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A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

A Pedra do Letreiro

A Pedra do Letreiro é um cantinho onde pretendo partilhar convosco as minhas paixões pela escrita e viagens/caminhadas pelos recantos destes dez grãozinhos de areia espalhados por este imenso Atlântico

SINAKARMA – O DESTINO DE UM POVO ILHÉU

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Quis assim o destino que entre o maior deserto do mundo, o Saara, e uma das maiores zonas de convergência intertropical do mundo, a Monção do Atlântico Sul, brotassem do fundo do oceano umas pequenas e frágeis ilhas, onde a seca e a aridez predominam na maior parte do tempo. A localização geográfica das ilhas de Cabo Verde mais não é senão a morada de um anão no campo de batalha de eternas guerras titânicas entre dois gigantes de forças convergentes. O Gigante do Norte cospe areia e vento seco (bruma seca) para cima das ilhas, numa luta para tentar travar a subida do Gigante do Sul que, piedoso para com o sofrimento do anão que clama água&pão, faz empurrar a chuva na sua direção. É essa luta que moldou a face das ilhas e, posteriormente, o povo que nelas se fez habitar.

Entre junho e novembro, o Gigante do Sul posiciona todo o seu arsenal de ondas, depressões, tempestades e furacões tropicais, na expetativa de poder fazer uma breve incursão um pouco mais a norte, para levar água&pão, explorando alguma fraqueza do Gigante do Norte que, entre dezembro e maio, descarregou todas as suas forças maléficas em cima do anão. Mas, engana-se quem pensa que esta nobre missão do Gigante do Sul seja tarefa fácil e que o Gigante do Norte, ainda que fragilizado pela longa batalha de dezembro a maio, não dê luta. Para ele guerra é sempre guerra e tudo fará para continuar a sua expansão em direção ao sul, tentando engolir de vez o pobre anão. Por isso, por esta altura, ele adota a técnica de guerra de guerrilha, minando o oceano em torno das ilhas-anão, por forma a atacar, de surpresa, o arsenal do Gigante do Sul.

O desejo de água&pão é tanto, mas tanto, que ao longo do tempo o homem que habita este chão-anão aprendeu a ler, no meio envolvente, os sinais que, no seu entender, indicam o aproximar do Gigante do Sul. Na linguagem dos mais velhos, estes sinais são designados “salomões”. É, por exemplo, o cântico noturno do pedreiro, uma ave endémica destes ilhéus, que durante o período, que aqui se designa “azáguas”, no seu voo, solta um constante e estridente “tupi ti gudo”. Há também o lírio, que quando abre a sua flor, é sinal de aumento de humidade e provável chegada das chuvas. O brotar dos rebentos da purgueira, planta bastante resistente e adaptada ao clima maioritariamente árido, que fica desnuda com o agravar da seca mas que com o aproximar das “azáguas” começa a renovar-se e a gerar os seus figos. Assim como o surgimento de musgo verde junto aos rochedos à beira-mar. E, muitos e muitos outros!

Munido de uma esperança que praticamente consegue fazer mover montanhas, o homem aproveita esses sinais para preparar o tabuleiro da ilusão, no qual irá jogar a sua sorte na luta entre o Gigante do Sul e o Gigante do Norte. Ele sabe que o grão na boca é pão mas que também é preciso jogar alguns grãos no tabuleiro da ilusão para o milagre da multiplicação. Assim, faz acordar do sono de meses a enxada, para ser submetida à manutenção. Pois, é preciso levá-la ao ferreiro, para ser apontada, quiçá trocar o velho cabo por um novo ou mudar a cunha. Deixá-la novinha em folha para a azáfama que se aproxima!

Nos picos aguçados dos montes, as meninas nuvens ensaiam uma dança sensual. Descem e sobem os pontos mais altos das laterais do vale, esfregando-se neles de uma forma desavergonhada. Os montes sequiosos preparam-se para receber uma descarga de água, mas no preciso momento, as meninas nuvens fogem, a toda a velocidade, em direção ao mar, deixando a sua trás somente um rastro de gotículas de água que os montes lambem, desesperadamente, como cães no cio. Sentado à entrada da sua casa, o velho agricultor, de cachimbo na boca, vai também soltando nuvens de fumo, como se estivesse a imitar a dança sensual que acontece no cimo dos montes que ladeiam o vale. Ele sabe que o tempo de “azáguas” já se instalou. A razão e a experiência dizem-lhe que deve esperar um pouco mais mas a emoção e o desejo de água&pão atiram-lhe para o jogo.

Já com a enxada renovada, a "merada" da ladeirinha é convertida num tabuleiro, onde, em cada buraco, se atiram grãos que ficam à espera, enquanto os demais jogadores disputam as suas jogadas. Os pardais e os corvos são os batoteiros! Roubam do tabuleiro grãos ainda secos reduzindo as chances que o velho agricultor tem para triunfar. Cedo descobriram que o guarda instalado em posição estática é uma fraude. Seus braços não tem mãos para segurar uma funda para lhes atirar pedras e o seu único pé está preso ao chão, impedindo-lhe de correr. Em jeito de gozo, os bichos de asas transformam-no num poleiro, de onde fazem investidas para roubar grãos do tabuleiro.

Já vamos em agosto! Do céu ainda não caiu chuvas deveras! As sementes que germinaram com a queda das “orelinhas” de névoa são agora plantinhas que contorcem as folhinhas como se quisessem delas mesmas espremer a seiva que o céu lhes nega. É triste o cenário! O velho agricultor vê a sua esperança esvanecer-se, tal e qual as nuvens de fumo que ele solta do seu cachimbo. Esta sina que lhe leva a jogar no tabuleiro da ilusão, ano-após-ano de “capotes” e “chitadas”, vai-lhe corroendo o corpo e alma, tal e qual a ferrugem corrói  o ferro e o “carujo” traga o cabo da enxada. Mas ele sabe que, embora jogar neste chão grão&pão é quase sempre em vão, triunfar no tabuleiro da ilusão exige persistência e resiliência.

Assim, crente que agosto ainda vai terminar a gosto, entregando a setembro o chão molhado, ele remonta o tabuleiro da ilusão para a derradeira jogada. A jogada do tudo ou nada! Setembro que eu me lembro não é feito janeiro soalheiro! Finalmente, o Gigante do Sul triunfará sobre o Gigante do Norte, e as chuvas cairão do céu sobre este chão-anão! Gritaremos pela Santa Bárbara a cada eclodir do trovão que, em clarão do relâmpago, iluminará o vale, da Bordeira ao Tarrafal. Teremos água! Mas nem só de água se faz o pão. Que karma!

texto @socram d'arievilo 

imagem @sapo noticias (noticias.sapo.cv)