continua a surpreender-me com os seus segredos e encantos. Uau isto é que é qualidade de vida! Água límpida e refrescante que basta uma simples folha de inhame para ser recolhida directamente das fissuras de onde ela brota das rochas para saciar a sede. Charcos que mais parecem espelhos onde se reflectem o verde dos arbustos e o castanho das enormes montanhas que ladeiam as duas margens da ribeira. Libélulas coloridas  que momentaneamente fazem uma pausa no seu infindável vaivém, enquanto pairam sobre os charcos à procura sei lá de quê! Talvez de um excelente local para depositar os ovos. Pardais que soltam melodias enquanto saboreiam uma outra fruta tropical. Só fazem falta os camarões dos tempos dos meus avós para completar o cenário. Aí é que seria ouro sobre o azul! 

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Estou em estado completamente Zen! Não há terapia melhor que esta para curar o estresse da vida citadina e recarregar as baterias para os desafios do dia-a-dia! As piscinas naturais estão mesmo convidativas para um mergulho relaxante e aqui no meio do nada o melhor é banhar-se tal e qual se veio ao mundo. Mas hoje o tempo é pouco e a bateria do tablet já está nos seus últimos 5%. Por isso, continuo a subir o máximo que conseguir, que ainda há surpresas pela frente dignas de registo.

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Quando saí de casa a bateria do tablet já se encontrava nos 16%. Agora já só me resta nada mais que 3%! Já estou a chegar a Praça Larga e apresso os passos porque não posso ir daqui sem fotografar a Lantchinha. Enquanto isso, mesmo à minha frente, mais uma pequena piscina de água cristalina. Mais uma foto!

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A viagem chegou ao fim, por culpa da bateria! Só tenho mais 1% de energia nela, o suficiente para captar a magnífica queda de água da Lantchinha, na foz da Ribeira de Agriões. Não estamos na época das chuvas, por isso só há um pequeno fio de água a precipitar-se lá de cima, algo que, ainda assim, não lhe tira a sua beleza natural e imponência. Palmas para a mãe Natureza e sua capacidade inigualável de criação!  

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Nas próximas férias prometo vir 100% preparado e dessa vez farei o percurso inverso, começando a explorar a ribeira desde de lá da sua nascente mais alta em Ribeirinha de Agriões, a fim de levar até vocês as esplêndidas imagens de Agriões e Aguada, seus cafezais e suas laranjeiras.

Até a próxima!   

 

 

 

 

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