Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

SANTO CRUCIFIXO EM FESTA

Se não me estou em erro, a última vez que tinha marcado presença numa edição das festas em honra à Santa Cruz foi no longínquo ano de 2004, pouco antes de sair do país para ir completar os meus estudos. Por ser uma festa que tanto adoro, confesso que já tinha imensas saudades.

CAM00481.jpg

 

Actualmente a festa é realizada apenas na vila do Coculi. Mas nem sempre foi assim. Dizem que a princípio ela era organizada no Figueiral mas que uma certa vez alguém de Chã de Pedras conseguiu desviar os tocadores que iam actuar nessa zona, mediante o pagamento de mais dez escudos por hora, ficando assim Chã de Pedras com o direito de organizar afesta. Anos mais tarde, a D. Chiquinha, que era quem organizava a festa, descontente com algo que não correu bem, arrumou as suas coisas e foi organizar a festa em Coculi. Ainda assim, Chã de Pedras conseguiu manter por muitos anos a tradição de organizar a festa, mas já sem o brilho de outrora. Em 2001 houve uma vã tentativa de devolver a festa de Santa Cruz à Chã de Pedras, mas as coisas ficaram muito aquém do programado e não mais se organizou a festa por lá até hoje. Segundo dizem, em tom de piada, a culpa foi do Jorge Neto.

 

Desde que se construiu a estrada de acesso à Boca de Ambas-as-Ribeiras que a festa é comemorada ao longo dessa referida estrada. Há barracas de comes e bebes de um lado e doutro da estrada, começando próximo da Boca do Figueiral e acabando para lá da Delegação Municipal. O troço de estrada está repleto de pessoas a caminhar para cima e para baixo, a conversar umas com as outras, a beber e a comer, a comprar umas peças de roupas nas barracas dos vendedores ambulantes.

CAM00479.jpg

 

Aproveito para fazer uma pausa e observar o jogo da banca. Noutros tempos essa prática era ilegal e sempre que soasse o aviso que lá vinha a polícia o "dealer" desmontava a sua banca e as pessoas dissipavam-se por entre a multidão. Mas hoje não. Segundo me disseram agora o jogo é legal, pelo que há muita gente com as suas bancas a jogarem tranquilamente enquanto a polícia faz a sua ronda. Acho que foi uma óptima ideia terem optado pela legalização do jogo porque é uma prática já enraizada e bastante associada às festas de romarias. Só não sei se é preciso pagar alguma taxa às finanças locais para se poder explorar esse tipo de jogo. Tento a minha sorte apostando uma moeda. Ganho uma vez mas depressa perco o que já tinha ganhado e apresso-me logo para ir embora antes que resolva arriscar mais alguma moeda.

CAM00486.jpg

 

A corrida de cavalos é uma das actividades mais aguardadas nessas festas. Miúdos e graúdos procuram a melhor posição para poderem assistir a chegada do cavalo favorito à meta. Alguns, mais corajosos, aventuram-se dentro da pista à espera que seja ordenada a partida e só se afastam quando os cavalos já estão bem próximos. Os cavalos passam a toda a velocidade e muita gente segue atrás para saber como é que ficaram posicionados. Uma multidão junta-se em frente ao júri contestando a decisão que ditou a despromoção para segundo lugar do cavalo Fast que havia chegado em primeiro. A justificação do Júri é que o jokey que montava o Fast "apertou" o seu adversário e segundo os regulamentos tal prática é penalizada com a desqualificação. Os fãs do Fast não se convencem mas parece que não há volta a dar senão aceitar o veredicto. A algazarra não dá sinais de terminar tão cedo pelo que resolvo deixar a corrida de lado e seguir a minha vida.

CAM00489.jpg

 

Volto a parar junto a uma banca onde se jogam os dados. Desta vez sou apenas levado por uma pequena curiosidade. Nessa banca o "dealer" não é um cabo-verdiano autóctone mas sim cidadão originário da costa ocidental africana, que segundo me tinham dito antes já foi vendedor ambulante mas que hoje se dedica também aos jogos de fortuna e azar. É interessante ver que ele está bem integrado na sociedade cabo-verdiana ao ponto de explorar hoje um costume que antes se reservava aos cabo-verdianos. Fico igualmente contente ao ver que nessa banca não só estavam a apostar cabo-verdianos como havia um sujeito que aparentava traços europeus a fazer as suas apostas. Essa banca é o exemplo que hoje vivemos numa sociedade multicultural. Quem sabe no próximo ano não venha a encontrar uma banca com um "dealer" chinês!

 

Não tenho tempo para aguardar pelo baile popular. Tenho que regressar cedo para casa porque amanhã tenho um compromisso. Parto feliz e de coração tranquilo por saber que treze anos depois voltei a festejar as festas da Santa Cruz. As coisas estão um pouco diferente mas o ritmo e a entrega dos festeiros e o mesmo de sempre. Santo Antão continua a produzir muitos jovens mas ainda falta muito para fazer retornar esses jovens depois dos estudos a fim de garantir um são desenvolvimento dessa ilha apetrechada de um enorme potencial.